REQUIEM PARA UMA UNIÃO EUROPEIA JÁ MORIBUNDA. – REFLEXÕES EM TORNO DO BREXIT, DA UE E DA GLOBALIZAÇÃO – 28. EUROPA: HÁ UMA ALTERNATIVA – AS ELITES DEVEM APRENDER COM OS SEUS CIDADÃOS, por GAËL GIRAUD

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E depois do Brexit caiu o pano e ninguém estava em cena, David Cameron, Boris Johnson, Nick Farage, Jeremy Corbyn tinham desaparecido – Uma série de textos  tendo como pano de fundo a União Europeia   e a sua classe política

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

Europa:   Há uma alternativa – As elites  devem  aprender com os seus cidadãos

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Gaël Giraud, director económico da Agência Francesa para o desenvolvimento, 

Europe: There is an alternative – Les élites doivent apprendre de leurs citoyens

Revista Causeur.fr, 18 de Agosto de 2016

A União europeia e o Reino Unido estão  numa  encruzilhada de múltiplos  caminhos. O pior  seria que eles se  obstinem  nas  políticas seguidas desde os anos 1970, a  financeirização,  a desregulação e o autismo face aos que são abandonados na rota  da globalização .

A ideia  difunde-se  segundo a qual o Brexit seria a vitória das  categorias populares que, imagina-se, seriam fortemente incultas e  xenófobas, reticentes em aceitarem os  grandes ventos da história e do progresso. A mesma leitura do acontecimento tinha surgido  depois  da vitória “do não” ao referendo francês de 2005. A parte de verdade desta hermenêutica, é que se trata mesmo de uma rejeição da Europa construída pelas e para as elites  do continente,  cujos 1% dos mais ricos tem  consideravelmente   enriquecido desde há  quarenta anos. O erro está em  acreditar que esta recusa é fundamentada unicamente por um nacionalismo de baixo nível  e não pelo sentimento   amargo de  que a União europeia é, até agora, uma história de sucesso mas somente para estas mesmas elites.

Além disso, o apocalipse prometido aos cidadãos britânicos que ousariam pronunciar-se a favor de saída da  UE   não se irá mesmo verificar. Os vários pontos percentuais  que a libra esterlina acaba de perder  relativamente  ao euro são muito pouco   em comparação com a volatilidade que a divisa britânica  apresenta desde há  um ano e, em especial, os 30% que perdeu desde 2007  face ao euro. Uma desvalorização que tem do resto contribuído para o crescimento da Grã-Bretanha desde o aparecimento da crise dita de subprimes. A volatilidade das taxas de câmbio,  quanto a ela, é em parte devida à desordem   dos capitais supra abundantes  num contexto  em que,  há  cinco anos, pareceria extravagante  torna-se “o New Normal”, com   taxas de juro de longo prazo  duravelmente negativas. Ou ainda a contração violenta da economia mundial: em 2015, o PIB nominal mundial reduziu-se  em   6%. Um pouco  como se tivéssemos eliminado do mapa mundo   a economia japonesa

A verdadeira pergunta que põe a saída do Reino Unido refere-se à   City.  Em 1976, quatro anos após a entrada do Reino na CEE, a economia inglesa, em via da  desindustrialização, tinha apelado ao FMI  para não naufragar – uma consequência remota devida ao  facto de que o plano Marshall foi muito mais generoso para os vencidos da guerra e para a França que para os antigos  colonos da costa Leste. Desde então, a aventura da desregulação financeira e o dumping fiscal inaugurados sob o regime da Thatcher propulsou a  City para o nível  dos primeiros lugares  bolsistas do planeta sem estar a resolver o problema central da economia insular: a dificuldade encontrada para  financiar a indústria. Porque, com quatro décadas de retrocesso, é hoje claro que os mercados financeiros não fornecem, na Europa, o canal de financiamento do sector privado suscetível de assegurar os investimentos que farão, amanhã, a prosperidade dos Europeus. Além disso, uma vez desregulados, estes mercados são a presa recorrente de bolhas especulativas e do rebentamento das crises  financeiras contra os quais é extremamente difícil protegerem-se. O relatório que entreguei no ano passado a  Klaus Welle, o secretário geral do Parlamento europeu, sobre o custo “da não Europa” bancária mostra que no caso de crise da mesma  amplitude que em 2008, a quase totalidade dos grupos bancários sistémicos  europeus entraria em  falência, abrindo um buraco financeiro  de cerca de 1 000 milhares de  milhões de euros no PIB da zona euro, em dois ou três anos. Deste ponto de vista, 0,3 % a 0,5 % a que certos  colegas avaliam as perdas infligidas ao PIB da União pela retirada do Reino Unido são negligenciáveis em comparação com o desastre que representaria um novo krasch  bancário. Ora a separação  entre as cotações na Bolsa  e a economia real torna tal uma correção à baixa inevitável. E no entanto, a União bancária europeia não nos protege.

