REQUIEM PARA UMA UNIÃO EUROPEIA JÁ MORIBUNDA – REFLEXÕES EM TORNO DO BREXIT, DA UE E DA GLOBALIZAÇÃO – 2. OS PERDEDORES DA GLOBALIZAÇÃO ESTÃO REVOLTADOS E BREXIT É APENAS O COMEÇO – por MATT O’ BRIEN – II

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Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

E depois do Brexit caiu o pano e ninguém estava em cena, David Cameron, Boris Johnson, Nick Farage, Jeremy Corbyn tinham desaparecido – Uma série de textos tendo como pano de fundo a União Europeia e a sua classe política

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Os perdedores da globalização estão revoltados e Brexit é apenas o começo

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Matt O’Brien, The world’s losers are revolting, and Brexit is only the beginning

Washington Post, Wonkblog, 27 de Junho de 2016

(continuação)

Não levou mesmo muito tempo, então, para que o globalismo triunfal do Ocidente alimente um nacionalismo revoltado. Nos Estados Unidos é Trump, em França é a Frente Nacional, na Alemanha é a Alternativa para a Alemanha e, sim, na Grã- Bretanha são os defensores do Brexit, os Brexiters.

Assim, a campanha de “Leave” na Grã-Bretanha foi como se poderia esperar especialmente sobre o facto de que a imigração tinha duplicado nos últimos 20 anos porque os povos mais pobres do leste da UE tinham vindo para a Grã-Bretanha procurar trabalho. Os Brexiters exigiram a “retirada do controlo” aos burocratas de Bruxelas. Advertiram que a Turquia está em vias de se juntar à UE — não é verdade — e que iria inundar o país com imigrantes. Disseram que a crise dos refugiados na Europa os empurrou já para lá de “um limite de rutura” utilizando um cartaz a fazer lembrar a propaganda nazi.

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E prometeram utilizar os fundos que agora estão a ser enviados para a UE para o que chamam de Serviço Nacional de Saúde sobrecarregado até agora com imigrantes, em vez dos ingleses. Não se ocupe com os exageros do que diziam quanto às verbas utilizadas que devem ser divididas por dois!

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O seu argumento básico era que a Grã-Bretanha poderia somente parar com este influxo dos imigrantes se saísse da UE e largasse as suas regras que estipulam a livre circulação das pessoas e que as elites tinham falhado para com as pessoas, o povo, esquecendo-se que havia uma Grã-Bretanha para lá de Londres. A única surpresa real é que tudo isto aconteceu na Grã-Bretanha e não em nenhum outro país de UE, uma vez que os ingleses foram suficientemente espertos em não adotarem o euro e evitando assim o pior da recessão em W, duplo V, que atingiu a Europa.

Se hoje Luis XV estivesse no mundo dos vivos poderia então alterar o que disse e declarar: Depois do Brexit, o dilúvio. Isso não é, diga-se, devido ao que o Brexit possa fazer à economia da Grã-Bretanha, mas sim a todo o mundo político. Agora, naturalmente, é verdade que deixando a UE sem obter um novo acordo comercial pelo menos quase tão bom como aquele que tem agora tornará a Grã-Bretanha permanentemente mais pobre. E é igualmente verdade que a incerteza sobre o que será o acordo futuro poderá travar a vontade dos investimentos privados na Grã-Bretanha e poderá assim arrastar a Grã-Bretanha para a recessão. Mas o destino económico de uma pequena ilha não é o que mais preocupa os mercados globais. E o que os preocupa é então saber se o resto de Europa vai seguir o exemplo da Grã-Bretanha a sair da UE e proteger-se com os seus próprios meios? Ou seja se o Brexit não criará o Frexit, o Itexit e o Nexit.

Pode acontecer. Os populistas de direita, apesar de tudo, em França, Itália e nos Países Baixos têm já manifestado o desejo de realizarem os seus próprios referendos sobre continuarem a pertencer ou não à União Europeia.. E se eles ganham, não só poriam completamente de lado o Tratado que institui o mercado único mas a moeda comum também. Vejam, ao contrário de Grã-Bretanha, todos estes países utilizam o euro como a sua moeda. Assim que um deles saísse, duas coisas aconteceriam: Primeiramente, teriam que mudar todo o dinheiro da sua economia de euro para a nova moeda nacional e, em segundo lugar, cada outro país da zona euro preocupar-se-ia com quem seriam o seguinte a fazer o mesmo. O que, por sua vez, criaria lentamente um quadro próprio para se dar uma corrida aos bancos com, sobretudo, as pessoas da Europa do Sul a tentarem colocar fora do seu país os euros que podiam ter ou poderiam vir a ter antes que os euros se transformassem em moeda nacional, transformados por exemplo em liras que não valeriam depois grande coisa em qualquer lugar. Isto é a mãe de todas as crises financeiras. É por esta razão que os mercados bolsistas alemães, franceses, espanhóis e italianos caíram todos eles muito mais longe do que caiu a City quando foi a Grã-Bretanha que votou para sair. Sem dúvida, estes mercados caíram 6,8, 8,0, 12,4 e 12,5 por cento, respetivamente, na sexta-feira, quando a Grã-Bretanha “somente” diminuiu de 3,2 por cento.

(continua)

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Para ler a Parte I deste texto de Matt O´Brien, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, clique em:

REQUIEM PARA UMA UNIÃO EUROPEIA JÁ MORIBUNDA – REFLEXÕES EM TORNO DO BREXIT, DA UE E DA GLOBALIZAÇÃO – 2. OS PERDEDORES DA GLOBALIZAÇÃO ESTÃO REVOLTADOS E BREXIT É APENAS O COMEÇO – por MATT O’ BRIEN – I

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Leia o original em:

https://www.washingtonpost.com/news/wonk/wp/2016/06/27/the-losers-have-revolted-and-brexit-is-only-the-beginning/

 

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