A CRISE AUSTERITÁRIA E A QUADRATURA DO CÍRCULO – REFLEXÕES SOBRE A CRISE DA ECONOMIA, DO PENSAMENTO ECONÓMICO E DA DEMOCRACIA – TEXTOS DE REFERÊNCIA PARA ENTENDER A REALIDADE PRESENTE – B) BILL MITCHELL. 8. PARA UM CONCEITO PROGRESSISTA DE EFICIÊNCIA – PARTE 1 – III

Obrigado ao blog do tirloni.
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Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

Bill Mitchell
Bill Mitchell

Para um conceito progressista de eficiência

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Bill Mitchell, Towards a progressive concept of efficiency – Part 1

Billy Blog, 18 de Julho de 2016

(CONTINUAÇÃO)

Para uma visão geral e global, considere-se o seguinte diagrama com dois painéis, que pode resumir-se com o epíteto: Isto é acerca da Sociedade e não é Economia!

Produzi uma versão deste gráfico antes. Mas é muito útil como uma forma de nos motivar para as noções de eficiência.

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O gráfico é derivado do livro de 2012 de Anat Shenker-Osorio – Don’t Buy It: The Trouble with Talking Nonsense about the Economy e dá-nos duas visões alternativas da forma de pensar das pessoas, o nosso ambiente natural e o ambiente económico.

Compreendendo as diferenças entre estas duas visões ajuda-nos a compreender diferentes construções do conceito de ‘eficiência’.

O painel da esquerda representa a opinião dominante neoliberal, onde o pressuposto básico é que “as pessoas e a natureza existem principalmente para servir a economia” (Shenker-Osorio, 2012: localização 439).

 [Reference: Shenker-Osorio, A. (1987) Don’t Buy It: The Trouble with Talking Nonsense about the Economy, New York, Public Affairs. Referencias são da versão eBook]

Na década de 1980, nós começamos a viver mais em economia do que em sociedade ou comunidades com a narrativa neoliberal a ganhar supremacia.

Foi também o período de desemprego persistente em níveis elevados na maioria dos países da OCDE.

As duas coisas não são independentes. O desemprego surge porque há uma ausência do que chamamos ser a vontade coletiva.

Podemos ter sido doutrinados para acreditar que o governo é qualquer coisa como um imposto sobre cada um de nós, ao invés de ser o instrumento essencial para o acesso de todos nós ao bem-estar económico.

Têm-se estado a apoiar os governos, que deliberadamente restringem a despesa agregada abaixo do nível necessário para permitir postos de trabalho para todos, o que por sua vez, cria uma classe de desempregados que se tornam dependentes de regimes de bem-estar cada vez mais perniciosos.

O apoio ao rendimento em caso de desemprego é utilizado para ser considerado um direito de cidadania e, normalmente, de uma curta duração, enquanto que novos postos de trabalho surgem com o apoio financeiro do governo. Neste novo mundo neo-liberal, o apoio ao rendimento é vilipendiado como uma exploração feita sobre o trabalho árduo dos outros.

Esta narrativa é reforçada diariamente pelos violentos media oficiais e não oficiais , auxiliados por um prostíbulo de estrategas de direita ou extrema direita que se mostram com um enorme desprezo pelas vítimas da escassez de postos de trabalho, como se os indivíduos desempregados sejam os culpados pela sua própria situação.

Podemos ter sido idiotas ao evitarmos as interpretações precedentes – que restrições sistémicas sob a forma da falha do sistema em produzir empregos suficientes – torna estes indivíduos impotentes para mudar as suas circunstâncias, enfim, impotentes para mudar a sua situação.

Se são insuficientes os empregos gerados alguém deve ficar a perder! Nós agora negamos a realidade básica da macroeconomia. Se houver insuficientes empregos, nós agora colocamos a culpa desse facto sobre a preguiça ou outras inadmissíveis atitudes assumidas por estas pessoas, desesperadamente, a permanecerem de pé na fila dos desempregados.

Temos sido ensinados a pensar individualmente e a ignorar o que é coletivo. O desaparecimento do sentimento do que é colectivo no quadro do que é o serviço público tem sido a principal vítima da influência do neo-liberalismo.

