TRIBUTO A DORINDO CARVALHO – A Arte é necessária? – 3 – por Carlos Loures

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Como disse no início, conheci Dorindo Carvalho em 1971. A empresa editorial em que em Março desse ano entrei, partilhava as instalações com aquela de que Dorindo era responsável gráfico. Estabelecemos amizade, e apercebi-me do rigor gráfico das suas capas, da simplicidade com que resolvia problemas complexos, mas não  da qualidade da sua pintura.

Depois do 25 de Abril, ainda nos fomos encontrando, mas depois, subitamente perdi-lhe o rasto e só recentemente, por um acaso blogosférico, nos voltámos a encontrar. E reencontrei não o Dorindo de há quase quatro décadas atrás, mas três ou quatro pintores, todos diferentes na gramática pictórica, todos iguais na fidelidade ao princípio de Protágoras – O homem é a medida de todas as coisas que o são enquanto o são e das coisas que não são, enquanto o não são.

Dorindo tem uma vasta obra, segmentada em fases. Vai desde um realismo crítico a um onirismo que algo deve ao surrealismo. Mas o pintor foge das classificações – embora a conjugação (aparentemente aleatória) de elementos de mundos diferentes – aves, peixes, nuvens, corpos, sugiram o automatismo psíquico, imagem de marca da pintura surrealista, depressa encontramos o nexo – a pintura de Dorindo Carvalho é uma explosão de cores e signos a que poderíamos chamar o «triunfo da vida» – num percurso de cinquenta mil anos de vida em sociedade, deixando para trás milhões de anos de vida arborícola, o homem inventou a palavra, construiu utensílios, organizou o trabalho e sentiu necessidade de superar a sua condição de animal, racionalizando tarefas e deixar aos vindouros a descrição de como vivia, caçava, lutava… das pinturas rupestres a Miguel Ângelo… Mas faltava explicar o aparecimento da vida humana e o axioma de Protágoras, adoptado por Dorindo exclui a necessidade de deuses. O homem construiu-se a si mesmo.

Prometeu ao roubar o fogo do Olimpo assumiu o papel que as Igrejas «explicam» em complicadas teorias filosóficas. O homem não assume a sua incapacidade de explicar o Universo. As explicações científicas mais avançadas, num futuro que pode situar-se a uma distância de muitos milénios, vão sendo substituídas pelas explicações teológicas que só convencem quem sente a obrigação de explicar o (para já) inexplicável.

A arte é necessária? Acho que sim, é a prova de que neste recôndito astro situado na Via Láctea, uma espécie animal conseguiu em «apenas« duzentos milhões de anos superar a sua condição de produto da Natureza. A necessidade que tem de explicar como ocorreu a criação do Universo, constitui o seu maior problema. Os deuses, de Zeus a Jeová têm sido e são a fonte de grandes problemas. Afinal a arte é a prova de que cada ser humano é um Universo. Um ser dotado do poder mágico de adaptar a natureza hostil que o rodeia, transformando-a, adaptando-a a si. Humanizando-a.

E como? Pelo poder da palavra, pela magia da arte. Cada homem é o deus do seu universo. O artista através da sua obra, explica o Universo. Falo de arte e não de artefactos – romances de aeroporto e pinturas que condigam com os cortinados…Vejamos a literatura. A síndrome de Dan Brown leva a que se produzam em catadupa romances com a dimensão de tijolos competindo em acção e intriga, em teorias da conspiração e teses esotéricas com as séries televisivas e com os filmes de Hollywood. É este tipo de literatura que mais se consome. Está nas grandes superfícies a par com os iogurtes que regulam o trânsito intestinal, com os cereais que mantêm a linha, com  o pão tipo esferovite, com as bebidas à base de aditivos… Terão estes livros alguma coisa a ver com arte? Acho que não. Mas têm tudo a ver com as necessidades do mercado.

Dirão, «mas então uma das funções da arte não é precisamente a de entreter, a de distrair? Antes da escrita, quem contava histórias nas cavernas ou as pintava na rocha, não correspondia, nesse esforço de recrear, aos artistas actuais? Sim, uma dos objectivos  da arte será essa. Mas há um outro, mais importante – que é a de chamar a atenção para os problemas do ser humano e da humanidade – «abrir portas fechadas»..

 A cultura deve ser compreendida como todas as formas de expressão artística e todo o património material e simbólico da sociedade. Esse conjunto é fundamental para a nossa memória e identidade. Quando se promove oportunidade para que todos os grupos, inclusive as minorias, se exprimam culturalmente, fomenta-se o respeito pela diversidade. Assim, a cultura constitui-se como um veículo eficaz de promoção da paz, da cidadania, da coesão nacional».

Quando o artista trabalha exclusivamente com a preocupação do mercado está a trair a arte. Pessoa escreveu os seus maravilhosos textos não para o mercado, mas para o baú onde os ia arrumando. Os anos 20 e 30 do século XX não estavam preparados para os receber. Morreu apenas tendo publicado o livro menor que foi a «Mensagem». Suspeito de que tinha consciência da sua grandeza. E, se assim foi, mais difícil lhe terá sido não ter destinatários para essa grandeza, gente que o lesse, críticos, leitores… Público, numa palavra.

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Fischer salienta o carácter mágico da arte. Se for desprovida da magia que provém da sua natureza original, segundo ele, a arte deixa de ser arte. A arte tem a idade do homem e o homem foi, desde a sua origem e face à hostilidade da natureza, um mago. A magia da criação da ferramenta transforma um

Com a palavra nasceu a poesia, como referi num texto em que falei de George Thomson e do seu estudo sobre a origem e a evolução da poesia. Foi-me chamada a atenção para a antiguidade do texto de Thomson (e a primeira edição do texto de Fischer remonta já aos anos 60). As deduções que estabeleço não se baseiam nas últimas descobertas da antropologia, é um facto. Mas não é o estar em dia nessa informação que me preocupa. Há reflexões de Aristóteles que continuam a ser pertinentes. E ele não via a «National Geographic»…

Esta é precisamente um das maiores funções da literatura e arte contemporânea. Finalmente, o homem que se tornou homem pelo trabalho, que superou os limites da animalidade transformando o natural em artificial, o homem que se tornou um mágico, o criador da realidade social, será sempre o mágico supremo. A arte, em todas as suas formas, era uma actividade comum a todos e elevando todos os homens acima do mundo animal. Mesmo muito tempo depois da quebra da comunidade primitiva e da sua substituição por uma sociedade dividida em classes, a arte não perdeu seu carácter colectivo. Somente a verdadeira e autêntica arte consegue recriar a unidade entre o singular e o universal. Somente a arte consegue elevar o homem de um estado fragmentado a um estado de ser íntegro, total. A arte é uma realidade social.

Embora não tenha consciência disso, a sociedade necessita do artista e da arte É a arte, entendida nos seus múltiplos aspectos, que leva o homem a compreender a realidade, e mais , a suportá-la e, até a transformá-la, tornando-a mais humana. A arte é indispensável. Sem ela a humanidade fica amputada e confinada à sua animalidade. Sem arte não há humanidade. Poderá haver robôs ou produtos da engenharia genética. Mas já não serão homens.

Dorindo de Carvalho consatrói o seu Universo, onde o homem é a medida de todas as coisas- Por isso é um grande artista.. Merece a pena vaguear pelo seu Universo.

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