
Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
Pensando por nós próprios

Lost Leonardo, Campaigning to leave the EU, Thinking For Ourselves
INDEPENDENT BRITAIN, 17 de Junho de 2016
The Guardian publicou hoje uma peça que é um pouco equivoca relativamente ao Brexit, escrita por Andrew Graham. A tese é uma que temos ouvido centenas de variantes diferentes durante o decorrer da campanha sobre a saída da Grã-Bretanha: que poderá conduzir à diminuição da influência britânica no mundo.
Obviamente, isso é de tal forma falso que desmontar a argumentação apresentada parece quase desnecessário. A UE beneficia de um Parlamento que passa o poder de elaboração das leis – e um grau de responsabilidade de representação internacional da nação – por cima das cabeças dos cidadãos britânicos para as instituições supranacionais que não têm nada a ver com a palavra democracia.
O lado positivo para todos nós quanto à governança nacional da Grã-Bretanha estar a ser mediada pelas instituições da UE em vez de ser assumida pelos nossos políticos, os quais podemos responsabilizar no nosso parlamento nacional democraticamente eleito, é muito menos claro.
Gostaria de explicar a questão de que os compromissos que a Grã-Bretanha faz em termos de autonomia, capacidade de resposta e responsabilidade das nossas políticas internas não valem a pena. A democracia nacional é concebida para se auto-corrigir, enquanto que a governação da UE está concebida para retirar o poder de decisão política e as garantias democráticas dos Estados-nação tradicionais.
O artigo começa de forma bem razoável.
Quase toda a gente concorda que a UE não está a funcionar bem. Também é verdade que em quase todos os cenários, quer estejamos dentro ou fora, esta região permanecerá como o nosso maior e mais próximo mercado. Se é ou não uma região próspera, ou se o virá a ser, é de fundamental interesse para nós. Tudo o que importa é se ela se desenvolve mais ou menos que o Reino Unido estando este fora ou dentro.
Na verdade, num post anterior meu, defendi a posição oposta à de Andrew Graham, que começa com uma réplica semelhante:
A UE está num caminho muito mau. Quer os defensores da saída quer os defensores da presença, respectivamente Leavers e Remainers concordam muito com isso, penso eu.
Então, estamos claramente de acordo com o que se diz do que parece à primeira vista. Onde começamos a discordar é quando Graham diz: “Tudo o que importa é saber se ela [a UE] prospera mais ou menos que o Reino Unido estando este dentro ou fora da UE.” Certamente, que o resto da Europa vá economicamente bem é do interesse da Grã-Bretanha, mas a ideia de que tudo o que importa é o sucesso ou não da UE deixa de abordar a enorme questão política com que o Reino Unido está confrontado: governo autónomo e independente ou subordinação supranacional?
Devem a Grã-Bretanha e o povo inglês ter o poder de assumir a responsabilidade pelas políticas decididas em eleições democráticas, em que se pode mudar o governo e com isso a direcção do país em cada quatro ou cinco anos (agora em cada cinco anos, sob o Fixed Term Parliament Act) ou devemos aceitar a autoridade de um governo supranacional em que a Grã-Bretanha é uma parte constituinte, mas já não é a suprema autoridade legislativa na Grã-Bretanha?
Voltando ao texto de Graham, este continua:
Para alguns, a única maneira de reformar a União Europeia é de quebrá-la com a nossa saída. O optimismo desse ponto de vista é impressionante. A história está cheia de muitos exemplos de destruição que dificilmente levam depois e de forma suave à sua recuperação e regeneração. Bem, talvez, para os ricos e poderosos, que podem ir e ultrapassar os múltiplos obstáculos que lhes apareçam ao longo do caminho. Mas para as pessoas de poucos recursos a que possam recorrer em dificuldade ou que precisem de trabalhar, é um risco que é preferível evitar.
Mais uma vez, concordo com a maior parte desta argumentação. No entanto, eu não prevejo o desmembramento da União Europeia, se a Grã-Bretanha sair. Esta reportagem do The Telegraph indica que “fontes diplomáticas de alto nível” estão cada vez mais resignadas com a perspectiva de a Grã-Bretanha deixar a UE, mas que não estão preparados para oferecer ainda mais concessões.
Este é o tipo de atitude pragmática que seria de esperar de um alto funcionário; Um grito longe dos políticos e dos jornalistas que dominam o debate nos meios de comunicação cada vez mais desligados da população. A UE poderá olhar com algum pesar para a saída da Grã-Bretanha, mas a pertença da Grã-Bretanha à UE tem sido desde sempre turbulenta, desde que Edward Heath mentiu a fim de ter a Grã-Bretanha no que era então a Comunidade Económica Europeia (CEE).
O relatório do The Telegraph diz-nos que cada vez mais funcionários da UE estão a insistir que a União irá aparecer mais forte do que antes se os seus mais membros relutantes optarem por retirar-se depois da votação da próxima semana. O compromisso dos outros Estados-membros da UE de “uma União cada vez mais estreita” é, e sempre foi, muito mais firme do que o empenho da Grã-Bretanha, o que é devido e não em pequena parte à sua grande decepção que as gerações de políticos britânicos têm perpetuado.
