REQUIEM PARA UMA UNIÃO EUROPEIA JÁ MORIBUNDA – REFLEXÕES EM TORNO DO BREXIT, DA UE E DA GLOBALIZAÇÃO – 3. PORQUE É QUE OS BRITÂNICOS DISSERAM NÃO À EUROPA, por JOHN PILGER

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Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

E depois do Brexit caiu o pano e ninguém estava em cena, David Cameron, Boris Johnson, Nick Farage, Jeremy Corbyn tinham desaparecido – Uma série de textos  tendo como pano de fundo a União Europeia   e a sua classe política

john pilger

Porque é que os britânicos disseram não à Europa

John Pilger, Why the British said no to Europe,

johnpilger.com, 25 de Junho de 2016

pilger - I

A decisão de deixar a Europa votada pela maioria dos Britânicos é um ato perfeitamente democrático. Milhões de pessoas comuns recusaram deixar-se impressionar, intimidar e desprezar pelos analistas dos principais partidos, pelo mundo dos negócios, pela oligarquia financeira e pelos grandes meios de comunicação social.

Foi em grande parte o voto dos que estão desiludidos  e desmoralizados pela arrogância dos defensores de uma política de permanência  na UE associada à  desconstrução  de uma política social equitativa na Grã-Bretanha. O Serviço Nacional de Saúde, último bastião das reformas históricas de 1945, foi em grande parte desmantelado pelos Conservadores e pelos Trabalhistas partidários das privatizações e está reduzido a  ter que se bater pela sua sobrevivência.

O alarme foi desencadeado quando George Osborne, secretário ao Tesouro, encarnação do antigo regime britânico e da máfia bancária na Europa, ameaçou amputar de 30 mil milhões de libras esterlinas  o orçamento dos serviços públicos se a população fizesse a má escolha. Esta chantagem foi escandalosa.

pilger - II

O problema da imigração foi explorado durante a campanha com um cinismo levado ao extremo,   não somente  pelos populistas delirantes de extrema direita mas também pelos trabalhistas que arrastam com eles uma velha tradição de racismo, sintoma de corrupção ao nível do topo  e não da  base do partido. Conhecem-se no entanto as razões da presença destes milhões de refugiados que fugiram do  Médio Oriente principalmente– primeiro o Iraque, agora a  Síria – na sequência de  invasões e das agressões lançadas pela Grã-Bretanha, pelos Estados Unidos, pela França, pela União Europeia e pela NATO. Antes disto, houve a destruição deliberada da Jugoslávia; mais longe ainda houve  o confisco da Palestina e a imposição do Estado de Israel.

Os capacetes de plumas desapareceram mas o sangue nunca secou. Este desprezo  do século XIX  pelos   países e os povos, de acordo com a importância da sua utilidade colonial, permanece uma  peça chave  “da globalização” com o seu socialismo perverso para os ricos e o seu capitalismo desenfreado  para os pobres: liberdade para o capital, recusa de liberdade para o trabalho, políticos pérfidos e agentes civis politizados.

Tudo isto   aterrou   agora na Europa, enriquecendo Tony Blair e os seus semelhantes enquanto empobrecendo e dominando milhões de pessoas. Este 23 de junho, os Britânicos não viram outra coisa.

Os  promotores mais eficazes “do ideal europeu” não foram a extrema-direita mas  uma insuportável classe  dirigente de patrícios para  quem  Londres representa o Reino Unido. Os seus membros dirigentes vêem-se como gente instruída, liberal, elite iluminada do século XXI  e mesmo ligeiramente cool. São realmente apenas uma burguesia de  gostos consumistas  insaciáveis, portadora de sentimentos de superioridade ultrapassados.

No seu jornal, o Guardian, estes promotores ladraram dia após dia sobre todos aqueles  que ousavam considerar a União Europeia como profundamente antidemocrática, como  fonte de injustiças sociais e do extremismo virulento conhecido sob o nome de neoliberalismo.

O objetivo deste extremismo é de instalar uma  teocracia  capitalista bloqueada que conforta uma sociedade de  três classes: uma maioria dividida e endividada dirigida por uma classe estruturada estável e uma classe permanente de trabalhadores pobres. Hoje, na Grã-Bretanha, 63% das crianças pobres vivem numa família em que  só um dos seus membros  trabalha. Para eles, a ratoeira das precariedade  já os apanhou. Um estudo diz-nos que 600.000 habitantes da Grande Manchester, a segunda cidade britânica, descobre os efeitos da grande pobreza enquanto 1.6 milhões de Britânicos se afundam na precariedade.

