
Leonor Beleza diz-se surpreendida pelo chumbo do patrão do Banco Central Europeu (BCE) à sua nomeação para administradora da Caixa Geral de Depósitos (CGD). A sua indicação para tal cargo pelo governo de António Costa também foi uma … surpresa! A indicação de Leonor e a dos outros administradores não-executivos. Muitos deles servidores de interesses privados. Como Paupério, por exemplo, que é o número 2 da empresa do filho do engº Belmiro.
A CGD é o único banco púbico e precisa, dizem, de urgente recapitalização, mas sempre foi o útero quente de alguns dos mais acérrimos defensores do “privado”. Como a drª Celeste Cardona que ali, durante anos a fio, assegurou reforma milionária; ou o ilustre dr. Vara que, como administrador da CGD, sempre foi mãos largas para os seus amigos privados…
A CGD prepara-se para abater 2000 funcionários ao seu efectivo, mas vai ter 19 elementos no seu Conselho de Administração, sendo 11 executivos e oito não-executivos. Os administradores executivos terão direito a vencimentos milionários num país onde o salário médio ronda os 800 euros mensais. Tal acontece porque, diz a propaganda, é preciso ajustar os vencimentos dos gestores públicos aos dos gestores privados. Pena é que tal conceito se esgote no topo…
A drª Leonor, que preside à Fundação Champalimaud por indicação expressa do seu amigo Proença de Carvalho, afirma ter-se disponibilizado para “fazer um esforço suplementar de trabalho e colaborar com uma equipa independente na condução de uma instituição vital para o país.”
E acrescenta:
“Tornei claríssimo desde o princípio deste processo, para mim em Abril passado, que não aceitaria receber por isso qualquer remuneração.”
Regista-se o altruísmo de Leonor e bem pode acontecer que alguma instituição em apuros, pública ou privada, mas de vital importância para o país, venha a solicitar os seus conhecimentos e préstimos logo a esclarecendo que não terá direito a renumeração. Veremos, então, se a senhora presidente da Fundação Champalimaud estará disponível para “fazer um esforço suplementar de trabalho.”
A tempo: Actual Conselheira de Estado, Leonor Beleza é um dos rostos mais conhecidos daquilo que a história recente designa como bloco central de interesses.
Beleza, que foi deputada e secretária de Estado em governos de Balsemão e Soares, titulou o Ministério da Saúde no segundo governo de Cavaco (1985/1990). Abandonou o cargo na sequência de um grave caso de distribuição de sangue contaminado que fez inúmeras vítimas de SIDA e hepatite C. O caso ficou conhecido como o “lote 810536”. Evitou a condenação, pois a acusação de homicídio por negligência entretanto prescreveu e a de homicídio com dolo eventual era bem mais difícil de provar. Apesar disso e dos hemofílicos considerarem que Leonor tem as mãos manchadas de sangue, Jorge Sampaio agraciou-a com a Grâ-Cruz da Ordem Militar de Cristo em Junho de 2005, isto é, poucos meses antes de abandonar o cargo presidencial.

Concordo plenamente com o que está escrito. É vergonhoso o comportamento que o governo tem com estas nomeações, pois só vem confirmar que os interesses dos dois maiores partidos, são no fundo coincidentes. Se uns estão no governo, arranjam “tachos” para os que estão na oposição, e vive-versa quando mudam de cor, do vermelho socialista, para o laranja.
Na manchete desta semana, a bastonária da Ordem dos Advogados, Elina Fraga, é contundente e verdadeira, quando diz: “Não há vontade política de perseguir os poderosos”. Mais palavras para quê!