
Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

Algumas questões sobre a sustentabilidade da dívida

Bill Mitchell, Fiscal Sustainability
Modern Money Mechanics, 1 de Novembro de 2010
Um companheiro ligado ao neo-liberal American Enterprise Institute, Desmond Lachman, também não é capaz de se reconciliar com os termos da essência de um sistema monetário de moeda fiduciária. Disse ao National Journal:
A OCDE define utilmente a política orçamental de um país para ser sustentável, se se pode considerar que o governo pode ser capaz de continuar a responder ao seu serviço da dívida sem uma correção futura irrealisticamente grande para o equilíbrio da suas receitas e despesas. À luz desta definição, parece que a proposta de orçamento de Obama levanta pois grandes questões em termos de sustentabilidade orçamental para os Estados Unidos.
Nota: a taxa de desemprego dos EUA está acima de 9 por cento e a subir. Enquanto a expansão do défice está a começar a dar alguma sustentabilidade à economia dos EUA ele é até ainda pequeno em relação ao PIB para seriamente responder ao objectivo público da redução do desemprego. Onde é que se faz menção a isto na conceptualização da sustentabilidade orçamental?
Dica: o colocar como exigência o bem público é outra componente do que “sustentabilidade orçamental ” significa. Nenhum de nós pode defini-la nos seus próprios termos contabilísticos – um valor, qualquer que ele seja, relativamente ao PIB , ou uma coisa qualquer que seja .
Mas voltemos a Lachman. Um governo soberano não enfrenta nenhum problema de solvabilidade. De igual modo, não tem que passar pela lógica neoliberal que o restringe a um agregado familiar – essa lógica funciona como se segue – se nós agora gastamos mais do que os nossos rendimentos temos que contrair um empréstimo na diferença. . Para pagar o empréstimo feito, temos que nos assegurar de que nós iremos ter no futuro rendimento para o pagar. Se nós pedimos um empréstimo demasiado elevado defrontar-nos-emos com grandes ajustamentos sobre as nossas receitas e despesas e nós podemos ter que seriamente deixar de fazer a despesa e deferi-la para mais tarde.
É esta a lógica que as famílias têm que considerar dia a dia . Têm que financiar cada $ que gastam e assim é-lhes exigido o planeamento para se assegurarem de que “não dão cabo dos seus cartões de crédito”! Mas essa lógica não se aplica a um governo soberano. Podem gastar agora (mesmo se emitem simultaneamente dívida – lembro aqui que isto não tem nada a ver com o financiamento da despesa). Podem igualmente gastar mais tarde assim como podem fazer a dívida e pagar depois sem comprometer coisa nenhuma.
Podem os volumes de dívida serem tão grandes que já não haja nenhum espaço para “gastar” noutras coisas? Note-se que a questão não é se eles já não têm capacidade para gastar noutras coisas. A ideia é então de que os pagamentos do serviço da dívida se tornariam tão grandes que não haveria mais “espaço” para gastar (presumivelmente porque a diferença entre a despesa efectiva e a potencial (máxima) é já nula !). Primeiro, as fugas do sistema vindas da despesa impedirão que isto aconteça – os impostos, a poupança e as importações. Em segundo lugar, se por algum motivo o governo não deseja essa posição basta-lhe então deixar de estar a emitir dívida ! Paragem total.
Lachman coloca na lista quatro “separadas questões mas na verdade inter-relacionadas que agora deveriam estar a ser levantadas como bandeiras vermelhas sobre a sustentabilidade orçamental como problema ” nos Estados Unidos. As mesmas questões são geradas pelos nazis do défice em todos os lugares. Elas são:
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A trajectória do défice: de quanto aumentará o défice e quanto tempo se levará para assumir uma posição de excedente?
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O nível da dívida pública: qual a percentagem da dívida pública/PIB que é aceitável? Os conservadores citam frequentemente os critérios de Maastricht que fazem parte do ridículo Pacto de Estabilidade e Crescimento , (PEC) e servem de base para a zona euro e que curiosamente são eles a garantir que os governos da zona euro serão forçados persistentemente a altos níveis de desemprego para os seus infelizes cidadãos – tudo isto em nome da prudência orçamental . Pense-se nisto. De qualquer forma, Lachman cita os critérios – dívida/PIB abaixo de 60 por cento, como o “limite prudente para a dívida pública”.
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Ainda outros desafios orçamentais de mais longo prazo: o falso problema entre as gerações, com o qual nos tentam dizer que o “envelhecimento da geração do baby boom” vai forçar a enormes e insustentáveis défices e níveis de dívida pública para as gerações futuras e que assim este ameaça a solvabilidade dos sistemas de saúde e de segurança social.
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A elevada proporção de financiamento estrangeiro no orçamento: Lachman diz: “parece temerário esperar que os estrangeiros financiem indefinidamente os enormes défices públicos, especialmente quando eles já se estão a manifestar com preocupações sobre as questões de sustentabilidade”.
