HOJE HÁ ELEIÇÕES NA AMÉRICA, por JÚLIO MARQUES MOTA

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júlio marques mota

Hoje há eleições na América. Do nosso ponto de vista, dissemo-lo há quinze dias, ganhe quem ganhar, a América já perdeu e o mundo também.

Desta horrorosa campanha, o povo americano terá de decidir entre dois males e ninguém sabe objetivamente qual deles é o pior. Mas um dado e uma pergunta nunca feita pelos analistas políticos ditos de esquerda, nem pelos media, praticamente todos eles situados à direita explicita e/ou implicitamente, é a seguinte: como é possível ter-se chegado aqui, a um impasse tão dramático. Tão dramático que, como se assinala num editorial de ontem em A Viagem dos Argonautas escrito pelo editor João Machado*, o candidato que ganhar vai ganhar não apenas com os seus  votos mas talvez com os votos de quem não quer sobretudo  o candidato adversário, seja a que preço for. Uma forma moderna de voto nulo, mas de voto nulo unilateral!

No presente texto vamos ser curtos. Que eu tenha visto é a primeira vez que aparece no Público um artigo a indiretamente levantar a questão e é numa entrevista de   Alexandre Martins  a David Birdsell**. Diz-nos este:

“Se ele não ganhar, a questão será perceber se as pessoas vão olhar para isto como um aviso e se vão voltar a valorizar os aspectos mais tradicionais da política. Será que os políticos mais tradicionais vão adoptar as ferramentas que Donald Trump tem explorado, usando-as de uma forma mais responsável? Ou vão aparecer mais pessoas a olhar para o processo eleitoral apenas como mais um espectáculo como outro qualquer e a tentar reunir uma multidão furiosa? São tudo questões que ainda não conseguimos antecipar, e a resposta vai depender muito da forma como o próximo Presidente lidar com o enorme descontentamento popular a que temos assistido de forma inquestionável nestas eleições.”

Ficamos então a saber  que há um enorme descontentamento popular.

Diz-nos ainda Birdsell:

“Temos de levar em conta a terrível condição social de muitas pessoas que costumavam ter empregos em fábricas, principalmente entre as duas costas do país, e que perderam o emprego. É verdade que muitos deles conseguiram arranjar um novo emprego, mas estão a ganhar entre 60% e 80% do que ganhavam antes, e isso causa muito sofrimento. A taxa de mortalidade tem aumentado entre os americanos brancos na faixa dos 45-50 anos de idade. Há um problema bem real e muito grave, que o Governo tem negligenciado e que deu origem a toda esta raiva.”

Ficamos a saber que a situação económica e social criada com Barack Obama tem gerado um forte descontentamento popular e é afinal isto que levou à situação de agora, com um multimilionário monstruoso a canalizar esse descontentamento e com a esquerda  em vez de apoiar Sanders, a procurar  salvar a imagem do sistema criado, usando toda uma máquina no Partido Democrata para o eliminar e fez então aprovar internamente Hillary Clinton como a candidatura  democrata. O Partido Democrata propõe então uma mulher emblemática, que caracteriza ao extremo o capitalismo de compadrio, a defesa dos 1% mais ricos deste mesmo sistema.

A partir da nomeação de Hillary Clinton como a candidata do Partido Democrata é então toda uma outra campanha que é montada, passando-se a acusar tudo e todos de quem não é contra Trump, o mesmo é dizer quem não é a favor de Hillary Clinton, é tão racista como ele, para não colocar mais adjetivos ofensivos. E isso parece ser tão verdade nos Estados Unidos como no exterior. O papel inverso ao que a esquerda deveria assumir. Esta deveria pura e simplesmente analisar as razões deste descontentamento nacional que leva a que um cretino como Trump corra o risco de ganhar as eleições, apesar de ter todo o sistema contra ele: jornais, televisão, artistas, intelectuais, praticamente todo o sistema político americano. Um candidato solitário e sem cultura política, um burgesso  o como se diria na minha aldeia, contra um sistema como um todo e a colocá-lo em pânico. Dá que pensar mas pelos vistos a esquerda recusa-se em pensar nisso e coloca como candidatura uma representante à altura deste sistema de compadrio.

