
Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

Coisas básicas sobre os défices

Bill Mitchel, Budget deficit basics
Billy blog, 4 de Abril de 2011
Sugiro ao leitor que leia a sequência – Deficit spending 101 – Part 1 – Deficit spending 101 – Part 2 – Deficit spending 101 – Part 3 – como base para este texto .
Então o que é exatamente um défice orçamental?
É o resultado líquido de dois grandes fluxos (denominados na moeda que o governo nacional emite) – receitas e despesas públicas. O que é que entendemos por um fluxo? Muitos licenciados em economia não conseguem diferenciar entre um stock e um fluxo.
Um fluxo é uma variável que é medida por unidade de tempo. Assim, por exemplo, um certo número de dólares estão a ser gastos por semana, mês, trimestre. Se um governo está a gastar $10 milhões por dia, então depois de uma semana terá gasto $70 milhões e assim sucessivamente. Se adicionarmos fluxos obtém-se um agregado de mais baixa frequência (uma semana é uma frequência de tempo menor do que um dia).
Uma vez que um fluxo tenha ocorrido, este desapareceu. Tem consequências, mas um fluxo não ” é um reembolso “. ~
Alternativamente, um stock é uma variável que é medida num dado ponto no tempo. Assim, uma quantidade de dólares no final de 2010. Se há 1 milhão de pessoas desempregadas em 2 de Janeiro, 2 milhões em Fevereiro e 3 milhões em Março – estas são medidas de stock . Para obter uma medida de desemprego no primeiro trimestre do ano (Janeiro-Março) nós utilizaríamos uma média das observações dos stocks individuais para obter um valor de 2 milhões.
Um stock é um legado. Os fluxos criam stocks e um enquadramento macroeconómico bem fundamentado tem que ser consistente em termos stock-fluxos. Veja-se o meu texto – Stock-flow consistent macro models para mais desenvolvimentos.
Então os contratos de trabalho firmados (o número de trabalhadores a obterem um emprego por período) e os que deixaram de trabalhar por período conduzem a medidas de emprego e de desemprego em termos de stocks (uma vez que sabemos qual é quantidade de força de trabalho).
Da mesma forma, dependendo do regime específico em vigor, um défice público crescente (o montante líquido dos fluxos de receitas e de despesas) pode adicionar ao stock da dívida pública pendente (um stock) se o governo insiste na emissão de dívida no mesmo montante do défice público . Se o governo não tivesse estes acordos em prática então não haveria nenhuma relação particular entre os défices e a dívida pública pendente.
Os comentadores estão alegremente confundidos ao discutir as consequências económicas dos fluxos (défices ) e do stock (dívida pendente).
Mas quando estamos a pensar sobre os défices nós devemos ignorar as associações com os stocks. Do ponto de vista da moderna teoria monetária (MTM) as implicações de dívida são uma discussão totalmente separada, que não deverá ser realizada ao mesmo tempo que procuramos analisar as consequências dos fluxos.
Então, quando ouvimos alguém dizer que o défice é muito grande (quer em termos absolutos ou em termos relativos (dimensionados em relação ao PIB)) deve-se imediatamente perguntar em relação a quê, relativamente a que valor.
Quando se ouve um político dizer que “os preços vão aumentar por causa do dinheiro que está a ser gasto pelo governo e que está a fluir para o mercado” se o banco central comprou a dívida do Tesouro, deve-se imediatamente levantar duas questões : (a) isso quer dizer que todas as despesas são geradoras de inflação? e (b), que diferença é que faz a emissão de dívida dirigida a detentores privados de obrigações relativamente à colocação de dívida não dirigida a privados?
As respostas que se podem receber serão:
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Sim, os défices são inflacionistas – o que não é uma resposta para a pergunta e diz-nos que a pessoa não entendeu a questão .
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quando os bancos centrais compram dívida só estão a imprimir dinheiro e então haverá “muito dinheiro para procurar muito poucos bens” o que será inflacionista. Mas se emitirmos dívida absorver-se-á essa capacidade de despesa privada e substitui-la-emos pela despesa pública que é menos inflacionista . Se pensarmos sobre isso dentro da lógica errada (dos neoliberais) poderíamos questionarmo-nos se a despesa pública poderá aumentar em alguma coisa a procura .