Estas são as quatro questões principais que caracterizam o debate público sobre a condução da política orçamental do governo. São todas elas concepções de “padrão ouro” de quem coloca a cabeça na areia sob os alegados constrangimentos que pelo governo enfrentam os governos soberanos– seja nos EUA ou seja na Austrália ou no Japão ou maioria em quase todos os outros países.
Primeiramente, o Pacto de Estabilidade e Crescimento é uma regra voluntariamente-imposta sobre os governos anteriormente soberanos e imposta por eles mesmos como uma maneira de lhes permitir a entrada no Euro. Cada um dos leitores pode gostar de voltar atrás e gostar de ler o meu texto – Social security insolvency 101 – para compreender melhor o dilema da zona euro.
Se eles estão obcecados assim com uma moeda única e um banco central único banco (BCE) e, consequentemente, com uma única política monetária, então é certo que os países da zona euro cederam igualmente de forma voluntária as suas capacidades orçamentais a um único corpo unificado – talvez ao Parlamento Europeu. Qualquer que seja a entidade a tomar a responsabilidade da política orçamental é uma questão distinta, e há posições diferentes sobre ela. O que se deve aqui sublinhar é que o acordo a que chegaram levou a que os países conservam as responsabilidades orçamentais individualmente, cedendo a capacidade da política monetária ao BCE e isto é um resultado sem-sentido. Então tiveram que artificialmente forçar a sua capacidade orçamental individual com o medo que a Itália ou a Espanha desejassem sair à força (realmente a quererem ajudar os seus cidadãos a evitarem o desemprego e a pobreza ou ainda o que quer que seja!). O pacto foi violado mas sim pelas economias europeias mais fortes (Alemanha).
Mas esta regra dos 60 por cento não tem nenhum fundamento em teoria económica. É uma relação arbitrária, desprovido de conteúdo económico. Ela não pode ser representada como “prudente” seja de que forma for, dada a sua natureza ad hoc, apesar da autoridade que a maioria dos economistas lhe atribui . É uma invenção! Além disso, qualquer rácio da dívida pública/PIB falha o ponto essencial – e é a questão que dever ser posta – qual é o objectivo público que a está a ser alcançado com o défice ? E porque é que uma dada e qualquer emissão de dívida pública não é constrangida pelas receitas públicas
Dica: não vamos encontrar e uma definição de “sustentabilidade orçamental” conceptualizada a partir de algum nível do rácio dívida pública/PIB.
Em segundo lugar, para se entender a “trajetória do défice”, cada um de nós tem que entender porque é que se altera o saldo orçamental. Duas coisas podem estar na base destas mudanças: (a) o trabalho dos estabilizadores automáticos funciona contra a dinâmica do ciclo de actividade para as configurações existentes de política económica – então quando a actividade económica entra em recessão, os estabilizadores automáticos fornecem estímulos– rendimentos em baixa e aumento de pagamentos em termos de Segurança Social – e tenta-se assim evitar entrar na recessão.- O oposto acontece quando a economia fica robusta. Muito da mudança nos saldos orçamentais por todo o mundo neste momento – que é o caminhar-se para grandes défices (ou no caso da Austrália é a passagem de excedente para défice) reflete o trabalho desses estabilizadores; e (b) alterações discricionárias nas políticas também irão alterar os saldos orçamentais quando as contas são feitas. Assim, os programas de aumento da despesa negligenciados pelos neo-liberais obcecados com os excedentes aumentará a despesa líquida (os défices) devido aos impactos dos estabilizadores automáticos.
Devemos preocupar-nos com estas mudanças discricionárias ? Tudo depende. Se a economia está em plena capacidade (2 por cento desemprego e o subemprego zero) então não seria sensato para o governo nacional estar a aumentar os seus défices gastando mais e a não fazer nada mais, porque a procura nominal adicional irá certamente forçar a economia para além da sua real capacidade de resposta. Então começa-se a caminhar para a inflação .
Observe que eu qualifico isto dizendo e ” nada mais”. O governo nacional pode decidir que quer expandir a importância do sector público em relação ao sector privado da economia numa economia de pleno emprego como um objetivo político. Isso seria um objetivo perfeitamente razoável – querer expandir os bens e serviços públicos em detrimento de bens privados e serviços privados, se isto reflete o sentimento político da população . Como um aparte, isto seria uma opção política. Não há nada, mesmo nada, na teoria económica que nos diga seja o que for sobre a dimensão desejável do sector público na economia global, apesar daquilo de que o lobby dos defensores de um governo pequeno nos quer fazer crer. Repito: não há mesmo nada A dimensão ideal de governo é sempre uma decisão política (e de escolha).
