A CRISE DO EURO – A HIPÓTESE DE REBENTAR A ZONA EURO, DE NOVO – A CONSEQUÊNCIA DA SAÍDA DO EURO, de GIORGIO LUNGHINI + HOT€L CALIFÓRNIA, de SERGIO CESARATTO – selecção, tradução, introdução, organização e montagem de JÚLIO MARQUES MOTA

euro

 

A crise do euro – a hipótese de  rebentar a zona euro,  de novo

mapa itália

Meus caros

Uma sensação do já visto, do já lido ao traduzir este texto de Giorgio Lunghini e este é o mesmo autor que escreveu que a Europa se estava a tornar uma máquina de destruição, dizendo-nos que “a Europa que é considerada a região potencialmente mais avançada e florescente no mundo arrisca-se a transformar-se numa gigantesca espiral de destruição.” Arrisca-se e nisso se tornou. E qual a ideia agora do professor  Giorgio Lunghini. Lapidar. Servindo-se da metáfora dos Eagles, servindo-se pois do texto da canção Califórnia Hotel, dizendo-nos pois que “ a União Económica e Monetária europeia é como o  “Hotel California” na canção dos  Eagles: talvez seja melhor não entrar, mas uma vez lá dentro, é impossível sair.

Uma sensação do já lido, do já visto, ao ler este texto. O inferno vem aí é o que nos anuncia o professor Lunghini se sairmos da União Europeia, portanto é melhor continuarmos na gigantesca espiral recessiva que é esta Europa, como o mesmo professor reconhece desde há anos.

Bela perspetiva a que agora é desenhada a poucas semanas  do referendo que pode levar a Itália à beira do caos com uma eventual ascensão do Movimento 5 Estrelas ao poder  e mais uma pressão para a sida do euro. É preciso justificar o poder existente. Mau mas a alternativa é bem pior, é o que se pode inferir do texto do citado professor. Mas isto faz-nos lembrar a campanha orquestrada para salvar Cameron, faz-nos lembrar a campanha orquestrada  pelas grandes Instituições Internacionais  a Passos Coelho  ou até a entrevista dada pelo jornalista Luís Delgado a uma rádio a pouco mais de um dia das eleições legislativas em Portugal em Outubro: António Costa foi um grande ministro, foi um grande presidente de Câmara, foi muita coisa de bom, mas o povo não irá nunca esquecer quem  o tirou da crise, ou seja, nunca irá esquecer Passos Coelho.

A mensagem do fatalismo é o que aqui se propaga ou, como assinala Sapir num contexto semelhante, trata-se de propagar a mensagem de que devemos aprender a viver com o que não pudemos mudar. Estes homens ou mulheres cometem  um enorme erro, diz-nos ainda Sapir que é  o de querem esquecer que o que certos homens fizeram, outros poderão desfazer.

No fundo trata-se, direi eu, de um intelectual cujo discurso legitima a situação presente e que  ao mesmo tempo procura desviar a atenção de procura de alternativas  para o drama que se segue se continuarmos na mesma via.

Aqui estamos perfeitamente de acordo com Sergio Cesaratto, quando afirma:

“Em suma, não se pode escapar à impressão que o prof. Lunghini se presta, contra a sua vontade, a uma estratégia de alarmismo económico visando calar as vozes que podem suscitar uma reação popular contra o euro, contra esta Europa; vozes que se batem pela criação de um governo que, na base de um forte apoio popular, prossiga uma política de pleno emprego, o restabelecimento do Estado-Providência e uma política de instrução pública por todos os meios ao seu alcance (incluindo o restabelecimento da soberania monetária e de uma economia de controlos a relembrar as teses de Frederico Caffè de há muito tempo); que não mantenha como inelutável um destino carregado de incerteza para os nossos filhos e netos.”

A direita e a extrema direita têm muitos auxiliares, mesmo que com roupagens supostamente de esquerda. É preciso saber enfrentá-los, como o fez Cesaratto, como o fez Nuti e o os seus colegas e esta mensagem de Cesaratto contra os adversários da Europa que aqui quero sublinhar

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il manifesto

A consequência da saída do euro

 Giorgio Lunghini, Le consequenze di un’uscita dall’euro

Il manifesto, 22 de Setembro de 2016

Alguns números sobre os efeitos de se abandonar a moeda única, moeda comum, para se compreender porque é  melhor evitar a saída.

Há hoje  um consenso sobre a desadequação do  quadro institucional  da União Económica e Monetária (UEM), e acima de tudo há uma crítica unânime, fundamentada e  severa    sobre a sua arquitetura de  política económica (para uma revisão das diferentes posições pode ver o meu comentário (“o euro: um destino condenado”), Crítica marxista, de Março a Junho de 2015). Diferentes são as avaliações sobre as  consequências económicas e sociais de uma saída unilateral da Itália da  UEM – que alguns até sucessivamente invocam. Isso  parece-me  uma questão de grande importância, e aqui eu faço minhas as estimativas e a conclusão do Carluccio Bianchi (e que podem ser encontrados através de pesquisa no Google  ““lincei 2015 bianchi storia breve dopoguerra”).

