Olhando a natureza morta,
frias laranjas dormindo
numa fruteira inerme,
silenciosa,
que o azul cerúleo recorta
na quadrícula branca
da janela,
recuso a natureza
assim estagnada,
sem dentes, sem fome, sem desejo,
sem nada que triture as laranjas,
sem dedos que as esmaguem,
nem crianças que partam
a puta da fruteira,
sem sequer um grito de revolta
que trespasse a gélida fronteira
entre a morte e o silêncio
emoldurados
e a vida que se agita,
grita, ruge e dói
deste lado de cá
da maldita moldura.
Recuso a natureza
pálida, parada,
sem aves, vento ou som
que sulquem o azul do céu
desta natureza, assim
tão contra natura
como a que assassinada
a tiros de pincel,
jaz fria, morta e enterrada
na tela e nas cores
desta pintura.
Nota do autor: Este poema, escrito em 1971 , e publicado em O cárcere e o prado luminoso (Salamandra, Lisboa, 1990), condena o tipo de arte meramente decorativa. não-interventiva que. apesar da situação política que por aqueles anos reprimia os mais elementares direitos de liberdade de expressão. se limitava a cumprir critérios estéticos, abdicando da sua função ética. Pelo contrário, a arte de Dorindo Carvalho, exprimia, de uma forma não~demagógica o inconformismo perante as injustiças sociais e a repressão que caracterizava a relação do estado com os cidadãos. Naturezas vivas. por assim dizer–




1 Comment