Um economista convencional no entanto irá abordar o assunto de forma mais analítica. Eu escrevi recentemente (de novo) sobre a literatura à volta das restrições orçamentais – How are the laboratory rats going? – e aqui irei somente indicar as conclusões sem nenhuma explicação. O leitor é encorajado a refrescar sua memória relendo este texto.
O pensamento neoliberal considera que o governo tem de “financiar” as suas despesas públicas como uma família. O governo é como um lar, mas maior a partir da perspectiva de um economista neoliberal é de que o governo é uma super-família.
Então, eles, em seguida, avançam na sua análise para as escolhas do “financiamento” do governo e integram essas opções na análise das consequências da despesa pública .
Para o efeito reescreva-se a equação do constrangimento sobre o orçamento :

que pode ler em inglês, dizendo que o défice público no ano t (BDt) é igual à despesa pública (G) + o pagamento de juros da dívida pública pendente (rBt) – as receitas fiscais (T). Esta diferença deve, por sua vez, ser “financiada” pela variação da dívida pública (B para as obrigações, bonds em inglês ) e/ou uma variação na base monetária (H), em inglês dita high-powered money. Aqui, r é a taxa de juros sobre a dívida pública, e Bt é o stock de títulos pendentes no final do período em questão. O sinal delta representa exactamente variação de uma variável e o pequeno t em índice inferior em cada variável refere-se ao período de tempo t (ou seja, agora).
Note-se que Bt é um stock mas rBt é um fluxo, porque se, digamos, r = 0,05 e Bt foi de $100 milhões, em seguida, rBt seria um fluxo de gastos do governo igual a 5 milhões em determinado período (t).
A mudança na base monetária aumentará se a opção que está a ser discutida no Japão actualmente – o banco do Japão comprar diretamente dívida do Ministério das Finanças – foi a utilizada .
A mudança nas obrigações poderá aumentar se o governo vende títulos no mesmo montante no mercado privado para neutralizar o excesso de despesa pública e dos juros sobre as receitas fiscais (o défice) .
A questão importante é que a teoria macroeconómica neoliberal considera que as consequências do excedente de despesas públicas sobre as receitas públicas diferem consoante se as despesas associadas são (financiadas na sua linguagem) por ΔB ou ΔH.
A Moderna Teoria Monetária contesta este ponto de vista.
Em termos de um modelo macroeconómico consistente de fluxos e de stocks, a equação acima manter-se-á sempre e digo que não atribuo qualquer significado particular a esse resultado. Desde que todas as transações entre o governo e o setor não-governamental sejam corretamente adicionadas e subtraídas, o défice público descrito acima será sempre reflectido pela soma das mudanças em ΔH e ΔB.
Ou seja, em termos da MTM , a equação acima é apenas uma identidade contabilística que tem de se verificar sempre, por definição, uma vez que todas as transações são contabilizadas (isto é, ex post, ou depois dos factos) e não tem nenhuma importância económica real. A despesa tem um significado, mas as operações monetárias (ΔB e ΔH) não.
Mas para o economista neoliberal, a equação representa uma ex- ante (antes do facto ) limitação financeira a que o governo está sujeito. Os defensores da MTM defendem que isto não é verdadeiro como uma matéria de intrínseca capacidade se os governos emitem a sua própria moeda fiduciária . É claro a partir do meu texto da semana passada – We’re sticking to our strict fiscal rules – que o Banco do Japão pode facilitar (termo usado no lugar do “financiar “) as despesas públicas diretamente e o setor privado não tem que comprar nenhum título de dívida .
Sim, ΔH aumentará como uma realidade contabilística mas dado que o Banco do Japão é realmente uma parte do setor consolidado do governo não tem então nenhum sentido considerar que há aqui uma “ limitação financeira”. Veja o meu texto – The consolidated government – treasury and central bank – para mais discussão nesta matéria.