Nas condições dadas, o primeiro efeito seria a desvalorização da nova moeda nacional. A perda de competitividade no que diz respeito à Alemanha é  agora na casa dos  30%, e este seria o limiar mínimo; contudo os movimentos monetários poderiam determinar uma desvalorização de 50-60%. A consequência imediata sobre a inflação seria de  15%, e desencadear-se-ia uma espiral entre salários-preços-taxas de cambio , pela ligação entre estas três variáveis : com uma taxa de inflação na ordem dos 20% ao ano e com uma perda salarial insuportável.

Com uma desvalorização de 50% aumentaria  na mesma proporção  o valor da dívida pública nas mãos de investidores estrangeiros (mais de 35% do total), com a fuga de capitais e o incumprimento do Estado  italiano, incapaz  de responder aos pedidos de reembolso. O valor real da dívida interna em cinco anos seria assim  reduzida para  metade com uma perda para as famílias que possuem títulos de 110 mil milhões  de euros, ou 11% do seu rendimento disponível. Para os bancos e instituições financeiras, que possuem cerca de metade da dívida, o impacto sobre os seus  orçamentos seria trágico, especialmente para aqueles que têm passivos em moeda estrangeira. Para além da necessidade de recapitalização pelo Estado, seria necessário evitar a corrida dos depositantes aos balcões dos bancos.

Também se exigiriam  medidas para limitar a posse de moeda  estrangeira  e o levantamento dos  depósitos bancários (como na Argentina com o corralito), assim  como seria necessário o controle de movimentos de capitais. As taxas de juro iriam disparar  rapidamente, seja pela  inflação   mais elevada, seja pela crise cambial e bancária ou ainda pela entrada em incumprimento do Estado italiano.  Aumentariam as dívidas das empresas em moeda estrangeira e poderia ocorrer uma crise de liquidez e uma restrição do crédito bancário .

As empresas exportadoras desenvolveriam as suas atividades mas aqueles que produzem para o mercado interno seriam todas afetadas pela contração do consumo e do investimento e pela crise bancária; e diz-se que as exportações devido à desvalorização as exportações sairiam muito  beneficiadas : em face de desvalorizações competitivas, os países restantes dentro da UME poderiam  adotar uma política aduaneira comum em que subiriam as barreiras alfandegárias.

Na presença de uma desvalorização inicial de 50%, e de uma inflação média anual consequente de 20%, haveria consequências muito graves sobre os salários reais. O poder de compra dos salários só poderia ser mantido com uma indexação total dos salários  à evolução dos preços; mas a perda média anual do rendimento  seria de 10%, perda esta que seria acrescentada à perda sobre certos bens mobiliários  determinada pelos  efeitos da inflação sobre os títulos da dívida pública ; e com inflação  tão elevada aumentaria posteriormente  ainda mais as desigualdades na distribuição de rendimento e da riqueza entre os empregados por conta de outrem e os trabalhadores  independentes, e entre credores e devedores. Como consequência de tudo isso, a queda do PIB na Itália seria em torno de 40% no primeiro ano e 15% nos anos seguintes por um período de pelo menos três anos.

Um custo enorme, o que geraria agitação civil e revoltas populares, e a história da Europa ensina que crises desta magnitude levam a uma saída pela direita. Em suma, a União Económica e Monetária europeia é como o  “Hotel California” na canção dos  Eagles : talvez seja melhor não entrar, mas uma vez lá dentro, é impossível sair.

 

Fonte: Il manifesto, 23 settembre 2016

 

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Sergio Cesaratto, LUNGHINI, L’EURO E L’HOT€L CALIFORNIA

Sollevazione, 30 de Setembro de 2016

 

As questões que levanta o prof. Lunghini em relação a uma rutura do euro são muito importantes e devem ser discutidas tanto numa base quantitativa como numa base histórico-política. Começando por este último aspeto, que é o mais relevante, Lunghini examina o caso de uma saída unilateral do nosso país, “a frio”, da zona euro. A rutura unilateral é, naturalmente, apenas uma das possibilidades.

