HOMENAGEM A JOÃO CRAVINHO PELOS SEUS OITENTA ANOS – DE UMA CRISE A OUTRA, DA CRISE DOS ANOS DE 1930 NA ALEMANHA À CRISE DOS ANOS DA TROIKA — A EQUIVALÊNCIA NOS DISCURSOS POLÍTICOS, A EQUIVALÊNCIAS NAS POLÍTICAS ECONÓMICAS APLICADAS – III

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Selecção, tradução e montagem por Júlio Marques Mota

PARTE II: Considerações gerais sobre o plano Lautenbach

 

Os anos de austeridade pura e dura, a política de Brüning

 

As políticas de Brüning provocaram, num espírito de protesto impotente, o crescimento dos votos nos nazis e nos comunistas. Foi o que aconteceu nas eleições legislativas de 14 de setembro de 1930 e de 31 de julho de 1932.

Mas uma outra forma de oposição mais construtiva também estava a ocorrer: em setembro de 1931, Wilhem Lautenbach, alto funcionário do Ministério da Economia alemão, propôs aquando de um seminário secreto promovido pela sociedade Frederich List um aumento de crédito à produção. Num documento apresentado ao seminário intitulado Possibilidades de relançar a economia através da expansão do investimento e do crédito, Lautenbach escreveu:

Com tais investimentos e uma tal política de crédito, o desequilíbrio entre a oferta e a procura no mercado interno pode ser reduzido e a produção orientada de novo para um objetivo. Se falharmos na implementação de uma tal política, nós dirigir-nos-emos inevitavelmente para uma desintegração contínua da economia, bem como caminharemos para uma rutura continuada da nossa economia nacional, num contexto onde teremos então, a fim de evitar um desastre político interno, de recorrer a um forte aumento da dívida pública a curto prazo por razões puramente conjunturais, enquanto hoje temos os instrumentos através dos quais podemos utilizar este crédito para tarefas produtivas e, assim, equilibrar a nossa economia e as nossas finanças públicas de novo.

Em dezembro de 1931, depois de anos de resistência passiva, os sindicatos retomam as propostas apresentadas por Lautenbach e apresentaram, a 26 de janeiro de 1932[1], um programa que se destinava a criar 1 milhão de empregos em grandes infraestruturas públicas, financiadas pelo Reichsbank. O SPD rejeitou o programa, alegando que era demasiado inflacionista, sabendo que um tal programa era proibido pelo plano Young. Os dirigentes socialistas e a esquerda em geral não tiveram a coragem de conduzir um debate sobre a legitimidade do plano Young; e era isto que tinha levado Lautenbach a organizar em segredo o seminário acima mencionado, porque ele não estava habilitado enquanto alto funcionário público a questionar um plano ratificado pelo governo.

 

A ascensão de von Papen — o vira-casaca

 

No entanto, a intensificação da crise ia provocar a queda de Brüning, substituído pelo demagogo de direito Frantz von Papen em junho de 1932. O dramático avanço dos nazis na eleição de 31 de julho de 1932 levou Hitler a reivindicar o cargo de chanceler, um posto que lhe seria recusado pelo presidente von Hindenburg (ver gráfico abaixo). Os deputados nazis votaram então uma moção de censura (que tinha sido apresentada pelos comunistas no Reichstag) contra o governo de von Papen, provocando assim as eleições de 6 de novembro de 1932. Mas esta estratégia conduziria a um ligeiro decréscimo na votação dos nazis, na verdade uma terrível derrota para o partido, que se tinha fortemente endividado na esperança de uma vitória final e que se encontrava encurralado por uma situação de possível falência.

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Repartição dos lugares no Reichstag

A eminência parda do futuro regime nazi, Schacht, escrevia a Hitler a consolá-lo, porque este estava com ideias suicidas: “Deixe-me felicitá-lo sobre a atitude firme que tem estado a mostrar depois destas eleições. Não tenho dúvidas sobre o decorrer dos acontecimentos vindouros, que conduzirão inevitavelmente ao seu acesso ao cargo de chanceler. Parece que os meus esforços para conseguir assinaturas para a sua nomeação no meio dos negócios não foram em vão, mesmo se a indústria pesada não nos acompanhar, mas não é por acaso que esta se chama indústria pesada, ou seja, porque se mexe muito lentamente”.

