A GALIZA COMO TAREFA – ano, ciclo, futuro? – Ernesto V. Souza

Reyneke153925 de julho justinho aí na porta, dia da pátria, dia de festa maior e dia da Galiza, celebração do Apóstolo santo, fim e princípio de percorridos e ciclos de décadas, centos, de mil anos.

Nunca tão distante eu me sentira da Galiza. Nunca antes tão e tanto desligado. Da gente, dos chamados, manifestos, convocatórias, da política. Nunca tão difícil me resultara enxergar na movimentação da gente a existência de um projeto político, de um corpo nacional andante.

Hoje só vejo os espetros, a Companha dos mortos e dos santos, heróis, bispos, cavaleiros, poetas doutrora, personagens defuntos. Mas afinal da longa comitiva que enceta em tempos remotos da história, não vejo os vivos. Sei que estarão aí, sempre estão, celebrando, enchendo as praças, com músicas, cantigas, bandeiras e corpo de festa… mas eu não os vejo.

Mais um ano que termina e também um ciclo político, ou é apenas pessoal? Não sei, mas algo durante este ano de tanta e cansa, hipócrita irmandade se extinguiu em mim. Deixou de preocupar-me a história, a narrativa, a língua, o debate, a política, os grupos, as pessoas.

Só, contemplo a miséria e a ruindade de uma Galiza fantasmal na que os cegos pretendem guiar os caminhos e perseguem implacáveis os tortos e choscos. Por enquanto nos outeiros as torres feudais, vestem-se de novo de bom perpianho, rodeadas de melhores e mais cuidados fosso e almeias, exibem sem pudor as bandeiras de cada senhorio e privilégio. Nos tristes vilarejos arredor, os tolheitos, matam-se entre eles por uma côdea de pão ou por serem mais entre os criados de mais baixa ocupação. Esbirros violentos campam em grupos, tediosos e arbitrários por causa de um inimigo rebelde atarefado em se exterminar internamente pelo predomínio da facção. Por toda a parte os misturadores vendem a rosto descoberto futuros que os incautos compram.

Na distância, a poeira anuncia as mesnadas armadas que acompanham e protegem censores, juízes, tabeliões, inquisidores e os troveiros, palhaços, soldadeiras que fazem corte arredor dos altos senhores que abandonando a corte da seca meseta se preparam para passar à fresca o festeiro estio.

Leave a Reply