É verdadeiro que os governos podem colocar limitações voluntárias sobre eles próprios por motivos políticos – como na afirmação feita pelo ministro japonês da economia e acima referida. Há muitas limitações ideológicas – justificadas pelo apelo à imposição de disciplina orçamental – que os governos utilizam para tornar a realidade operacional do sistema de moeda fiduciária mais alongada.
Mas podem ser desmanteladas da mesma forma que foram montadas – por uma escolha arbitrária. Não são limitações financeiras na maneira como os manuais neoliberais sugerem Leia por favor o meu texto – On voluntary constraints that undermine public purpose– para mais discussão nesta matéria .
De uma outra perspectiva – a justificação usada para estas limitações voluntárias é pelo menos um pouco macilenta.
A declaração do Ministro japonês da Economia – “tal ação, ignorando a disciplina fiscal” – é bem representativa dos argumentos que foram apresentados após o colapso do sistema de Bretton Woods em 1971 para justificar a continuação de emissão de dívida para o sector privado – quando em termos operacionais, não havia razão para a emissão dessa dívida.
Sob o regime de taxa de câmbio fixa, o sistema de moeda convertível que governou até 1971 (no período pós II Guerra Mundial) os governos financeiramente estavam constrangidos. Após 1971, muitos governos libertaram-se em termos operacionais destes constrangimentos mas foram pressionados pelos conservadores para continuarem a limitar a sua latitude orçamental..
Mas pensem nisso por um momento. Estes políticos procuram votos e então dizem-nos que não são de confiança para exercer o poder que nós lhes confiamos. Isto sempre foi uma absurda contradição.
De qualquer forma, os economistas neoliberais debatem desta forma a escolha entre ΔH (variação da base monetária) e ΔB (variação da emissão de títulos).
A estrutura de referência compara despesa pública financiada por:
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As receitas fiscais (isto é, orçamento equilibrado ).
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Emisssão de títulos ( isto é, ΔB).
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Crescimento da base monetária (isto é, ΔH).
Eles afirmam que o grau de expansão é maior com a terceira opção em relação à variação ΔB, que, por sua vez, é mais expansionista que não haver nenhum défice.
O resultado que ΔH é mais expansionista é baseado em várias hipóteses erradas e sobre a ideia deles quanto ao funcionamento da economia. Os neoliberais alegam que o banco central controla a oferta de dinheiro – porque há um multiplicador monetário a funcionar e que liga as mudanças na base monetária (ΔH) às mudanças mais amplas da oferta de moeda.
Os neoliberais alegam que as taxas de juros são determinadas pela procura privada de moeda em relação a oferta de moeda e em condições normais, quando o governo expande a base monetária as taxas de juros caem o que estimula o consumo privado, além dos gastos do governo.
Eles alegam que a despesa pública aumenta a procura de dinheiro e faz subir as taxas de juro mas a política monetária acomodatícia (ΔH) compensa esta facto em certa medida. Então, o debate tem a ver apenas com a extensão destes efeitos.
Os neoliberais comparam que com emissão de dívida que segundo eles deixa inalterada a oferta de moeda e assim somente os efeitos monetários são uma função crescente da taxa de juro (através da despesa pública que faz aumentar as taxas de juros) o que sufoca o consumo privado. Este é o efeito de evicção. As despesas públicas eliminam ou substituem a despesa privada.
A medida em que isso acontece é um debate sem fim (os académicos neoliberais escrevem infinitamente sobre esta matéria) com os economistas moderados, considerando que a despesa pública seja expansionista, mas menos do que a expansão monetária devido ao efeitos de evicção. Os economistas neoliberais radicais consideram que o efeito de evicção é de 100 por cento. A equivalência ricardiana é uma versão deste ponto de vista extremo.
Os simpatizantes desta visão, então, dizem-nos que a criação da base monetária é a mais expansionista e deve ser evitada porque será inflacionista. Eles invocam a Teoria Quantitativa da Moeda – que afirma existir uma relação direta e proporcional entre o crescimento da massa monetária e a inflação. Esquecem-se de nos lembrar a todos que este resultado só se poderia verificar se houver pleno emprego (e algumas outras hipóteses que também muito raramente se verificam).
(continua)
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Para ler a Parte I deste texto de Bill Mitchell, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, vá a:
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