Na verdade, Schacht foi responsável pela recolha de assinaturas de apoio de industriais importantes constantes de uma carta enviada ao presidente von Hindenburg, com um pedido de nomeação de Hitler para a Chancelaria.

Nas semanas que se seguiram ao jantar de 5 de janeiro de 1931, Schacht interveio junto dos meios políticos, com quem se relacionava muito bem, e mesmo junto do chanceler Brüning que ele conhecia desde há cerca de 20 anos, a fim de promover a entrada dos nazis no governo. Trabalho escusado: governar com extremistas não era para Brüning, um “homem normal”, pura e simplesmente era apenas uma hipótese a considerar. E certo, tratava-se de extremistas de direita. Os extremistas de esquerda, digamos, os comunistas assustavam-no ainda mais. Mas Brüning não estava ainda suficientemente desesperado nem a sua popularidade estava totalmente destruída para que este “homem normal” e humanista se sentisse obrigado a aceitar extremistas fanáticos no poder. Brüning recusa pois.

Apesar de tudo, aos seus olhos, o partido nazi, mesmo que constituísse na altura com os seus 107 deputados a segunda força no Reichstag, não passava de uma formação política ainda jovem e muito provisoriamente sufragada nas urnas. Durante anos, os nazis não passavam de grupúsculos de agitadores muito violentos que não se conseguiam impor na cena política alemã. O passado recente destes violentos agitadores dava a entender que eles poderiam desaparecer ou reduzirem a sua importância de modo progressivo.

Brüning pensava nos últimos anos que acabavam de decorrer e durante os quais o partido nazi não tinha conseguido verdadeiros sucessos eleitorais. Nas eleições de 1924, o partido nazi tinha alcançado dois milhões de votos e 24 lugares. Mas as eleições tinham-se verificado seis meses depois do golpe falhado de Munique; a insurreição tinha dado aos nazis uma publicidade enganadora, justificando o seu sucesso eleitoral nada esperado. Alguns meses depois deste sucesso inicial, novas eleições legislativas tiveram lugar; desta vez os nazis foram passados a ferro. Obtiveram apenas cerca de 900 mil votos. Nas eleições de 1928 manteve-se a sua queda: tiveram 800 mil votos.

Era esta queda do partido nazi que Brüning estava agora à espera que se verificasse, mas estava enganado. Os tempos eram agora outros. Nas eleições de setembro de 1930 o partido nazi obteve perto de 6 milhões de votos e 107 lugares. Os nazis passaram a constituir a segunda força política atrás da direita tradicional. Adolfo Hitler passou a ser um homem cujas palavras politicamente passaram a ter peso na vida política alemã. Já não é o pequeno chefe autoritário agressivo e volúvel de um pequeno grupo composto de extremistas iluminados mas um político em ascensão e em quem os alemães desesperados pelos seus dirigentes incapazes de responder à crise começavam a acreditar. O jantar na casa dos Göring reforça esta convicção em Hjalmar Schacht.

O chanceler Brüning nunca se deixou conquistar pelos pontos de vista dos nazis mas sem lhes ser frontal. Apenas uma vez fez prova de força face às recomendações de Schacht quando este veio visitá-lo para interceder a favor dos nazis, a favor de uma participação destes no governo, por mínima que fosse essa participação.

 

A queda de Brüning, a ascensão de von Papen

 

Em maio de 1932, a impopularidade de Brüning é tal que o marechal Hindenburg o demite. Apesar de uma nova intervenção de Schacht a favor de Hitler, o velho chefe de Estado diz que não e confia o governo a Franz von Papen, um demagogo de direita, cujo primeiro gesto é o de dissolver o Reichstag para provocar novas eleições e tentar obter uma maioria favorável no Parlamento.

Má inspiração: no dia 31 de julho, o partido nazi obtém 13 milhões e 500 mil votos. É a partir de então a primeira força política da Alemanha e obtém 230 lugares no Parlamento, mais do dobro do que tinha antes. Contudo, Hindenburg recusa de novo tirar as consequências políticas destes resultados. O velho marechal está ligado aos valores tradicionais prussianos; governar com este austríaco mal formado que é Hitler, que não tem nada de democrata e tem tudo de um ditador não é para ele uma hipótese admissível. Mantém von Papen na Chancelaria.

