REQUIEM PARA UMA UNIÃO EUROPEIA JÁ MORIBUNDA. – REFLEXÕES EM TORNO DO BREXIT, DA UE E DA GLOBALIZAÇÃO – 19. O CADÁVER DA UNIÃO EUROPEIA – O FIM DE UMA ILUSÃO, por JACQUES SAPIR

, por europe_pol_1993

E depois do Brexit caiu o pano e ninguém estava em cena, David Cameron, Boris Johnson, Nick Farage, Jeremy Corbyn tinham desaparecido – Uma série de textos  tendo como pano de fundo a União Europeia   e a sua classe política

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

Jacques Sapir

O cadáver da União Europeia – O fim de uma ilusão, o início de uma outra?

Jacques Sapir, Le cadavre de l’UE

Russeurope, 5 de Julho de 2016

Sapir - I
(Photo : AP21916219_000003)

O Brexit obriga os diversos dirigentes dos países da União Europeia a  uma tomada de consciência da crise que esta última está a sofrer.  Verifica-se que são os dirigentes  franceses que têm mais dificuldade em  integrar esta nova realidade e em fazer-lhe  frente. A saída do mundo das ilusões parece particularmente penosa, quer seja para François Hollande ou para Manuel Valls.

No entanto, este regresso à realidade impõe-se porque a questão  hoje posta já não é a de uma “reforma” da UE mas a da sua transformação radical, acionando a partir daí o fim do projeto federalista.  É neste sentido que se insere  o Apelo  assinada por vinte intelectuais, entre os quais eu próprio (1). A necessidade de manter entre os países europeus – todos os países europeus –estruturas que permitam formas adaptadas de cooperação, é evidente. Mas as instituições da UE já não estão  em condições de assegurar esta função. Neste sentido, a UE morreu.

Esta morte da UE implica que se  tome  consciência das realidades. Ora, algumas de entre elas são particularmente incómodas  para um cérebro que está cheio da propaganda europeísta, como é o caso para uma larga parte da nossa classe política.

1) “O casal” franco-alemão morreu. Esta morte é antiga e convém aqui dizer que este “casal” não funcionou nunca como o terá  pretendido  a imagem complacentemente difundida em França. Este casal entrou em agonia logo que a Alemanha procedeu  à sua reunificação. As tentativas para o  manter  chocaram-se com  esta realidade de que uma Alemanha, quanto a ela, recuperando a sua soberania já  não tinha  necessidade de uma aliança específica com a França. É verdade que as hesitações, as posições que se contradizem umas às outras, os dirigentes  franceses, de Nicolas Sarkozy à François Hollande, acabaram por dá-la como acabada. Por causa de  não terem tido a coragem de falar firmemente com a Alemanha e de a colocar face às  suas responsabilidades, devemos hoje enfrentar uma crise bem pior do que se, em 2010 ou em 2011, tivéssemos posto os dirigentes alemães em frente às suas responsabilidades e tivéssemos dissolvido a zona Euro.

2) As divergências entre Alemães e Franceses quanto ao futuro da UE são irreconciliáveis. A Alemanha não vê outros interesses numa UE reforçada que não seja o controlo que poderá indiretamente exercer sobre as escolhas orçamentais dos países vizinhos. Não quer sob nenhum pretexto comprometer-se na via de mais solidariedade. A França, ou mais exatamente os dirigentes franceses, quer se trate de François Hollande ou Alain Juppé, continuam a fazer crer que uma UE reforçada é possível enquanto que não temos nenhum meio para impor à Alemanha as transferências orçamentais que uma UE reforçada exigiria. Excepto, naturalmente, enviar uma brigada blindada para ocupar Berlim… A única forma de UE reforçada admissível para os líderes alemães é a da extensão da política austeritária. Se não, eles enfiar-se-ão numa  Europa dos Estados que lhes convirá doravante extremamente bem (2). A viragem  de Wolfgang Schäuble, o ministro das Finanças alemão, não foi realmente compreendida, nem mesmo percebida (3). O seu apoio à   Europa das Nações mostra uma mudança significativa na posição oficial da Alemanha.