Esta situação catastrófica foi muito pouco evocada  pelos meios de comunicação social controlados pela burguesia, nomeadamente pela BBC dominada por Oxbridge. Durante a campanha do referendo, nenhuma análise detalhada pôde eclipsar o cliché histérico de uma saída da Europa, como se a Grã-Bretanha fosse de repente derivar para as correntes hostis algures ao norte da Islândia.

Na  manhã seguinte à votação,  um repórter  da BBC acolhia os políticos no seu estúdio como velhos amigos dizendo, nomeadamente a Lord Peter Mandelson, arquiteto caído em desgraça do Blairismo: “Porque é que estas estas pessoas rejeitam a Europa a este ponto?”. “Estas pessoas” são a maioria dos Britânicos.

Tony Blair, opulento criminoso de guerra, permanece um herói da classe “europeia” de Mandelson  é um nome que  já  não se ousa mais citar  hoje. O Guardian descreveu Blair no seu tempo como um místico fiel ao seu projeto de guerra depredadora. Após o voto, o editorialista Martin Kettle trouxe uma resposta Brechtiana  de um  mau  uso da democracia pelas massas. “Hoje, podemos admitir  o facto que os referendos são maus para a Grã-Bretanha.” Era um título na sua página. “” O “nós”  não  nos esclarecia mas efetivamente era compreendido, da mesma maneira o que era  “estas pessoas” na  BBC. “O referendo conferiu menos legitimidade às políticas, nada  mais que isso” escrevia Kettle… o veredicto a respeito dos referendos deveria ser brutal: nunca isto mais.

Este tipo de brutalidade a que aspira Kettle é ilustrado pelo espetáculo da Grécia, um país passado ao aspirador. Aí,  houve um referendo que não foi levado em conta. Como para o partido trabalhista na Grã-Bretanha, os líderes do governo Syriza em  Atenas são procedentes de meios de gente de bons rendimentos, gente privilegiada,  educada, roçando o nível da  hipocrisia e as traições postmodernistas. O povo grego   utilizou   corajosamente o referendo para pedir ao seu governo que negocie melhores condições para o acordo concluído em  Bruxelas que esmagava a vida do seu país. Foram traídos como os Britânicos o teriam sido.

Na sexta-feira, a BBC perguntou a Jeremy Corbyn, líder do partido trabalhista, se faria uma  homenagem ao seu parceiro, demissionário  Cameron, no seu combate para “o sim” e então, até  provocar a  náusea, fez uma  homenagem à dignidade de Cameron, recordando o seu apoio ao casamento gay e as suas desculpas às famílias irlandesas pelas vítimas “do bloody Sunday”. Não disse nada quanto aos  germes de divisão semeados no país por Cameron, pelas suas políticas de austeridade brutais, pelas  suas mentiras a respeito das garantias trazidas para o Serviço Nacional de Saúde. Também não recordou a loucura guerreira do governo Cameron: o envio de forças especiais para a  Líbia, o fornecimento de lançadores e munições para a  Arábia Saudita e, acima de tudo,  a sua disponibilidade para uma terceira guerra mundial.

Durante a semana que precedeu  o referendo, nenhum político nem, que eu saiba, nenhum jornalista britânico fez menção ao discurso de Vladimir Putin em S. Petersburgo que comemora o septuagésimo-quinto ano  da invasão da União Soviética pelos Nazis a  22 de Junho de 41. A vitória dos Soviéticos ao preço de 27 milhões de vidas  e da maioria das forças armadas alemãs permitiu-nos ganhar esta segunda guerra mundial.

Putin  comparou o atual reforço febril das tropas da NATO  bem como a consolidação das bases militares nas  fronteiras ocidentais da Rússia à operação Barbarossa do terceiro Reich. Os exercícios da NATO na Polónia foram os mais importantes desde a invasão nazi; a operação Anaconda simulou um ataque da Rússia, provavelmente com armas nucleares. Na véspera do referendo, o secretário geral da NATO, Jens Stoltenberg, preveniu dissimuladamente os Britânicos que poriam em perigo a paz e a segurança se votassem  pela saída da União Europeia. Estes milhões ignoram-no, como ignoraram Cameron, Osborne, Corbyn, Obama e os que dirigem o Banco da Inglaterra; votando assim talvez tenham dado uma esperança de paz real e de democracia na Europa.

 

John PILGER,  Why the British said no to Europe. Texto disponível em:

 

http://johnpilger.com/articles/why-the-british-said-no-to-europe

 pilger - III

 

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