A UE não é um bloco comercial, é um governo, mas ainda são os defensores de se permanecer na UE, os Remainers, que quase que exclusivamente argumentam com este ponto de vista na base da economia e não da política. As poucas áreas da política que os Remainers irão promover têm a ver com os direitos dos trabalhadores e com as protecções ambientais que estão associadas à UE simplesmente porque isso é o portal legislativo e regulamentar através do qual a Grã-Bretanha tem acesso a essas convenções globais particulares. Fora da UE, a Grã-Bretanha ainda seria um dos principais autores daqueles quadros legislativos e das suas regras, mas seria o Parlamento a decidir como é que as ditas determinações seriam passadas a lei.
Segundo o The Telegraph, os relatórios das “ligações diárias entre diferentes capitais europeias, em que se discutem planos de contingência para um Brexit” oferecem mais sinais positivos de que a UE está a levar este assunto a sério e que uma gestão para a transição é iminente. A fonte citada continua:
“[Post-Brexit da UE terá encontrado uma identidade e estará a avançar, aprofundando a integração em áreas-chave como a União Monetária e a defesa”
Precisamente as áreas de política, em que o Reino Unido não está envolvido e não é provável que o venha a estar. A fonte rejeitou a Grã-Bretanha como ‘não sendo um jogador’ nos domínios essenciais da UE e disse que as pessoas em Bruxelas agora acreditam que ‘será melhor ter um jogador relutante fora da tenda’. Com efeito, as relações entre a Grã-Bretanha e a UE tem sido prejudicadas desde há muito tempo — pela desilusão e engano de muitos membros do Parlamento e do gabinete de Ministros no que respeita à natureza fundamental do projecto da UE.
Para o efeito, algumas vezes sinto-me de acordo com as declarações feitas pelas autoridades da UE que outros Brexiteers destacam como ‘histórias assustadoras’.
Não me interpretem mal, algumas das afirmações feitas por funcionários da UE contra a democracia e o estado-nação estão verdadeiramente para além do admissível, mas outras são simples enunciados de factos. Por exemplo, o infame comentário de Jean-Claude Juncker de que: “Não pode haver nenhuma escolha democrática contra os tratados da União Europeia”. Tudo o que Juncker está na verdade a dizer aqui é que os Estados-membros da UE são legalmente obrigados a cumprir o contrato que assinaram. Por outras palavras, se é um Estado-membro da UE, então quem tem a suprema autoridade de legislar no seu país é a UE, a Comissão Europeia é o seu executivo, o Parlamento Europeu e o Conselho da União Europeia são o legislativo e o Tribunal de Justiça é o judicial.
Para uma pausa momentânea, este comentário é particularmente pertinente no caso da Grã-Bretanha, porque faz parte da cultura política da Grã-Bretanha respeitarmos os acordos que assinamos. Se o acordo não está a funcionar de acordo com os nossos interesses ou não está a funcionar no sentido do Bem Público, bom, então devemos terminar com o acordo e de forma ordenada. O facto de que fazer isso no caso da União Europeia é tão problemático — mais ainda pelo facto de que o primeiro-ministro e o Chanceler se recusam a participarem num debate racional — é de novo indicativo do seu carácter único no campo das relações internacionais.
Esta é das principais razões pelas quais a farsa em curso sobre a “reforma” deve terminar aqui e agora. A Grã-Bretanha e os outros Estados-membros da UE têm uma perspectiva fundamentalmente diferente sobre o que a UE é e o que a UE deve ser. Martelando sobre este ponto, a fonte de The Telegraph diz-nos: ” toda a gente diz que nós temos dado de mais à Grã-Bretanha, contrariando e em muito as leis em vigor, eles perguntam-nos ‘como é que vocês ainda se podem ver ao espelho’; há aqui uma opt-out relativamente a uma União mais aprofundada e um travão aos benefícios de migração”.
Isto está tão distante do que mesmo muitos activistas do Remain, os que defendem a permanência do reino Unido na UE a fim de lutarem por ainda mais “reformas”, esperavam que o primeiro-ministro iria conseguir que, francamente, não há nenhuma via para resolver a quadratura do círculo. A melhor opção é então a de abandonar a irrealidade da “reforma” e aceitar que as estruturas da UE não são adequadas para a Grã-Bretanha e que elas nunca o serão.
Negociarem e colaborarem juntos não exige nenhum governo comum e ninguém pode negá-lo. É altamente irresponsável e em particular para um primeiro-ministro dizer que, permanecendo, poderíamos alcançar pelo menos um pouco mais de força na disputa com as autoridades da UE, ou ter ido ao ponto de dizer que claro a Grã-Bretanha poderia ter sucesso fora da UE e depois que abandonar a UE e o mercado único “colocaria uma bomba sob nossa economia”.
