CARTA DO RIO – 111 por Rachel Gutiérrez

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Incomoda-me a exposição constante e a repetição sistemática nas TVs de notícias como essa recente da morte de um negro nos Estados Unidos, que desencadeou os assassinatos, por vingança, de cinco policiais visados como brancos entre os quais havia um ou dois negros. No Rio, os conflitos e tiroteios de traficantes com a polícia, nas periferias da cidade, configuram uma guerra interminável e brutal. E tais tragédias, por mais que a mídia as explore transformando-as em mórbido espetáculo quase diário pouco ou quase nada se faz para para evitá-las e mudar efetivamente o que acontece tanto lá como cá. É a cada vez mais triste banalização do horror.

Por outro lado, dá-se pouca ênfase a fatos louváveis e edificantes como, por exemplo,  o da conquista da única vaga para representar o Brasil na 16ª Olimpíada Internacional de Neurociências, da Dinamarca, por uma jovem de 15anos, “de origem pobre, filha de um ambulante e de uma explicadora – que dava aulas para ajudar no sustento da família.” A jovem  Lorrayne dependeu “de uma vaquinha online para obter R$15 mil e fazer a viagem rumo aos seus sonhos.”

E graças ao que aconteceu com  essa menina, ficamos sabendo que as Olimpíadas de Neurociências são competições para estudantes do ensino médio entre 14 e 19 anos que acontecem, atualmente, em mais de 30 países.

Quem é esta nossa heroína?   Lorrayne Isidoro sempre estudou em escolas públicas; fala inglês e francês e está estudando, por conta própria, italiano e dinamarquês “que pretende treinar durante a viagem”.

Ela disse à repórter Simone Candida, numa entrevista para as Organizações Globo:

– Quando era pequena, gostava de observar formigas e plantas. No começo achei que queria ser bióloga. Quando descobri o que era neurociência um estudo voltado para desvendar o sistema nervoso, fiquei muito interessada e curiosa. (…) Decidi, a partir dali,  que quero ser médica, neurologista.  Uma de suas metas é estudar o mal de Alzheimer.

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E eis uma última notícia para divulgar aos quatro ventos: a estudante carioca Lorrayne Isidoro… ficou em 18º lugar na competição – 2016 Brain Bee World Championship – realizada entre 30 de junho e 4 de julho, em Copenhague, na Dinamarca, entre 25 competidores internacionais.  O primeiro lugar foi conquistado por uma adolescente da Romênia.  “Numa das provas, a de clínica geral, que consistia no diagnóstico de doenças, a menina do Engenho Novo levou o 2º lugar”.

É possível que tenhamos aí uma nova Rita-Levi-Montalcini, (a maravilhosa cientista italiana que viveu 103 anos, vencedora do Prêmio Nobel de Fisiologia em 1986).

Ora, isso tudo me remete ao artigo do nosso Senador Cristovam Buarque sempre tão preocupado com a educação e com o futuro das nossas crianças e dos nossos jovens. Ao referir-se, no artigo de sábado, ao que aconteceu na Inglaterra, Buarque escreveu:

A surpresa do voto dos britânicos não surpreende o Brasil. Há décadas, optamos por sair do futuro, preferindo ficar presos ao passado. Nossos investimentos, nossas estruturas não têm preferência pelo futuro, são usados sobretudo para pagar erros e dívidas do passado. Gastamos R$500 bilhões por ano com a Previdência e R$300 bilhões com a Educação. A maioria dos aposentados ainda recebe menos do que o necessário para atender todas as suas necessidades, mesmo assim, considerando o valor per capita, o passado recebe quase duas vezes mais do que recebe o futuro.

Sem incentivo à Educação, que futuro poderemos ter? É possível que pessoas extraordinárias como a jovem Lorrayne se vejam obrigadas a sair do Brasil para continuar seus estudos e pesquisas, ou simplesmente para trabalhar na área da Ciência.

E Cristovam Buarque não se preocupa apenas com a educação das crianças, preocupa-se com sua saúde, com sua integridade, com a própria vida das crianças brasileiras. Vamos ouvi-lo:

… uma pesquisa feita pelo professor Júlio Jacobo Waisenlfisz, coordenador do Programa de Estudos sobre Violência da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais, mostrou que no Brasil  são assassinadas 29 crianças por dia, mais de dez mil por ano.

Pensando em contrapor notícia boa às ruins, temo pelo futuro das crianças e de  jovens como Lorrayne, tão valorosa, tão corajosa.

Num outro polo, positiva ainda que tardia foi a renúncia do Presidente da Câmara, Eduardo Cunha, mas as manobras e os ardis dos que pretendem substituí-lo não inspiram a menor confiança. A luta dos políticos por cargos e poder num momento de crise como o que enfrentamos é, no mínimo, desalentadora para os que tanto desejamos dias melhores.

Só o que consola é a força-tarefa da Lava Jato, que continua determinada a limpar o Brasil de sua tão entranhada e endêmica  corrupção.

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De Curitiba onde florescem, nesta época do ano, ipês esplendorosos, vem nossa esperança e alguma fé no futuro.

1 Comment

  1. * Incrível!*

    *Um flagelo dos deuses menores?*

    *Maria *

    No dia 12 de julho de 2016 às 20:01, A Viagem dos Argonautas escreveu:

    > claracastilho posted: ” Incomoda-me a exposição constante e a repetição > sistemática nas TVs de notícias como essa recente da morte de um negro nos > Estados Unidos, que desencadeou os assassinatos, por vingança, de cinco > policiais visados como brancos entre os quais havia um ou ” >

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