A CRISE AUSTERITÁRIA E A QUADRATURA DO CÍRCULO – REFLEXÕES SOBRE A CRISE DA ECONOMIA, DO PENSAMENTO ECONÓMICO E DA DEMOCRACIA – TEXTOS DE REFERÊNCIA PARA ENTENDER A REALIDADE PRESENTE – B) BILL MITCHELL. 5. CAOS NA EUROPA E O SEU FALHADO SISTEMA MONETÁRIO – II

Obrigado ao blog do tirloni.
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Selecção e tradução de Júlio Marques Mota 

Bill Mitchell
Bill Mitchell

Caos na Europa e o seu falhado sistema monetário

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Bill Mitchell, Chaos in Europe and the flawed monetary system

Billy Blog, 23 de Março de 2016

(continuação)

Um outro enviesamento torna-se evidente a partir da forma como tratam com os excedentes e défices na balança corrente:

… sustentam que os excedentes não levantam as mesmas preocupações sobre a sustentabilidade da dívida externa e sobre a capacidade de financiamento, preocupações que podem afetar o bom funcionamento da zona euro.

O Procedimento por Desequilíbrio Macroeconómico permite assim “um maior grau de urgência… [para ]… os países com grandes défices na balança corrente e com perdas de competitividade “.

O limite superior para o sinal de alarme (para o excedente) é de 6 por cento do PIB.

Se a regra do equilíbrio orçamental é respeitada por uma nação que está no limiar de excedente da balança corrente, então o seu setor privado interno irá poupar globalmente 6 por cento do PIB, independentemente da atual taxa de crescimento que implicam estes gastos agregados.

Para onde vão estas poupanças? A história diz-nos que a Alemanha mantém a sua competitividade externa, uma vez que já não podia manipular a taxa de câmbio, alcançada através da redução da capacidade dos seus trabalhadores em poderem partilhar os ganhos havidos com o crescimento da produtividade da economia. Isto, por seu lado, deprime a procura interna.

As oportunidades rentáveis de investimento estavam limitadas na economia alemã como resultado do capital procurar maiores taxas de rentabilidade no exterior.  Os persistentemente grandes excedentes externos (de 6 por cento é grande) foram a razão para que tanta dívida tenha sido constituída em Espanha e noutros países[1].

No relatório  “Mecanismo de Alerta 2014”, publicado a 3 de Março de 2014, a Comissão Europeia concluiu que a Alemanha tinha um desequilíbrio macroeconómico como resultado do excedente da sua balança corrente estar acima do limite de 6 por cento mas elogiou a Alemanha porque os excedentes “proporcionam poupanças que são investidas no exterior”.

No ultimo relatório “ Mecanismo de Alerta 2016” nós podemos ler que:

A zona euro apresenta atualmente um dos maiores excedentes na balança corrente do mundo em termos de valor. Em 2015, espera-se que o montante seja de cerca de 390 mil milhões de euros, ou 3,7% do PIB. A maior parte do excedente é registado pela Alemanha e os Países Baixos, cuja contribuição representa 2,5% e 0,7% do PIB da zona euro, respectivamente… Os antigos países deficitários registam agora também posições de balança equilibradas ou com excedentes, que são necessárias para assegurar a sustentabilidade das suas posições externas…

No caso da Alemanha, quando a posição do seu ciclo de negócios o permite, o excedente ciclicamente – ajustado é maior do que o que nos é globalmente apresentado.

Notamos que os “antigos países de défice” estão a conseguir essas posições equilibradas, pela eliminação de importações como resultado de taxas deprimidas de crescimento e de níveis elevados de desemprego.

A posição alemã é ridícula. No – Anexo Estatístico do relatório do Mecanismo de Alerta 2016, a Alemanha mantém, em média, um excedente da sua balança corrente durante 3 anos na ordem dos 3 anos  de 6.9 por cento desde 2014.

Mas se pensarmos que não foi tão mau, então olhemos para o gráfico abaixo onde se mostra o saldo da balança corrente para o terceiro trimestre de 2015. Neste trimestre, o excedente terá subido para 8,1 por cento do PIB.

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A Comissão tem repetidamente dito que (mais recentemente em Fevereiro de 2015) que o excedente externo da Alemanha requer “uma ação decisiva e monitorização”  mas falhou em fazer seja o que for, ou seja, nada fez.

Nas avaliações anteriores, a Comissão afirmou que a Alemanha tem de encontrar maneiras de “fortalecer a procura interna e o potencial de crescimento da economia”. No entanto,  sempre se esquivou a tratar esta questão.

Uma maior procura interna exigirá um mais rápido crescimento de salários para aumentar os níveis de consumo muito baixos e atrair o investimento no mercado interno.

Mas essa mudança estaria em desacordo com a mentalidade perfeitamente mercantilista que domina a nação porque reduziria a vantagem competitiva que a Alemanha desfruta sobre as outras nações, sobretudo as  que têm tratado os seus trabalhadores de forma mais equitativa.

Isso também levanta a questão da desigualdade. Não há nenhum indicador para o rendimento nacional ou para a desigualdade de riqueza no painel de análise do Mecanismo de Desequilíbrio Macroeconómico. Apesar da negação dos neoliberais, as desigualdades de rendimento minam o crescimento económico.

Até mesmo o FMI reconheceu agora esse ponto. De acordo com o painel Socio-económico alemão (SOEP), que é um amplo estudo longitudinal representativo das famílias privadas, do Instituto alemão de investigação económica, DIW de Berlin, a desigualdade de rendimento na Alemanha aumentou acentuadamente desde que este país entrou na zona euro.

Enquanto os 10 por cento dos rendimentos mais pobres na Alemanha alcançaram  ganhos de 15 por cento do seu rendimento anual mediano entre 1997 e 2008, os 10 por cento mais ricos registavam ganhos de 28 por cento.

As reformas Hartz e os imperativos de exportação foram parte importante dessa desigualdade crescente. Uma substancial redistribuição de rendimento é pois necessária dentro da Alemanha se se quer que a despesa interna aumente.

Chegamos à conclusão depois de avaliar todos os indicadores, etc, que é a zona euro como um sistema monetário que categoricamente falhou.

(continua)

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[1] Na série de artigos que agora estamos a editar vejam-se os trabalhos de Michael Pettis sobre este ponto, em particular sobe os “investimentos” alemães em Espanha

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Ver o original em:

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Para ler a Parte I deste trabalho de Bill Mitchell, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, clique em:

A CRISE AUSTERITÁRIA E A QUADRATURA DO CÍRCULO – REFLEXÕES SOBRE A CRISE DA ECONOMIA, DO PENSAMENTO ECONÓMICO E DA DEMOCRACIA – TEXTOS DE REFERÊNCIA PARA ENTENDER A REALIDADE PRESENTE – B) BILL MITCHELL. 5. CAOS NA EUROPA E O SEU FALHADO SISTEMA MONETÁRIO – I

 

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