DAS PERGUNTAS DA MATILDE À MINHA AVÓ MARIA DO ROSÁRIO – por ANTÓNIO GOMES MARQUES

 

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Para a Matilde, a minha neta

 

Diz o meu amigo Adão Cruz que os netos «são a nossa segunda vida» e, de facto, podemos confirmá-lo sempre que estamos em contacto com eles.

As crianças põem-nos questões às vezes difíceis de explicar por não sermos capazes de usar linguagem que as leve a entender tudo o que pretendemos dizer. A Matilde, a minha neta, não foge à regra e eu vejo-me algumas vezes em dificuldade para ser claro, havendo, no entanto, a preocupação em toda a família –bisavós, avós, pais– de não a deixar sem uma resposta, mesmo que os porquês se sigam sem cessar.

No seguimento destes porquês com que as crianças insistem até que se sintam satisfeitas, haverá quem, a determinado momento ou mesmo ao primeiro porquê, não se predisponha a encontrar resposta, o que penso poder vir a ser prejudicial ao seu desenvolvimento. Deixo isto aos pedagogos e aos psicólogos, mais habilitados do que eu para um esclarecimento correcto de eu estar ou não certo no que acabo de escrever.

Na semana passada, na habitual visita que a Matilde faz cá a casa, jantando com os avós paternos e aqui passando a noite, cabendo-me a tarefa de, no dia seguinte, a levar ao colégio, privilégios estes que os avós maternos também têm, como me parece natural, surpreendi-a na biblioteca a olhar as várias fotografias ali expostas. Ao ver-me, logo perguntou:

 – «Vovô, quem são estas pessoas?», uma pergunta que me parece lógica numa criança de 4 anos, que é a idade da minha neta.

Apressando-me eu a esclarecê-la, começando por a informar pormenorizadamente o que para mim representavam, esperando eu que logo a Matilde quisesse saber qual a relação que com ela tinham. As perguntas sucederam-se, mas a primeira pergunta não foi a que eu esperava, mas sim:

 – «Vovô, o que são estas pessoas ao meu papá?»

Lá tive de percorrer todas as fotografias de novo, com a explicação solicitada. A Matilde foi ouvindo e, quando chegou a vez de lhe falar outra vez da minha mãe e explicar que era avó do seu pai, logo disse, antes de eu ter oportunidade de lhe dizer o que para ela representava:

 – «É a minha bivó!»

O avô que eu sou ficou todo vaidoso, não havendo lenço com tamanho suficiente para me limpar a baba. Serão assim todos os avós? Espero que o leitor me releve esta pieguice.

De todas as fotografias, uma houve que olhou mais demoradamente, que mostra os meus avós paternos, o meu tio, quase a completar 5 anos, e o meu pai ainda bebé, com 6 meses:

 – «Oh, vovô -apontando o meu pai- este é um bebé, mais pequeno do que eu!»

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Lá lhe expliquei que aquele bebé era o meu pai, avô do seu pai e o bivô dela, a mesma pessoa que estava numa outra fotografia que já ela tinha visto e que tinha ficado a saber quem era. Logo apontou para os meus avós, seguindo-se a necessária explicação. Quando lhe disse que eram os bivós do seu pai, perguntei-lhe:

 – «E a ti, o que são?»

Olhou para mim mostrando não saber o que responder, dizendo-lhe eu que eram seus trisavôs, obrigando-me a uma explicação mais demorada. A Matilde tem a felicidade de conviver com duas bisavós e um bisavô, não lhe sendo estranha a invocação deste parentesco, o mesmo não acontecendo com o que vai para além disso. Outro dia voltaremos a conversar sobre tudo isto, se ela tomar a iniciativa ou, então, quando eu achar oportuno. Mais complicado ainda foi explicar-lhe o que lhe era o meu bisavô e a minha bisavó.

Não tive a felicidade da Matilde, dos meus avós apenas conheci a minha avó paterna, Maria do Rosário, e lembro a importância que teve na minha formação.