Mas agora, mesmo nesta fase final da campanha, devo virar a minha ira sobre os defensores do voto na saída da UE, os Leavers. A recusa de Dominic Cummings reconhecer a necessidade de disposições transitórias para salvaguardar a economia britânica na altura da saída foi totalmente desnecessária. A passagem progressiva, a fase de transição, para a saída da UE que reconheça a realidade política de “uma bifurcação dos caminhos ” para a zona euro teria constituído uma base muito mais firme para uma campanha de Brexit. Garantia credível e uma visão alternativa deveriam ter sido as palavras de ordem da campanha Vote Leave, vote na saída.
Não que eu pessoalmente pense — e o tempo pode dizer-nos sobre isto, quando as histórias e as análises pós-referendo forem escritas — que Vote Leave tenha sido necessariamente um actor particularmente importante na subida do Vote Leave. A minha opinião é também a de uma peça como a de John Mann, que disse na BBC Daily Politics: “há uma batalha entre o voto Leave versus um voto Remain e depois há o verdadeiro debate no país”. Iremos ver, suponho.
Tudo isto confere um certo relevo ao artigo do Guardian quando neste se afirma: “a visão alternativa é que o Reino Unido pode e deve, desempenhar plenamente o seu papel como um líder chave na reforma da UE”. Francamente, isso é um absurdo. A Grã-Bretanha não está no euro, nem faz parte do espaço Schengen. A ideia da Grã-Bretanha “líder” da periferia é uma ideia completamente sem sentido. Não é um caso de “nos vendemos a descoberto” para reconhecer que a UE se centra sobretudo na zona euro e que fora isso não há nenhuma boa razão — de facto, existem até desvantagens consideráveis — associadas continuamente com um acordo que assume o controle da política bem longe de Westminster e de Whitehall e em que se substitui a nossa voz independente e a votação a nível global por uma “posição comum” decidida pela UE-28 e inevitavelmente dominada pelo núcleo da zona euro de que a Grã-Bretanha não faz parte e nunca fará. Sem nenhuma responsabilidade pelo comércio, pelas pescas e pelas políticas agrícolas em particular e com uma diminuição de responsabilidade na política externa e na política de defesa, que é agora administrada e parcialmente acordada a nível da UE, a Grã-Bretanha perdeu qualquer coisa dos seus reflexos em pensar em termos de nosso papel global.
Por outro lado, procurar politicas consistentes e conjuntas — o que não é possível, enquanto a Grã-Bretanha tiver que aceitar a “posição comum” da UE em negociações comerciais, nos organismos de normalização globais e cada vez mais na ONU — permitiria à Grã-Bretanha inovar e introduzir novas ideias que representariam o melhor que os ingleses têm para poder oferecer ao mundo.
Contrariando as ultrajantes e assustadoras histórias de David Cameron e de George Osborne tem havido fugas de informações sobre que a função publica está a elaborar planos para se sair de forma controlada da UE e tem encontrado apoio na imprensa independente; talvez mais notavelmente na BBC Newsnight.
Se gostaria de saber mais sobre como a Grã-Bretanha deve e deveria sair da união política que é a UE e reorientar a nossa relação com o resto da UE, de modo a que melhor se sirvam tanto os interesses da Grã-Bretanha como os dos nossos parceiros continentais, então aprofunde esta problemática a partir do arquivo deste blog e veja o material de leitura escrito também por outros sítios Leave Alliance indicados na barra lateral da nossa página:
What is the EU? — The EU Is A Government:
https://independentbritain.wordpress.com/2016/05/15/the-eu-is-a-government/
Why we should leave — The EU Is Anti-Democratic
https://independentbritain.wordpress.com/2016/05/30/the-eu-is-anti-democratic/
No future “reform” — Remainers Want To Bury Dave’s Dodgy Deal
https://independentbritain.wordpress.com/2016/03/01/remainers-want-to-bury-daves-dodgy-deal/
An important point of information — The EU Is Not The Single Market
https://independentbritain.wordpress.com/2016/06/01/the-eu-is-not-the-single-market/
Managing the risks — Running Towards Risk
A gradual transition (a process not an event) — A Transition Plan
https://independentbritain.wordpress.com/2016/05/24/a-transition-plan/
Rebuilding the policy framework — Self-Governance And Global Engagement
https://independentbritain.wordpress.com/2016/06/12/running-towards-risk/
No quick fix — On Immigration
https://independentbritain.wordpress.com/2016/05/29/on-immigration/
An international perspective — Thinking Beyond The Bubble
https://independentbritain.wordpress.com/2016/06/05/thinking-beyond-the-bubble/
A better way to do trade — The Future Is Multilateral Not Supranational
https://independentbritain.wordpress.com/2016/04/25/the-future-is-multilateral-not-supranational/
A positive vision — Rediscovering Our Global Voice
https://independentbritain.wordpress.com/2016/04/25/the-future-is-multilateral-not-supranational/
The heart of the matter — A Point Of Principle
https://independentbritain.wordpress.com/2016/06/14/a-point-of-principle/
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INDEPENDENT BRITAIN – Campaigning to leave the EU, Thinking For Ourselves. Texto disponível em:
https://independentbritain.wordpress.com/2016/06/17/thinking-for-ourselves/