Os nossos amigos ingleses vão a partir de agora ter de  escolher entre duas opções: continuar a procurar fundar a sua prosperidade sobre os encantos perigosos de uma  City provavelmente enfraquecida  pelo Brexit; ou ver-se obrigada a regulamentar sem compaixão uma praça  financeira  que contribui  em cerca de  15% do seu valor acrescentado (contra menos de 10% na  indústria), o  que quererá dizer, ter de  renunciar, para uma minoria de  entre eles, às rendas que os enriqueceram  desde há três décadas. Ousarão iniciar uma mudança radical de paradigma para um modelo de sociedade menos financeirizada, mais resiliente e menos desigual?

Em frente, o  nosso continente também está  também ele condenado a escolher entre duas vias. A primeira, defendida por Wolfgang Schaüble, consiste pois em  endurecer ainda mais a  utopia ordoliberal  de um governo europeu sem governação  centrado  em torno de um  impossível equilíbrio universal . O jornal Handelsblatt refere-se a um documento da Finanzministerium de Berlim que anunciaria um projeto de reformas na zona euro, incluindo diversas  formas de repressão reforçada contra os países deficitários. Os orçamentos nacionais poderiam a partir de agora   serem rejeitados e o pagamento dos fundos estruturais a dependerem da sua  aceitação por uma autoridade independente ‘ ‘. Um Fundo Monetário Europeu teria a responsabilidade de aplicar as políticas de ajustamento  interno e a supervisão bancária iria ser retirado ao  Banco Central Europeu, para que que este não se  intrometa mais  nos assuntos do sistema bancário alemão. No momento onde o próprio FMI reconhece que o principal risco do sistema  bancário  na zona é incarnado  pelo   Deutsche Bank , a “mística da lei ” dos nossos amigos  alemães  esconde mal uma defesa  mais que banal  dos seus  interesses. Podemos também entender que uma parte da classe política alemã escolhe a postura de endurecimento face aos países  do “ Sul da EU”: os  países do ‘norte’ – Alemanha, Áustria, Holanda e Finlândia – preparariam  discretamente um ‘plano B’ no  termo do qual  poderiam deixar a zona euro  e fundariam uma “zona marco”  . Estes países, mostrando-se  intransigentes,  poderiam criar as condições políticas para a implementação do seu plano B. O que seria então a França? Se persistir em  seguir a Alemanha obviamente seria um erro trágico e industrial.  E romper  a solidariedade com a  União Monetária  exigiria o restabelecimento do controlo de capitais  nas  fronteiras.

A outra via  para a Europa de amanhã, é a  de uma refundação do projeto politico europeu. Isso implica a renúncia no nosso imaginário  de um mundo regulado pela  mobilidade de capitais e pelo direito internacional, este mundo de que o politólogo  de Harvard Rawi Abdelal mostrou que foi parcialmente construído pelos franceses, frequentemente socialistas e católicos, no decorrer da  década de 1990, depois na  direção da OMC, do FMI  ou da  Presidência da Comissão Europeia. A arquitetura jurídica globalizada de que em face  das falhas repetidas das negociações comerciais multilaterais e do descrédito do FMI para os países emergentes, a UE finalmente acabou por encarnar ela mesma  o único sucesso  palpável. A refundação da Europa também requer que se  ponha um fim  no processo de burocratização  das sociedades europeias (tanto no sector público como no privado) em prática  desde  o pós-guerra. Como o sublinha o antropólogo David Graeber, há de fato uma discreta conivência entre a promoção de soluções de mercado e os objectivos das Instituições. Dado que o «mercado» não é uma instituição natural que surgiria espontaneamente da interação social, as  ‘soluções de mercado’ exigem sempre  a promulgação de regras para impor a lógica e há batalhões de burocratas para a fazer aplicar.  A ideologia da privatização mercantil do  mundo é o melhor aliado da burocracia e o principal obstáculo para a reconstrução de uma Europa política.

Se a votação britânica manifesta a rejeição de um determinado tipo de construção europeia por aqueles a quem ela deixou para trás, em que visão de sociedade se quer  agora   reconstruir a ambição europeia? Claro, há uma questão de democracia que  passa, em primeiro lugar, pela transparência das negociações no Conselho da Europa. Mas a democratização institucional não pode ser o projeto político da Europa. A transição ecológica, social e de cidadania destina-se a tornar-se este horizonte mobilizador que faz tanta falta a um continente envolvido num disfuncionamento colectivo  desde a década de 1980. O extraordinário sucesso do COP21 ser posteriormente vir a  tornar-se o acto fundador. Um grande investimento no plano das  infraestruturas  verdes  poderia então levar a que  o continente saísse da armadilha da deflação  em que as consequências da crise de 2008 e a austeridade fiscal estão em vias  de a armadilhar.

O continente europeu e o  Reino Unido estão numa encruzilhada. O pior seria que ambos persistiam no caminho seguido desde a década de 1970, com o argumento  de que não há nada para aprender com as  “lições” que os cidadãos dirigem às  elites. O desespero das classes médias  e das classes trabalhadoras, face a uma globalização geradora de cada vez mais desigualdade  e uma deflação que parece reproduzir  traço por traço exatamente o caminho macroeconómico percorrido na década de 1930, poderá pois levar os europeus a embarcar novamente na esperança de saídas antidemocráticas  que se consideravam  ser apenas pertença do século XX.

Ler o original em:

http://www.causeur.fr/brexit-europe-finance-royaume-uni-39680.html#

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