Lembremo-nos da famosa declaração de Margaret Thatcher ao ser entrevistada pela revista feminina Women’s Own (publicada em 31 de Outubro de 1987):

Penso que nós passámos por um período em que muitas crianças e  pessoas foram levadas  a entender que “Eu tenho um problema, e o trabalho do governo é enfrentá-lo e resolvê-lo !” Ou “Tenho um problema, eu vou procurar obter um subsídio para o resolver!” ” Eu sou um sem-abrigo, o Governo têm que me arranjar um abrigo ! “, e é assim que essas pessoas transpõem os seus problemas para a sociedade mas o que é a sociedade? Não existe tal coisa! Há indivíduos, homens e mulheres e … há famílias e nenhum governo pode fazer nada que não seja através das pessoas e as pessoas olham para si mesmas em primeiro lugar. É nosso dever cuidar de nós mesmos e, em seguida, também preocuparmo-nos a ajudar o nosso vizinho e a vida é uma actividade recíproca e as pessoas têm muito em mente os seus direitos sem as obrigações, mas  não existe uma tal coisa que seja  um direito, a menos que alguém tenha primeiro assumido uma obrigação e isto é, penso eu, uma das tragédias em que muitos dos benefícios que concedemos foram criados para assegurar às pessoas que se eles estivessem doentes ou desempregadas havia uma rede de segurança social que os ajudaria,  uma vez que muitos dos benefícios foram criados para ajudar as pessoas que eram infelizes. Tudo vai bem. Vivemos juntos e temos estes esquemas de seguros para cuidar delas “. Esse era o objetivo, mas de uma maneira ou de outra, existem algumas pessoas que manipularam o sistema e por isso alguns daquelas ajudas e benefícios que foram criados para poder dizer às pessoas: “Tudo bem, se alguém não pode obter um emprego, pois bem, tem garantido um mínimo para poder viver “, mas quando as pessoas vêm e nos dizem:” mas qual é o interesse em ir trabalhar? Eu posso obter a mesma coisa no desemprego “E a esta afirmação responde-se-lhe dizendo :” Pense “Não é uma dádiva . É o seu vizinho que o está a pagar e se pode ganhar a sua própria vida, então realmente tem o dever de o fazer e se o fizer vai-se sentir muito melhor! “

Há também uma outra coisa que devo dizer-lhes: “se isso não lhe dá um padrão de vida mínimo, sabem, existem diversas maneiras em que podemos completar esse padrão de vida mínimo. Pode-se, por exemplo, obter o subsídio de habitação.”

Mas foi-se longe demais. Se as crianças têm um problema, é a sociedade que está em falta. Não há uma outra coisa que não seja a sociedade… Há a tapeçaria das nossas vidas, homens e mulheres e as pessoas assim como a beleza daquela tapeçaria e a qualidade das nossas vidas vai depender de quanto cada um de nós está disposto a assumir a responsabilidade por nós mesmos e em que cada um de nós está preparado para olhar em volta de si-mesmo e ajudar pelos seus próprios esforços aqueles que são infelizes.

Não há nenhuma tal coisa, como sociedade! Esta é a visão apresentada no painel esquerdo do gráfico.

E, infelizmente, essa mentalidade infestou até os movimentos progressistas e suas organizações políticas.

Este Manifesto é projetado para dissuadir pensadores progressistas dessa mentalidade e para, mais uma vez, criar uma larga compreensão quanto às restrições macroeconómicas forjadas a partir da despesa insuficiente e da forma como aquelas restrições forçam as desvantagem em múltiplas formas, para alguns dos nossos concidadãos.

A narrativa neoliberal diz-nos que uma economia competitiva, auto-regulada fornecerá rendimento e riqueza máxima se lhe for ‘permitido’ funcionar com a intervenção mínima pela parte do Estado em termos de política económica.

Os governos têm um papel restrito a desempenhar, que é geralmente limitado a assegurar o respeito pelos direitos de propriedade para que os lucros privados sejam protegidos e a assegurar a protecção das suas fronteiras de qualquer invasão externa.

Enquanto este papel minimalista é o dogma público, a realidade é que os neo-liberais desejam o Estado a desempenhar um papel muito mais significativo que pode ser resumido em assegurar que os lucros sejam privatizados e os prejuízos sejam socializados.

(continua)

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Ver o original em:

Para ler a Parte II deste trabalho de Bill Mitchell, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, clique em:

A CRISE AUSTERITÁRIA E A QUADRATURA DO CÍRCULO – REFLEXÕES SOBRE A CRISE DA ECONOMIA, DO PENSAMENTO ECONÓMICO E DA DEMOCRACIA – TEXTOS DE REFERÊNCIA PARA ENTENDER A REALIDADE PRESENTE – B) BILL MITCHELL. 8. PARA UM CONCEITO PROGRESSISTA DE EFICIÊNCIA – PARTE 1 – II

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