Dos meus avós maternos quase nada sei, tendo apenas uma fotografia da minha avó Isabel; do meu avô António Gomes nem isso. Do meu avô paterno, José Maria, recebi uma preciosa herança, constituída por dois livros:

«MANUAL ENCYCLOPEDICO», a que faltam as 4 primeiras páginas, onde constaria, presumo, o nome do(s) autor(es), o editor e o ano da publicação, com 666 páginas e com 19 capítulos: Princípios geraes de moral, Da Religião, Da Grammatica portugueza, Arithmetica, Elementos de civilidade, Das diversas Religiões, Definições geometricas, Bellas Artes, Da Geographia, Da Chronologia, Da Historia, Das Cruzadas, Da antiga cavallaria, Resumo da Historia de Portugal, Ordens militares ou de cavallaria, Das antigas côrtes em Portugal, Litteratura portugueza, Noções geraes de Physica, Da Mythologia.

e

«FORMULARIO E GUIA MEDICA», por PEDRO LUIZ NAPOLEÃO CHERNOVIZ, DUODECIMA EDIÇÃO, publicado em PARIZ, pela LIVRARIA DE A. ROGER & F. CHERNIVIZ, em 1886

os quais guardo com amor e que espero venham a ter o interesse da Matilde.

Espero um dia ter oportunidade de lhe contar alguns factos que vivi com a minha avó Maria do Rosário, aproveitando para deixar já aqui dois desses factos, profundamente gravados na minha memória, para que a Matilde, pelo menos e se eu não cumprir a promessa que aqui deixo escrita, venha a ter deles conhecimento.

A avó Maria do Rosário, profundamente católica, mas não frequentadora de igrejas e de sacristias, não adormecia sem primeiro rezar um terço por cada um dos filhos, das noras e dos netos. Uma noite, estando ela sentada na sua cama a rezar o terço, sabendo eu que sofria de um grave problema cardíaco, com a arrogância de um menino de instrução primária que julga já tudo saber, disse-lhe:

 – «Avó, não precisas de rezar por mim que eu não acredito em Deus!»

A avó Maria do Rosário, cheia de amor e com um sorriso nos lábios, respondeu-me:

– «Meu filho, tu saberás mais do que eu, mas, se eu não rezar também por ti, não vou conseguir adormecer!»

 – «Está bem, avó.» Meti «o rabo entre as pernas», como é uso dizer-se, dei meia volta e saí do seu quarto. E foi assim que recebi uma das grandes lições da minha vida.

Outro facto prende-se com o final do ano, quando na aldeia onde nasci se comemorava «as Janeiras»; hoje, continua a festejar-se, mas não a 31 de Dezembro e sim, normalmente, no primeiro Sábado de Janeiro.

Os miúdos da aldeia, meus companheiros da escola primária, iam cantar as Janeiras de casa em casa, recebendo os mais variados géneros com que, depois, findo o percurso, faziam eles próprios, segundo eles me diziam, a melhor refeição do ano. Eu estava condenado a não os acompanhar, proibido pelo meu pai pela razão de uma das minhas irmãs, a Irene, ter nascido precisamente a 31 de Dezembro, perto da meia-noite, dando assim origem a uma festa rija em casa dos meus pais, a que se juntavam convidados não familiares.

Num dos anos, chegado o dia das Janeiras, a minha tristeza devia ser indisfarçável, o que levou a minha avó Maria do Rosário a questionar-me, não descansando enquanto não soube o que me atormentava. Contei-lhe, logo ela me respondendo:

 – «Está bem, hoje vais com os teus amigos cantar as Janeiras!»

 – «Mas, avó, o meu pai não me deixa ir!»

 – «Do teu pai trato eu, não te preocupes, mas o jantar, dizes aos teus amigos, vai ser feito por vocês na cozinha da minha casa.»

A casa da minha avó é em frente da casa que foi dos meus pais e onde eu nasci, sentindo eu que ela esteve sempre atenta a tudo quanto na sua cozinha se foi passando, só não conseguindo impedir que eu fosse «roubar» mais umas tantas couves que faltavam à horta dos meus pais, motivo que ao meu pai deu oportunidade para refilar comigo quando no dia seguinte deu pelo facto, provavelmente a querer mostrar a sua autoridade, calando-se de imediato quando a minha avó Maria do Rosário lhe perguntou o que estava ele a dizer.

Foi a melhor refeição da minha vida, ainda sinto o seu sabor quando de tal acontecimento me recordo, como agora mesmo.

 

Portela (de Sacavém), 2016-10-27

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