Bem, nesse caso o governo poderia continuar a aumentar a despesa líquida – para comandar uma maior parcela dos recursos totalmente utilizados – mas ao mesmo tempo teria que aumentar os impostos para drenar alguma capacidade de despesa do setor privado. Note-se que a subida dos imposto não é um financiamento público de uma despesa adicional que não está limitada pelas receitas. Ao invés disso, os impostos são uma maneira do governo poder diminuir a capacidade de despesa ao setor não-governamental para que possa assim comandar uma maior utilização dos recursos finitos disponíveis.
Observe também que esse cenário é basicamente irrelevante quanto à economia estar ou não estar a trabalhar abaixo da capacidade total.
Dica: a sustentabilidade orçamental está diretamente relacionada com a extensão a que os recursos do trabalho são tomados em conta para a economia. O objetivo é gerar o pleno emprego.
Em terceiro lugar, como nós analisámos anteriormente – veja-se o meu texto – The Future Fund scandal entre outros.
O problema é que não há nenhuma uma crise económica entre gerações a menos que nós tenhamos falta de bens e serviços e a população futura estiver forçada a viver com menos que as gerações anteriores. Não há nenhuma limitação financeira sobre um governo soberano que que quer fornecer a segurança social e os cuidados médicos adequados aos seus futuros residentes. Pode ser politicamente difícil fazê-lo se, digamos, as gerações mais novas querem mais bens e serviços à sua disposição do que na estrutura produtiva existente é possível, o que poderia excluir a possibilidade de os tornar disponíveis por incapacidade de reproduzir as condições que os torne possíveis. Mas isso não é um problema económico mas uma questão de solvabilidade pública.
Dica: o conceito de sustentabilidade orçamental não é definido em termos de qualquer noção de solvabilidade pública. Um governo soberano é sempre solvente (a menos que ele escolha por razões políticas, não o poder ser!).
Em quarto lugar, a questão externa é totalmente irrelevante. O governo chinês pode deter muitos dólares e também muita dívida pública no presente. Onde é que eles conseguiram os dólares? Do governo dos EUA! Como é que o conseguiram? Venderam o material para os EUA (exportações) em maiores quantidades do que os EUA lhes venderam a eles produtos americanos (importações). Quem ganhou? Os cidadãos dos EUA puseram menos (renunciaram) bens e serviços, que poderão antes ter consumido, sobre os navios que enviaram para a China do que os chineses colocaram nos navios que enviaram para os EUA. Mais bens e serviços em termos líquidos foram então enviados para os EUA. Parece que os EUA estão a fazer bem agindo desta forma .
Nós temos de estar sempre a lembrar que as exportações são um custo, e as importações são um benefício, não o contrário! Os chineses (e qualquer entidade estrangeira) podem querer manter activos financeiros denominados em dólares dos Estados Unidos como uma sua escolha voluntária. Na maior parte é para manter o valor das suas moedas subavaliadas, porque eles acham que exportar muito da sua riqueza (recursos) é bom. Bem, enquanto eles pensam que dando na verdade mais bens e serviços em termos líquidos é bom, eles então vão continuar desejar acumular USD e outros activos financeiros em moeda estrangeira. Quando eles decidem não continuar a fazer isto então deixarão de exportar ao mesmo nível que têm estado a fazer e a moeda dos EUA vai perder um pouco do seu valor e os americanos terão de enviar relativamente mais bens e serviços do que o tinham feito no passado para a China. Por outras palavras, a festa vai acabar para os EUA, mas isso significa apenas ajustamentos marginais no esquema das trocas internacionais . O céu não vai cair sobre a cabeça dos americanos!
Além disso, como é que podemos dizer que os chineses estão a “financiar ” as despesas públicas americanas? O governo dos EUA, a última vez que vi (agora mesmo !) gasta em dólares. O monopólio de emissão dólares americanos é do governo americano. O governo chinês não emite dólares americanos. Para os terem, isto requer que os americanos os gastem primeiro, antes que os chineses os possam obter. Isto mostra como é que a lógica neoliberal está cheia de falta de sentido e é claramente absurdo pensar o contrário do que afirmamos.
Conclusão: Lachman não entendeu nada de como funciona a economia.
Dica: o conceito de sustentabilidade orçamental não incluirá nenhuma noção de limites de “financiamento” estrangeiro nem nenhumas preocupações estrangeiras sobre a solvabilidade do governo soberano.
Fim da parte 1
Bem, ficamos hoje por aqui. Amanhã, na parte 2 (a menos que nos falhem alguns dados principais !) continuaremos a analisar o que os outros pensam sobre esta questão e tentaremos igualmente avançar no sentido de obtermos uma definição de sustentabilidade orçamental que esteja assente numa compreensão detalhada de como funciona o sistema monetário fiduciário moderno.
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Ver o original em:
https://modernmoney.wordpress.com/2010/11/01/fiscal-sustainability-101-part-1b/
