TRIBUTO A DORINDO CARVALHO – NATUREZA MORTA – por Carlos Loures

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Olhando a natureza morta,

frias laranjas dormindo

numa fruteira inerme,

silenciosa,

que o azul cerúleo recorta

na quadrícula branca

da janela,

recuso a natureza

assim estagnada,

sem dentes, sem fome, sem desejo,

sem nada que triture as laranjas,

sem dedos que as esmaguem,

nem crianças que partam

a puta da fruteira,

sem sequer um grito de revolta

que trespasse a gélida fronteira

entre a morte e o silêncio

emoldurados

e a vida que se agita,

grita, ruge e dói

deste lado de cá

da maldita moldura.

Recuso a natureza

pálida, parada,

sem aves, vento ou som

que sulquem o azul do céu

desta natureza, assim

tão contra natura

como a que assassinada

a tiros de pincel,

jaz fria, morta  e enterrada

na tela e nas cores

desta pintura.


Nota do autor: Este poema, escrito em 1971 , e publicado em O cárcere e o prado luminoso (Salamandra, Lisboa, 1990), condena o tipo de arte meramente decorativa. não-interventiva que. apesar da situação política que por aqueles anos reprimia os mais elementares direitos de liberdade de expressão. se limitava a cumprir critérios estéticos, abdicando da sua função ética. Pelo contrário, a arte  de Dorindo Carvalho, exprimia, de uma forma não~demagógica o inconformismo perante as injustiças sociais e a repressão que caracterizava a relação do estado com os cidadãos. Naturezas vivas. por assim dizer

Dorindo Carvalho

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