 

Mas quem é von Papen?

 

Retorcido, manipulador, nunca hesitando em trair os seus amigos e em ligar-se aos seus inimigos, este aristocrata é exteriormente um fervoroso crente católico mas despido de qualquer valor católico. Papen abraçou na sua juventude uma carreira a seu gosto, ao gosto do complô, da intriga, onde a sua capacidade constante de mentir e de dissimular fazem dele um verdadeiro artista na arte de espionagem, a carreira que escolheu. Jovem oficial entra na diplomacia. É nomeado adido militar na embaixada da Alemanha no México, depois em Washington, de onde é expulso em 1915, quando os Estados Unidos não estavam ainda em guerra. O jovem espião tinha falhado em discrição: tinha-se entregue a atividades de sabotagem em território americano e a polícia do tio Sam, cuja falta de sentido de humor era na época tão notória como agora, não terá gostado da brincadeira. Reenviado ao país de onde veio, Papen é então colocado em Madrid, depois é adido militar na Turquia que acompanhou na sua conquista no Médio Oriente. As suas aptidões para o complô e para as manobras duvidosas passaram depois a exprimir-se na sua carreira de político que ele inicia depois da Primeira Guerra Mundial, o que o vai conduzir até à situação de chanceler alemão. Ocupará o cargo de chanceler durante seis meses e depois de largar a cancelaria aceitou ser embaixador em Viena e posteriormente na Turquia, onde voltará a ser um espião encarregado da espionagem da embaixada inglesa, fazendo chegar a Berlim os segredos diplomáticos dos Aliados. Enfim, em companhia de Schacht será um dos acusados de Nuremberga e, tal como Schacht, será libertado graças especialmente ao testemunho do Cardeal Roncali, o futuro papa João XXIII. Eis pois o percurso de exceção num tempo igualmente de exceção de um personagem também de exceção, arquétipo quase que caricatural do político disposto a todas as traições e a todas as manipulações.

Depois das eleições de 31 de julho de 1932, que consagram os nazis como primeira força política da Alemanha, von Papen consegue convencer Hindenburg a não confiar a chancelaria a Hitler. Para ele, mais vale correr o risco de dissolver o Parlamento mais uma vez e apostar na queda de votos destes extremistas. Entretanto, continua como chanceler.

O país está na expetativa de uma verdadeira saída da crise: A ansiedade é enorme nas eleições de novembro, esperando que estas novas eleições contribuíssem para uma solução política para o país. Esperança perdida. A 6 de novembro de 1932, as eleições desenrolam-se numa atmosfera de resignação. O partido nazi vê a sua audiência a cair. E passa de 13 milhões e 700 mil a 11 milhões e 700 mil, ou seja uma queda de 37% para 33% dos votos expressos. Mas a erosão é insuficiente. Perdendo 2 milhões de votos e 34 lugares no Parlamento, o partido nazi continua a ser a primeira força política no país.

Má inspiração, de novo, é o que representa esta manobra eleitoral. Brüning cuja normalidade não aceitava a personalidade duvidosa e sombria do seu sucessor tinha falhado em tudo. Neste outono de 1932, Franz von Papen, o político sem escrúpulos está em vias de tomar o mesmo caminho.

O marechal Hindenburg compreende que com von Papen também não vai a lado nenhum e que acaba de perder duas eleições sucessivas. Mas sobretudo que não lhe falem de Hitler. O velho marechal não quer ouvir sequer falar dele para o poder.

A 19 de dezembro de 1932, o financeiro Wilhem Keppler escreveu por sua vez a Hitler: “Nestes últimos tempos conheci o Dr. Schacht e o Barão Schröder”. Apresentei-lhes a minha análise da situação. O Dr. Schacht partilha do meu ponto de vista… Embora várias pessoas pensem que a situação política não é favorável, estou convencido de que o senhor vai alcançar os seus objetivos sem ter de recorrer a novas eleições”.

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[1] Para uma síntese sobre este programa, ver a página 36.

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