A América, e com ela o Ocidente, num impasse perigoso com as eleições presidenciais de Novembro – Trump, Clinton. Quem será o candidato do grande capital?

Selecção  e tradução de Júlio Marques Mota

Revisão de Francisco Tavares

A América, e com ela o Ocidente, num impasse perigoso com as eleições presidenciais de Novembro

Trump, Clinton. Quem será o candidato do grande capital?

1

Por Michel Lhomme,Michel Lhomme, filósofo, politólogo

2 de Outubro de 2016

O momento tão esperado chegou. Quero falar do grande debate, do espetáculo emitido por televisão dos dois candidatos à Casa Branca, Donald Trump e Hillary Clinton. Após mais de um ano de campanha, Trump e Clinton finalmente cruzaram as suas espadas por ocasião, na segunda-feira, do primeiro debate emitido por televisão, organizado na universidade Hofstra, em Nova Iorque. Os desafios eram enormes dado que para Donald Trump, se tratava de provar que tinha os ombros sólidos e sobretudo as competências para se tornar o próximo presidente dos Estados Unidos da América enquanto para Hillary Clinton, sob perfusão sanitária posta a tratamento de soro, tratava-se de salvar a face procurando desacreditar a todo o custo o seu adversário. Nos Estados Unidos, atingiram-se terça-feira à noite verdadeiros recordes de audiência tendo-se falado já do número recorde de 100 milhões de telespectadores!

Eleições cruciais para os Estados Unidos!

O esquema é simples: o governo americano desde o 11 de setembro de 2001 e da ação subterrânea do Estado Profundo, está totalmente desacreditado. Paralelamente, os Estados Unidos estão em plena decadência económica, política, moral e ideológica. Em face de um tal declínio, um multimilionário Donald Trump aparece a representar a resposta mais contundente para tentar contrariar esta queda. Do seu lado, a milionária Hillary Clinton, no poder realmente desde há mais de 30 anos, que representa e defende a velha guarda passadista dos neo-conservadores enquanto política retorcida, revela-se hoje como uma incompetente. De facto, nem Donald Trump nem Hillary Clinton poderão resolver a crise económica e sistémica que agita a América.

Tal como a França, os Estados Unidos encontram-se sob a ameaça de uma rutura interna e de uma guerra civil. Face a estes riscos, trata-se para os Americanos de saber se Hillary Clinton saberá enfrentar os próximos problemas de maneira mais subtil que Donald Trump? Em todo o caso, depois dos múltiplos ataques pessoais a que se entregaram os dois candidatos à eleição presidencial, o grande debate emitido pela televisão, de facto, não deu lugar verdadeiramente a alterações de fundo. É, aliás, muito frequente o caso neste tipo de shows da política espetáculo.

A oposição entre Donald Trump e Hillary Clinton permaneceu de acordo com o decurso da campanha. O republicano manteve, sobretudo no fim da entrevista, as suas declarações provocantes enquanto a democrata continuou a demonstrar a sua incapacidade em propor um verdadeiro programa. Certamente, de acordo com os politólogos ela foi melhor no debate. É sem dúvida verdade mas isso não será suficiente para ganhar amanhã a eleição e estar em condições de colocar um travão na subida de Donald Trump, em plena progressão nas sondagens após os atentados e os motins na Carolina do Norte.

Trump, candidato legítimo para combater a insegurança

De facto, sobre as questões de segurança interna, Donald Trump inegavelmente marcou pontos nestes últimos dias. Trump tranquilizou os Americanos apresentando-se como o candidato legítimo na luta contra a insegurança. E na Carolina do Norte, também surpreendeu o seu mundo denunciando as discriminações vividas pelas minorias negras, fazendo um discurso a contracorrente dos propósitos discriminantes que tinha defendido, em especial desde há meses contra os latinos. Ora, nota-se que precisamente a Carolina do Norte, Estado chave no voto, está em vias de pender progressivamente para o lado do multimilionário.

Para nós em todo o caso, em política estrangeira, as divergências entre o republicano e a democrata permanecem fundamentais, dado que Trump se assume como o apóstolo do realismo privilegiando o interesse nacional em todas as circunstâncias, um realismo que é do nosso interesse em face do aventureirismo da política de Obama destes últimos meses (reforço das instalações de mísseis e de batalhões no Leste da Europa, ocupação parcial de uma porção da Síria com uma aliança quase aberta com os islamitas de Daech contra o exército legalista de Bachar el Assad, falsa revolução organizada na Ucrânia). A paz mundial tem mais que nunca necessidade de um realista de tipo Kissinger à cabeça do Império, a Hiperpotência, mesmo que esta esteja hoje em declínio.

Ora, Hillary Clinton, é uma liberal convicta, intervencionista em política externa. Põe em destaque as instituições internacionais e preconiza uma certa responsabilidade dos Estados Unidos nos negócios do mundo. É por último claramente partidária do grande Israel e do refazer a favor de Israel dos mapas do Médio Oriente

Contrariamente ao sistema francês onde só um debate é organizado entre os dois candidatos, o sistema americano permite ao que perde a primeira ronda, de recuperar e de ganhar os dois próximos. Se no caso de Hillary Clinton, o debate de terça-feira não foi decisivo, será necessário, por conseguinte, que espere pelos dois próximos debates para ficar mais tranquila. Os candidatos devem agora convencer os eleitores dos 5 Estados chave (Ohio, Carolina do Norte, Florida, Colorado, Nevada). De acordo com as últimas sondagens, Donald Trump poderia conquistar estes 5 Estados. Quem teria acreditado em França, há um ano, que Trump poderia ser dado como favorito às eleições americanas de 2016? O sucesso “populista” de Trump junto do povo americano pode, além disso, fazer-nos esperar uma participação recorde, contrariamente à abstenção habitual. Mas atenção, sem dúvida não é por Trump ele mesmo que votarão os eleitores americanos em novembro, mas sim para pôr um fim a um sistema que tem colocado o povo fora de todas as de decisões e de todos os grandes projetos. O mais estranho então é que seja um multimilionário “independente” a encarnar este projeto anti-sistema.

Com efeito, o grande capital mundial tem sem dúvida de considerar Trump como um candidato a contra-gosto. Primeiramente, colocará os Estados Unidos em boa posição quando a situação económica tiver degenerado: “Ponha-se a América First”! Seguidamente, envolverá os Estados Unidos a fundo nos tratados de comércio livre a fim de os renegociar para vantagem do capital americano. Por último, Trump fará também aquilo que Obama não ousou fazer nestes últimos meses, aumentar as taxas de juro internas o que encarece o crédito e aumenta a sua rentabilidade. Aumentando o custo da utilização do dinheiro, o novo Presidente encherá os cofres dos Bancos e deixará milhões de famílias americanas na falência. O aumento da pobreza gerará então naturalmente turbulências sociais e levantamentos.

Michel Lhomme, revista Metamag, Présidentielles US : Trump, Clinton. Qui sera le candidat du grand capital ? Publicado em 2 de Outubro de 2016 e disponível no sítio:

http://metamag.fr/2016/10/02/presidentielles-us-trump-clinton-qui-sera-le-candidat-du-grand-capital/

Leave a Reply