UMA CARTA DO PORTO – Por José Magalhães (139)

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ABRIU A CAÇA AOS GAMBUZINOS

Na última sexta-feira resolvi, como faço muitas vezes durante a semana, passear pelo centro da minha cidade.

 

PRAÇA DA LIBERDADE
PRAÇA DA LIBERDADE

Era já perto do fim da tarde e o calor apertava. As ruas, pejadas de gentes das mais variadas nacionalidades, mais pareciam as da altura do S. João, mas sem martelos, alhos porros ou cidreiras.

Era lindo de se ver, tanta gente, tanta animação, tanto movimento, tanta alegria.

A minha cidade está em grande!

 

RUA DOS CALDEIREIROS
RUA DOS CALDEIREIROS

 

LARGO DE SÃO DOMINGOS
LARGO DE SÃO DOMINGOS

 

De longe a longe, pequenos grupos, de três, quatro, cinco ou mais pessoas, pareciam concentradas em alguma experiência científica.

– Está ali um, falava excitado um qualquer de entre os elementos de um dos grupos, apontando para um lugar onde nada havia.

Sem levantarem os olhos do que tinham na mão, aproximavam-se do lugar indicado e, excitados, abanavam as mãos quase desesperadamente.

– Apanhei-o, falou outro, quase em delírio.

Ali ao lado, um outro pequeno grupo recomeçara a andar com ar desalentado.

– Há mais ali em baixo, diziam.

– Há ali um ginásio.

Mais atrás, ouvi:

– Já choquei um!

Na verdade eu não estava a perceber patavina do que estava a ver. Três ou quatro pessoas tinham, entretanto, chocado contra mim, sem desviarem os olhos do que traziam nas mãos, alguns levantavam os braços para o ar e abanavam-nos. Era-me tudo muito estranho.

Pedi, claro, ajuda ao meu filho, de quase dezassete anos, que me acompanhava.

-Andam à caça dos Pokemons, é o novo jogo que está na moda, disse-me ele.

Pelos vistos o jogo chama-se Pokemon Go (mas, caramba, Go para Where?)

Aos poucos comecei a entender e a perceber da coisa. Tudo se passava virtualmente, através do telemóvel.

– As pessoas andam à caça dos Gambuzinos, pensei de mim para mim.

– É quase a mesma coisa, disse em voz alta, provocando o olhar inquiridor do meu filho.

Obcecados com o jogo, nada viam para além do telemóvel que traziam nas mãos, e nos bonecos virtuais que ali apareciam. A vantagem primeira que me ocorreu, ao pensar no assunto, já conhecedor do que aquilo era, foi a de que não estavam em casa, amarrados a um computador, sem se mexerem. Ali, pelo menos, apanhavam ar, saíam de casa, andavam. Parece que o jogo os manda andar quilómetros, valha-nos ao menos isso. E os bichitos virtuais são mais que muitos, há-os para toda a gente e para todos os gostos e feitios.

Aprendi que há quem peça para entrar em casa de desconhecidos para apanhar um qualquer bicho virtual, ou que saltem muros, ou que não olhando por onde andam quase sejam atropelados.

Mais tarde, quando cheguei a casa, numa rua tranquila da nossa cidade, vi um grupo, grande, eram para aí uns dez, todos juntos e vergados sobre os telemóveis, que abanavam e mudavam de posição sem parar. Vim a saber, que mesmo à minha porta havia um ginásio … seja lá isso o que for.

Esperemos que sosseguem e nada de mal lhes aconteça.

 

 

 

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