
Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

A morte de Jo Cox: que consequências sobre o Brexit? That is the question…
Jeremy Stubbs, Meurtre de Jo Cox: quelles conséquences sur le Brexit? That is the question…
Revista Causeur.fr, 20 de Junho de 2016

Nas suas memórias, Simone de Beauvoir, cuja ingenuidade de revolucionária é frequentemente compensada pela sua acuidade de filósofa, conta como, nos anos 30, com o eu companheiro Sartre, analisavam as notícias à procura de sinais premonitórios de uma grande noite comunista que devia conduzir, muito em breve, à instauração na França de uma ditadura do proletariado. Analisavam em especial os fait divers mais violentos a fim de decifrar o máximo de sintomas do desmoronamento iminente da ordem pública burguesa. Por fim, foram obrigados a reconhecer, com uma certa lucidez, que estes acontecimentos pontuais não rimavam com coisa nenhuma. Mortes, assassinatos e outras agressões sangrentas representavam apenas explosões aleatórias de uma violência individual, pessoal, sem alcance político.
Trinta anos depois, Roland Barthes, procurando teorizar os fait divers, retomava esta mesma problemática: “Eis um assassinato: se for político, é uma informação, se não o for, é um fait divers. Porquê? ” De acordo com o autor das Mitologias, o assassinato político é compreensível apenas num contexto mais largo, o da história do seu tempo, das suas lutas políticas e ideológicas, das suas evoluções sociais. Em contrapartida, um fait divers não é assim compreensível neste contexto mais largo. Permanece cercado na sua singularidade; ele tende a constituir uma irrupção da violência irracional no meio da lógica (muito relativa) da vida social e histórica (1).
Fait divers ou crime político?
Quando, quinta-feira, 16 de Junho pelas 13:48, um médico pronunciou o falecimento da deputada trabalhista, Jo Cox, caída sob as balas e os golpes de punhal de um assassino solitário, em plena rua e em frente da biblioteca pública onde se preparava para acolher alguns dos seus eleitores, muito rapidamente se começou a colocar uma questão: tratava-se de um horrível fait divers ou de um crime político? Certamente, o assassino, Thomas Mair, 52 anos, tinha um passado de perturbações psiquiátricas. Aparentemente sem nenhum processo com a justiça , este homem vivia sozinho e, de acordo com os seus vizinhos, fazia trabalho de benevolência para ajudar a ultrapassar os seus próprios problemas de saúde mental. Fait divers, então? Em contrapartida, no momento do assassinato, teria gritado: “A Grã-Bretanha primeiro, que a Grã-Bretanha permaneça independente! ” (“Britain first, keep Britain independent!”) e: “Prioridade à Grã-Bretanha, isto é pela Grã-Bretanha! ” (“Britain always comes first, this is for Britain!”). Aquando do seu primeiro comparecimento frente a um tribunal, sábado 18 de Junho, quando foi solicitado pronunciar o seu nome, ele respondeu: “Morte aos traidores, liberdade para a Grã-Bretanha” (“Death to traitors, freedom for Britain”). Além disso, o tribunal sabe que, aquando da sua detenção, ele tinha pretendido ser “um militante político”. Uma busca ao seu domicílio revelou que tinha relações com organizações de extrema-direita do Reino Unido e dos Estados Unidos, das quais possuía folhetos e panfletos. Crime político, então?
A ambiguidade que envolve este acto pavoroso permanece excessivamente difícil de dissipar. O juiz diante do qual Thomas Mair afirmou um slogan político em vez do seu nome ordenou que seja avaliado por um psiquiatra. Até agora solteiro, um pouco marginal e sem história, Mair não parece de forma alguma ser o agente de uma conspiração longamente urdida por um pequeno grupo extremista. E, no entanto, Jo Cox era conhecida, não somente por defender a causa dos refugiados da guerra na Síria, mas também para defender apaixonadamente a manutenção do Reino Unido na UE. No momento em que a campanha “do Brexiteers” tinha começado a focalizar-se sobre a questão da imigração, publicou um artigo (o seu último), a 13 de Junho, defendendo a ideia de que a saída da UE não traria uma resposta eficaz às apreensões do povo britânico a respeito dos migrantes (2). Ninguém pode ignorar que a sua morte privou o campo “dos Remainers” de um das suas vozes mais empenhadas. Nem que a sua morte intervém exactamente uma semana antes da votação sobre a UE e num contexto onde o debate sobre a imigração se tornou particularmente acrimonioso, para não dizer agressivo. Jo Cox foi morta pelas suas tomadas de posição sobre a UE e particularmente sobre a imigração? Será que isto se pode dizer publicamente sem que se dê o ar de estar a explorar a sua morte trágica para fins vilmente propagandistas?
