Há uns anos, num outro blogue, provoquei com a pergunta «a arte é necessária?» um interessante debate.
Como homenagem ao Dorindo Carvalho, que conheci em 1971 e cuja pintura muito aprecio,
ponho de novo a questão – a arte é necessária?
Fosseis de hominídeos, datados do Mioceno (de há vinte milhões de anos), têm vindo a ser encontrados em diversos pontos do planeta – África equatorial, Bornéu, Sumatra… Não estou a falar de seres humanos, mas de uma família que os integra (tal como a chimpanzés, gorilas, orangotangos…).
Do Homo sapiens, ou seja, dos hominídeos anatomicamente iguais aos actuais seres humanos, os fósseis mais remotos foram encontrados em Africa, sendo datados com cerca de 200 mil anos, embora os vestígios de desenvolvimento e comportamento social que os separa dos demais hominídeos seja calculado em «apenas» cinquenta mil anos. Ou seja, há cinquenta mil anos que seres iguais a nós – cérebro desenvolvido e capaz de raciocínio abstracto, que em determinado ponto do percurso inventou a palavra, a comunicação através da linguagem, capaz de construir ferramentas e de planificar tarefas. A invenção da palavra, a capacidade de introspecção e de modificar o ambiente, conduziu a uma espécie hegemónica que domina e controla a vida biológica. Somos sete mil milhões de pessoas a partilhar a chamada civilização.
Em todo o planeta, somos os únicos seres vivos cuja biologia obriga à aquisição de conhecimento, seja pela acumulação de experiência, seja pela aquisição de saber, Não sabemos como nem quando a palavra foi inventada e terá progressivamente substituído o «vocabulário» de grunhidos e gestos com que os homens se entendiam e coordenavam tarefas.
A invenção da roda e do machado, foram marcos essenciais da nossa evolução comportamental. E depois foi a escrita – há quatro mil e duzentos anos o aparecimento de escrita hieroglífica na China e há três mil e trezentos do alfabeto fenício… Nunca parámos de criar, inventar – da prensa de Gutenberg à Internet, das pirogas escavadas a fogo em troncos de árvore às naves espaciais. Apenas estagnámos na explicação que damos para a existência de um Universo infinito (?). A lógica deísta é um insulto à inteligência do homo sapiens sapiens.
Antes da evolução que codificou comportamentos, quando grunhia e se abrigava em cavernas, esta foi a explicação lógica para esses seres com as nossas capacidades biológicas, mas sem o saber que acumulámos em dezenas de milénios – um ser superior que. omnipresente e omnipotente, castigava ou premiava – trovões, brisas, chuvas, secas, era a linguagem que o tal ser usava para comunicar com os homens. Cinquenta milhões de anos depois, basicamente a explicação não mudou. Como é possível? Como, com tudo o que se sabe e com a noção de que nunca saberemos tudo, como acreditar num ser capaz de decidir destinos de uma espécie, num planeta insignificante? Apesar de tudo, a mitologia grega e romana eram mais racionais do que a mitologia abraânica, Mais racionais porque os deuses não são «infinitamente misericordiosos»- Zeus quando se zanga, castiga duramente, Baco (ou Dionísio) é como se sabe , um enólogo capaz de embebedar o Olimpo e arredores. O deus abraâmico é cruel e despótico. Permite que em seu nome se pratiquem ignomínias como o Holocausto ou a destruição de Hiroxima e Nagasáqui. Naturalmente que os deuses gregos eram tão inúteis como Jeová. Mas eram mais humanos.
E mais poéticos- Lembremos Prometeu trazendo o fogo do Olimpo para a terra ou Orfeu enfeitiçando a natureza, homens, animais e plantas, com o seu canto melodioso. Tal como Prometeu, o artista é um ladrão de fogo, um mago. Pelo poder da palavra, pela magia da cor, pelo sortilégio do som, cria a beleza para a ofertar aos homens. E produz esta magia usando as mesmas palavras que se utilizam, no dia a dia, para comprar pão, as mesmas cores com que se pintam muros e os mesmos sons que ecoam por campos e cidades. É o poder mágico do homem sobre a natureza hostil que o rodeia, transformando-a, adaptando-a a si. Humanizando-a. E como? Pelo poder da palavra, pela magia da arte. Por isso, enquanto a própria humanidade não morrer, a arte não morrerá. Esta, a natureza da arte, é uma discussão tão antiga quanto a civilização. Platão, Aristóteles, milhares de filósofos e de poetas discorreram longa e sabiamente sobre este tema. Não vou entrar por aí.
(continua)