Uma outra alternativa poderia seria que o Hotel Califórnia, onde se entra mas não se sai, de acordo com a metáfora do professor, se incendiasse e desse incêndio quase toda a classe política saísse pelo menos um pouco chamuscada e do qual certamente fugiria. Mas a mesma saída unilateral só pode resultar se o incêndio se verificar apenas na sala onde está alojado o nosso país, provavelmente não iluminado por um qualquer economista imprudente, mas sim por uma severa crise bancária em que, dados os atuais mecanismos europeus, abriga nele alguns milhões de aforradores no seu pátio central. Claro, os bombeiros europeus de alguma forma chegam com os seus créditos em mãos e algumas condicionalidades mais a terem que ser aceites  sobre o orçamento público. Mas isso poderia levar a novos protestos. Ou talvez não. Mas, se isso acontecesse, um governo, instalado pelo Movimento 5 Estrelas, pode ser tentado a requerer que a Alemanha  aceite a suspensão da participação italiana na moeda única. Mas também poderia acontecer que o fogo tenha alastrado para uma qualquer outra sala contígua, como a ocupada pela França porque Madame Le Pen decidiu fazer as malas e na saída esqueceu-se da vela acesa

Ou, e porque não, poderia ser o gerente alemão deste Hotel Califórnia a ir-se embora já cansado do barulho que vem do rés-do-chão e da  parte sul do hotel (sem se esquecer de queimar tudo, de acordo com o que é já seu hábito). Oh, uma responsabilidade de alguns economistas imprudentes, ( há sempre economistas sem nenhum sentido da economia dir-se-á no mainstream) por exemplo, por  sugerirem  aos investidores que a falência dos bancos não é devido à corrupção, mas sim às políticas europeias e à perda de soberania monetária, ou ainda sugerindo que o euro é um ataque contra a Constituição muito mais grave do que aquele que foi realizado pela ministra Maria Elena Boschi, ministra da Reforma Constitucional. Mas eu não creio que o prof. Lunghini esteja a sugerir que se escondam essas verdades. Ou não? Porque, como se disse, o professor parece sugerir que seria melhor não dizer nada às pessoas, a não ser que o euro é um destino incontornável que nós merecemos, de modo a não suscitar maus pensamentos. Mas esses economistas imprudentes, sem nenhuma ideia de como funciona a economia na realidade,  incutem um espírito de aventureirismo nas massas, bem longe da tradicional responsabilidade europeista da “esquerda”, em vez de ensinar estas mesmas massas e educá-los no perdão e na paciência cristã.cesaratti

Na minha opinião, é pois errado colocar a questão da ruptura do euro fora de um contexto histórico e político em que uma possível ruptura se colocaria, quando tudo seria posto em causa num quadro internacional não necessariamente hostil, dado o interesse geral para que a estabilidade seja restaurada. O prof. Lunghini está muito preocupado com a ideia de que a Itália possa regressar à desordem monetária do estilo da dos anos setenta que, confessemo-lo, se deu precisamente devido ao dinheiro caro de que já se esqueceu. Esses economistas sem nenhum sentido da economia que olham para a vida e ainda sonham com a época em que até mesmo o operário queria que o seu filho fosse doutor. Estes infelizes e imprudentes economistas estudaram história económica e sabem que a moeda única (como o padrão-ouro) se fez para sufocar a luta de classes e a democracia.

Para reforçar o seu ponto de vista, o professor difunde números e cenários apocalípticos, que se teriam verificado no passado algures. Nós, reformistas incuráveis, acreditamos que com uma soberania monetária que o pais venha a readquirir,  saberá então dotar-se de instituições que, por sua vez, reconciliarão as questões da repartição do rendimento e da desigualdade, o crescimento e o controlo dos preços. Sobre a dívida pública denominada  em euros – admitindo que esta moeda ainda exista – podem surgir algumas disputas graves . Isto, devido particularmente devido à  decisão irresponsável em que a Itália aceitou em 2012  uma cláusula que a pode impedir de redenominar a sua a divida em nova libras (pelo menos em relação às novas emissões). Mas, repetimos, se chegarmos a uma fase de rutura então será um de Abril de 1945, quando, de novo, tudo se discute. E de toda a maneira a escolha é política: entre o respeito de uma “cláusula de ação coletiva” (ativada pelos detentores de grandes valores em títulos da dívida pública) e a democracia, o que escolhe o Professor? Sobre a dívida privada, nenhum cataclismo ocorreu em 1992 face a uma desvalorização de 30% (não vejo porque é que agora deveria ser maior.

Em suma, não se pode escapar à impressão que o prof. Lunghini se presta, contra a sua vontade, a uma estratégia de alarmismo económico visando calar as vozes que podem suscitar uma reação popular contra o euro, contra esta Europa; vozes que se batem pela criação de um governo que, na base de um forte apoio popular, prossiga uma política de pleno emprego, o restabelecimento do Estado-Providência e uma política de instrução pública por todos os meios ao seu alcance (incluindo o restabelecimento da soberania monetária e de uma economia de controlos a relembrar as teses de Frederico Caffè de há muito tempo); que não mantenha como inelutável um destino carregado de incerteza para os nossos filhos e netos.

Sergio Cesaratto, LUNGHINI, L’EURO E L’ HOT€L CALIFORNIA, texto disponível em:

http://sollevazione.blogspot.pt/2016/09/lunghini-leuro-e-lhotl-california-di.html

 

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