Quem semeia o ódio?
A classe política tem-se até agora abstido em geral de dar um passo neste sentido. De resto, as duas campanhas oficiais, “Britain Stronger in Europe” e “Vote Leave”, suspenderam as suas actividades a nível nacional de sexta-feira a sábado, em sinal de respeito. As declarações dos líderes dos partidos permaneceram muito gerais. O trabalhista, Jeremy Corbyn, num discurso funerário aquando de uma cerimónia no distrito de Jo Cox ao lados do seu rival conservador, David Cameron, declarou que tinha sido morta “pelo poço do ódio” (“the well of hatred”). Restava aos jornalistas cruzarem o Rubicão e estigmatizarem abertamente o clima deletério da campanha instaurada – na opinião deles – pelos oponentes à UE e da sua forma de explorar o medo do estrangeiro. Às 18:17, o dia do assassinato, Alex Massie, jornalista escocês, afixou um bilhete no blog sobre o sítio da revista muito conservadora, The Spectator, incriminando a retórica incendiária do Brexiteers a respeito da imigração: “Quando se incentiva as pessoas a porem-se fortemente descontentes, não pode pretender-se que se fica surpreendido quando as pessoas se tornam enraivecidas. ” (« When you encourage rage you cannot then feign surprise when people become enraged »). No dia seguinte, no seu programa matinal, o jornalista radiofónico, James O’ Brien, bem mais à esquerda, lançou-se num vibrante solilóquio, questionando primeiro, “é concebível que um homem hoje possa ser incitado a cometer um assassinato pelo debate político e pela situação política? ” Antes de concluir que a mensagem incessante segundo a qual o país era sitiado por hordas de imigrantes teria podido ter uma grande influência sobre um indivíduo desprovido do nível de educação e da lucidez necessários para pôr as coisas em perspectiva.
Estas acusações provocaram à sua volta reacções muito vivas e muito contrastadas por parte do público – em acordo e sem dúvida em desacordo. Certos internautas saudaram a coragem e a perspicácia destes jornalistas, outros condenaram-na como uma maneira vergonhosa de se aproveitarem da situação para apoiar o campo “do yes”. Uma coincidência mais que infeliz conferiu uma dimensão ainda mais sombria ao assassinato de Jo Cox e à controvérsia que se seguiu: no dia do acontecimento trágico, Nigel Farage, o líder do partido nacionalista UKIP, revelava em frente dos meios de comunicação social o seu novo cartaz que mostra uma horda de refugiados sob o slogan, “Ponto de ruptura”. Os tenores da campanha “Voto Leave” apressaram-se de tomar as suas distâncias no que diz respeito à uma forma de extremismo que eles não aceitam, Boris Johnson mantém que “não é a nossa maneira de fazer campanha” e Michael Gove confessa que o cartaz “faz mexer”.
Restam-nos três dias antes deste voto decisivo para o futuro do Reino Unido e para a Europa. Seguidamente, teremos todos de viver com o resultado durante muito, muito tempo, como a família de Jo Cox terá de viver com a sua morte tão brutal. Um fait divers abominável, absurdo, decidirá do destino histórico de um país, de um continente? Uma campanha política terá tido como consequência acidental quebrar a vida de uma mulher também brilhante como extremamente dedicada à sua família? Há uma relação profunda, significativa, entre estes dois acontecimentos? Uma forma de paranóia colectiva a respeito dos estrangeiros encontrou e galvanizou a paranóia individual de um desequilibrado mental? Não sabemos ainda se nós entendemos o vento da História que sopra, ou esta outra história, da qual nos fala Macbeth,” contada por um idiota, cheia de som e de fúria, sem sentido algum.
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(1) – Simone de Beauvoir, La Force de l’âge ; Roland Barthes, « Structure du fait divers », Essais critiques. ↩
(2) – https://www.politicshome.com/news/uk/home-affairs/immigration/opinion/house-commons/76053/jo-cox-mp-brexit-not-answer-uk ↩
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Ler o original em:
http://www.causeur.fr/jo-cox-thomas-mair-brexit-royaume-uni-union-europeenne-38814.html