3) Estas divergências foram reveladas cruamente com o Brexit e pela questão da  atitude a adotar no que diz respeito à Grã-Bretanha. Se o governo francês defender “um divórcio” rápido, choca-se contra o governo alemão que, tanto por pragmatismo económico como por simpatia política com os conservadores britânicos, entende, de acordo com a fórmula, dever  “dar tempo ao tempo”.

4) O estado estrutural incompleto da zona euro e da União Económica e Monetária atingiu actualmente o seu ponto crítico. O aumento  das más dívidas no balanço dos bancos italianos e portugueses, a crise fiscal que se anuncia na Grécia para o fim do verão  são claramente sintomas de uma crise profunda.

Sapir - II

Poids des mauvaises dettes dans les bilans

Nesta situação, é evidente que quanto  mais  tempo se permanecer  na incerteza mais pesado será o preço a pagar.

Esta crise da UE conduz a  uma situação onde há apenas más soluções para o conjunto dos países. No braço de ferro subtilmente travado pelo governo conservador britânico com a UE, ou  uma posição firme é adotada e a Grã-Bretanha poderá recorrer às diversas medidas de dumping fiscal para fazer de modo que esta “firmeza” seja paga e de forma  muito cara pela UE, ou um compromisso razoável  é encontrado e dá-se conta imediatamente  que se pode  sair da UE sem se estar a ter nenhuma  catástrofe. Para já, e de imediato, quer seja nos Países Baixos, na República Checa e até mesmo na  Itália, é já visível o crescer de   importância política da oposição à UE. Portanto, a União Europeia é apanhada entre dois fogos:  ou procura minimizar o custo do Brexit e coloca-se na mão dos seus oponentes, ou procura “fazer pagar” a Grã-Bretanha, como o disseram  muito imprudente e muito estupidamente certos jornalistas, mas então entra-se  numa situação onde as medidas de retorsões britânicas lhe custarão caro, o que dará mais outros argumentos aos adversários da UE.

A única solução inteligente consiste em publicar o falecimento da UE e, como já o escrevemos,  organizar uma conferência entre os países que quererão nela participar para elaborar um novo tratado, substituindo completamente os tratados precedentes, e mesmo  num certo sentido até o tratado de Maastricht, e pondo em seu lugar uma comunidade das Nações. Tal era o sentido desta iniciativa de intelectuais. Naturalmente, não se pode  estar a ter ilusões sobre este Apelo.  Mas, é necessário saber que um  novo sistema de relações será em todo caso um elemento  indispensável para os países europeus.

A União europeia morreu. Temos a escolha de viver com o seu cadáver, e as suas pestilências, com todos os riscos que uma tal política comporta, ou temos a escolha de a enterrar. Mas, para isso, é necessário um novo tratado, não um tratado cópia disfarçada do anterior, mas um tratado refazendo profundamente uma comunidade em vez de uma União. Tal era, e é sempre, o sentido do Apelo assinado. Nós não estaremos na verdade desembaraçados desta  UE senão quando o seu sucessor estiver já no seu lugar.  Mas, para nos pormos realmente a trabalhar, é claro que necessitaremos de uma outra classe política bem diferente daquela  que fazendo parte da maioria no poder ou da oposição, existe hoje na França.

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  1. http://www.lefigaro.fr/vox/monde/2016/06/30/31002-20160630ARTFIG00290-brexit-vingt-intellectuels-eurocritiques-lancent-un-appel-pour-un-nouveau-traite.php
  2. http://www.spiegel.de/international/europe/brexit-triggers-eu-power-struggle-between-merkel-and-juncker-a-1100852.html
  3. http://www.irishtimes.com/opinion/derek-scally-germany-signals-rethink-on-europe-post-brexit-1.2710212

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