A GALIZA COMO TAREFA – causas da decadência do livro galego – Ernesto V. Souza

Os mais dos tratadistas e autores coincidem em destacar as deficiências e falta desenvolvimento que arrasta o livro na Espanha desde o século XVII: técnica, impressão, papel, gravuras, componentes gráficos, estética da plana. Todas apresentam um evidente desfase a respeito das imprensas no resto da Europa na altura, que vai definir – apenas questionada com os breves fulgores do século XVIII e até a revolução na arte tipográfica dos anos 20 e 30 do século XX – a história do livro espanhol e a da leitura.

T.p; vignette (coat of arms of Quiroga); ownership mark: Hieronymus Evia y Vaca Hisp.

A ausência de leitores completa uma imagem de penúria, apenas paliada pela existência de populares obras literárias em romance (destinadas em origem a consumo local e que muito mais tarde vieram ter sucesso na invenção nacionalista das coleções dos Clássicos castelhanos) e com as notícias e referências às fabulosas bibliotecas pessoais de contados eruditos.

Porém a decadência evidente a finais do XVI, remonta-se quase à origem. E tem as suas causas num mercado que muito cedo se retirou ao local e não ousou competir na fase post-incunábulo, no grande mercado do Livro (Clássicos greco-latinos, tratadistas, livro religioso e científico), limitando-se à curta tradição do joguete literário (poesia castelhana, teatro, romance cavaleiresco) definia uma cultura de impressão muito reduzida, em âmbito de influência e tiragens, pouco competitiva e muito pouco necessitada de investir em inovação.

A Contra-reforma, com a proibição da leitura (e portanto, tradução, edição e impressão) da Bíblia em romance teve umas importantes consequências na seródia fixação ortográfica do castelhano e na frágil consolidação do seu predomínio como língua do estado mas não comum. Ao mesmo tempo, ao coutar o mercado e expansão leitora que já tiveram, por causa do “Libro” os países protestantes, o deslocamento do trabalho e quase monopólio que a Imprensa dos Países Baixos (na altura parte da coroa espanhola) mais o facto de que muitas das melhoras imprensas Italianas estiveram também em mãos espanholas ou entrassem pelos territórios espanhóis da Coroa, faziam difícil  que o negócio do livro e a imprensa na Espanha Peninsular tivesse percorrido, melhora e o lógico desenvolvimento.

Com um mercado privado da Bíblia romance e com o do corpus religioso, científico em Latim, controlado pelas proibições, e  limitado às importações em condição quase de monopólio desde as imprensas Platinescas (de Amberes) até as diversas ordens religiosas que operava em todos os territórios da Coroa de Castela, incluída a América (mas não Portugal nem Aragão), as imprensas locais foram paulatinamente esmorecendo e configurando uma tradição na que a “remendaria” com heranças, compras e aproveitamento de material tipográfico vário, era mais característica que a inovação técnica, as grandes oficinas tipográficas e os projetos editoriais de fólego.

Condenada a evolução tipográfica, a produção literária converteu-se em autárquica, o mercado do livro científico-técnico fez-se dependente doutros países e línguas, o livro passou a ser um escasso objeto de luxo, e a leitura um mundo limitado às elites.

Não deixa de ser significativa a situação que vive o mundo do livro galego desde começos do século XXI. As estatísticas e as análises da crise no sector não deixam dúvida. Os últimos informes oficiais confirmam que entre 2008 e 2015 caiu um 44 por cento o número de livros publicados em Galego.

O informe do Observatório do Libro do Consello da cultura galega é concluinte nas suas análises:

Segundo os datos do ISBN, en 2015 editáronse en Galicia un total de 2266 libros, 338 libros menos que en 2014. Un 82,7 % foron editados en papel.
O número de libros publicados en galego tamén descendeu en 2015.
A cifra total de libros publicados en galego supón un 61,5 % do total de libros con ISBN publicados en Galicia en 2015, pese a que experimenta un descenso global de 338 títulos.
A materia en que abundan máis libros publicados en galego é a de «Ensinanza e educación», seguida de «Literatura».
É tamén salientable o número de libros dirixidos a un público infantil e xuvenil.
No tocante a libros traducidos desde o galego, a tendencia do período estudado tamén é descendente.
Os libros traducidos a o galego diminuíron considerablem ente nos últimos anos. Por linguas, a máis traducida ao galego foi o castelán , seguida do inglés.
A provincia onde se editaron máis libros foi Pontevedra, seguida da Coruña. Moi por detrás están as provincias de Lugo e Ourense. Fóra de Galicia tamén se publicaron libros en galego, principalmente en Madrid e en Barcelona.
A edición privada supuxo un 94 % de toda a edición de libros en galego e a edición pública, un 6%.
Na edición pública dominan as publicacións editadas por organismosoficiais da Administración local e na privada, as editoriais medianas.
A maior parte das reações a estes dados por parte de editoras, intelectuais e associações de defensa da língua galega, coincidem em que as causas principais são o abandono por parte do Governo galego das ajudas e campanhas na promoção do livro e da língua galega, motivado pela crise e pelo discurso anti-galego de certa parte do PP na Galiza, coincidente com a perca de galego-falantes e com a crise económica no mundo cultural na Espanha.
Curiosamente, na Galiza, como destacava acertadamente em 1934 Juan Jesús González, atendendo a outra crise do livro, não se lia, nem se editava também não em castelhano. Hoje com tanta mudança dos tempos, também não é como para se maravilhar. A crise como apontam as livrarias é geral e como popularmente se diz: chove sobre molhado.
Cabe perguntar-se porém, se esta crise atual do livro galego não tem os mesmos elementos estruturais que o daquelas velhas imprensas de há séculos. As razões, talvez há que as procurar nas décadas anteriores no canto de no hoje.
Que teria acontecido na Galiza se se tivesse alvejado o mercado do livro em língua portuguesa em expansão vez de se limitar a um local reduzido? que aconteceria se as nossas pequenas editoras tivessem investido em maquinárias, pessoal, estratégias pensando concorrer num mercado mais vasto e altamente competitivo e não num onde as “edições escolares” são marcantes entre uma grande e pequena editorial?
Mais ainda, que poderia ter acontecido se a língua galega tivesse tomado o modelo ortográfico de Portugal e Brasil e tivesse incorporado no seu mercado de livro e circulação leitora, maciçamente e não reduzido a uma elite, sem censura e com naturalidade, os livros portugueses?

 

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