
E depois do Brexit caiu o pano e ninguém estava em cena, David Cameron, Boris Johnson, Nick Farage, Jeremy Corbyn tinham desaparecido – Uma série de textos tendo como pano de fundo a União Europeia e a sua classe política
Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

Depois do Brexit, a Europa pode vir a ser então Europa

Bernard Asso, Après le Brexit, l’Europe peut revenir
Revista Metamag, 28 de Junho de 2016
Bernard Asso, Professor das Universidades ♦
Invocar De Gaulle tornou-se uma espécie de ritual mas não me privarei da gulosice de o fazer nesta fase de Brexit.
É bom recordar que De Gaulle foi sempre hostil à entrada da Grã-Bretanha para a Europa que os países fundadores da época: França – Alemanha – Itália – Benelux estavam a construir.
Com o sentido das suas frases lapidares, recordava que a Inglaterra era uma ilha aberta para o largo, dominada por um prisma essencialmente comercial e porta-aviões avançado dos Estados Unidos.
A sua visão da Europa era marcada pelo interesse das nações mas igualmente pela necessidade de uma reconciliação com a Alemanha, o que fez pelo Tratado do Eliseu em 1963 e ele sucessivamente não deixava de evocar, enquanto que a União soviética exercia o seu imperium, uma Europa que vai do Atlântico aos Urais quando a Rússia renascesse.
Mais de 50 depois, aqui estamos nós .
A partida dos Britânicos pode explicar-se por múltiplas razões
Certamente já não suportavam mais o néo jacobinismo de Bruxelas, da mesma maneira que não suportavam os obstáculos à liberdade do comércio, preferindo um espírito de livre-troca em vez da edificação de normas para um mercado unificado mas sobretudo no 23 de junho, devemos dizê-lo, a maioria dos eleitores que votou pelo Brexit determinou-se se a isso pela questão grave que é a imigração.
Certamente metade da classe política tanto conservadora como trabalhista, quando jogou o Brexit fê-lo, pelo lado dos conservadores ouvindo os seus eleitores, nomeadamente as classes médias desvalorizadas enquanto que pelo lado dos trabalhistas ouvindo os colarinhos azuis, inquietos pela concorrência que estava a ser exercida sobre os seus empregos.
Basicamente, os britânicos desejaram reconquistar a sua soberania para dominarem eles mesmos os fluxos migratórios mesmo se eles o pudessem já ter já feito, mas isso implicava, e implicará, deixarem de ter em conta a jurisprudência do Tribunal de Estrasburgo que privilegia os indivíduos nómadas em vez dos povos
Contudo, os Britânicos nunca tiveram o desejo de uma Europa potência tanto eles são tradicional e historicamente hostis a um continente unificado com um destino político autónomo do mundo anglo-saxónico e hoje em dia com um desejo de relação pacificada com a Rússia.
Hoje as coisas devem ser clarificadas
Convém que os Britânicos se possam separar rapidamente da União Europeia porque os britânicos são portadores dos interesses geopolíticos americanos.
Terão de definir a sua própria estratégia, mas do lado da União Europeu é uma possibilidade histórica para reorientar a Europa para uma Europa das nações, recordando o princípio de subsidariedade segundo o qual os serviços mutualizados europeus só serão competentes quando as instituições nacionais não podem tratar elas mesmas do problema.
Seria indecente não se ter em conta a vontade crescente dos povos da Europa em não quererem mais aceitar, em nome da liberdade de circulação das pessoas, que esta última liberdade seja dedicada à todos e não exclusivamente aos europeus.
Acontece ainda que, para voltar a esta noção da Europa potência continental, vai ser necessário que os Parlamentos nacionais levem a cabo um debate sobre que Europa das nações é que eles querem?
Ouvir-se-ão certamente debates sócios económicos sobre a harmonização fiscal, sobre a harmonização do código do trabalho, sobre os trabalhadores destacados, sobre a cobertura social, debates certamente importantes mas internos.
As verdadeiras questões serão as dos mecanismos de governo, da Europa da defesa, das técnicas de tomadas de decisão mas igualmente daquilo com que se faz uma identidade europeia em partilha, falando, enfim, das origens comuns
Não se pode construir a Europa sobre o único compromisso de respeitar a convenção europeia de salvaguarda dos direitos do homem que serviu demasiado como fundamento ao impérium ideológico do Tribunal de Estrasburgo.
É necessário ter a coragem, se for caso disso, de suspender o alcance desta jurisprudência quando estão em causa os interesses nacionais em matéria de política migratória.
Convém igualmente organizar a zona euro e determinar as condições da harmonização em matéria de política económica.
Mas tudo isto são apenas instrumentos técnicos.
A verdadeira pergunta é a de nos interrogar-mos sobre “o nós” e “os outros”.
Em que é que nós somos europeus enraizados nas nossas pátrias carnais e diferentes “dos outros ” e porque é que queremos ser diferentes “dos outros”?
Não são os debates teóricos sobre as instituições, sobre o direito constitucional, sobre o federalismo, sobre o confederalismo, sobre o juiz europeu, sobre as pautas aduaneiras que regularão a questão central que é a de saber o que é ser europeu hoje e até que preço se está pronto a pagar para continuar a sê-lo?
É uma interrogação filosófica, histórica, política, ou mesmo espiritual.
Não atingir este nível de debate para se situarem em debates técnicos, é fragmentar rapidamente a União Europeia e não ser certo que a Europa se reconstrua a tempo neste período em que os jogadores geopolíticos são ao mesmo tempo os espaços/Estados/continentais e as religiões.
Teremos nós homens e mulheres para o fazer?
De momento duvido porque o mundo político atual tem o nariz enfiado apenas nas questões internas. .
Muitos são originários de um pensamento néo marxista ou social democrata que põe a economia no centro de tudo, ainda que os britânicos acabem de nos mostrar que acabaram de fazer a escolha da sua identidade.
Temos nós as capacidades intelectuais para aprender a conjugar Nações e Europa?
Há demasiada concessão seja para o nomadismo mundializado, seja para o individualismo narcisista para que finalmente se possa levantar o sentimento de que a vida de cada um se possa e simplesmente à vida na sua interioridade.
Somos herdeiros e temos um dever de perenidade para assumir o nosso destino coletivo. A Nação, para este efeito, parece tranquilizar mais as pessoas. O espaço europeu, se é que ele não é apenas isso mesmo, não nos irá tranquilizar se não se tornar um mito inscrito nas origens e no tempo longo da História .
Então, tornado este símbolo comum, ele poderá acrescentar, aos espaços nacionais, um desejo de potência para que os europeus possam ser de novo verdadeiros atores na história.
Bernard Asso, Revista Metamag. Après le Brexit, l’Europe peut revenir Texto disponível em http://metamag.fr/2016/06/28/apres-le-brexit-leurope-peut-revenir/