Repare-se no que diz Birdsell quanto ao descontentamento. No mesmo jornal diz-nos Rui Tavares:

“Até terça-feira, alguma coisa tem de romper. Alguma coisa tem de ser mais forte — entre os dados da votação antecipada que reconfortam os clintonistas ou as tendências das sondagens que encorajam os trumpistas — e levar o dia de vencida. Mas nem isso invalidará a cada vez menos pacífica coexistência de duas realidades opostas.

Como é evidente — e nem quero que seja outra coisa — não sou ambivalente entre estas duas realidades e não aceito que elas sejam equivalentemente verdadeiras. Como exemplo bastam-me as histórias dos últimos dois dias na campanha de Trump: ontem proclamavam que Trump tinha sido alvo de uma tentativa de assassinato que, como toda a gente viu em direto na TV, não ocorreu; anteontem, incendiaram as redes sociais com a mentira de que o diretor de campanha de Clinton participava em jantares satânicos. Para lá do anedótico, a campanha de Trump é baseada na premissa de que os mexicanos estão a invadir os EUA (na verdade, há mais gente a voltar para o México), de que o crime domina as cidades americanas (está a diminuir há décadas) e que a economia do país está no lixo (tem crescido respeitavelmente depois da Grande Recessão). A isto juntam-se os analistas menosprezando o fundo autoritário da campanha de Trump e atribuindo a sua força ao desemprego (quando os EUA estão perto do pleno emprego), à desigualdade (que baixou nos últimos anos), ao fim da classe média (que na verdade se tem alargado) ou ao voto dos pobres (que apoiam Clinton).”

Sendo verdade o que diz Rui Tavares da realidade americana,  de que se está perto do pleno emprego, de que as desigualdades têm diminuído, de que a economia tem crescido respeitavelmente, então todo este pânico à volta de Trump,  só tem sentido se considerarmos o povo americano como um povo de crianças  imbecis que nem sequer acredita nas campanhas orquestradas contra Trump pelos jornais, pela televisão, pelos grandes atletas, pelos cantores americanos de agora mais notáveis, pelos escritores mais brilhantes, enfim por todo o sistema ao serviço de Clinton. Há algo por aqui que não se entende ao tomarmos como verdade o que nos diz Rui Tavares.

Mas passemos adiante. Sobre a repartição do rendimento que nos dizem a melhorar, retomemos um texto de Onubre Einz que irá ser publicado no blog A Viagem dos Argonautas, onde o tema central é exactamente a repartição do rendimento nos Estados Unidos. Diz-nos Onubre Einz:

“Tratamos aqui principalmente do restabelecimento das desigualdades salariais pelas despesas públicas de carácter social. Esta questão é preliminar na análise dos mecanismos do crescimento americano.

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O exame dos salários reais declarados não deixa nenhuma dúvida: as classes populares (linha azul) e as classes médias (linha verde) tiveram perdas de rendimentos salariais. As classes médias superiores (a Preto em picotado) sofreram o mesmo destino a partir dos anos 2000. Entre 85% a 90% dos americanos empobreceram.

Mas falta ainda determinar se as transferências sociais corrigiram suficientemente esta tendência:

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A visão em conjunto dos rendimentos declarados ao Fisco (AGI ou Adjusted Gross Income [1] [Rendimento Bruto Ajustado]) permite matizar a nossa intenção. Para as classes populares (linha Azul), os rendimentos reais reduzem-se. Acontece o mesmo com as classes médias (linha verde), enquanto as classes médias superiores (linha Laranja com ponteado a azul) têm um pouco mais de sucesso pois vêem o seu rendimento a estagnar desde a crise de 2008 e não a descer.

As transferências sociais não inverteram a tendência de declínio do rendimento para a maior parte dos Americanos, esta tendência aparece simplesmente menos marcada. Esta incapacidade das transferências sociais de inverterem a tendência à baixa do rendimento da maior parte da população deve-se em primeiro lugar ao facto de que os rendimentos da propriedade do capital (acções, dividendos, alugueres, rendimentos da propriedade das empresas) desempenham um papel bastante fraco na formação dos rendimentos da maioria da população – os não possuidores. É a contrapartida da concentração dos patrimónios financeiros a favor dos mais ricos, a favor portanto do alto da pirâmide social, [os possuidores também de outros meios significativos de rendimento que não o trabalho].”

Tudo bem claro, deste ponto de vista, ou seja, 85% da população americana vê o seu nível de vida descer. E deixem-me frisar que os gráficos acima são obtidos exclusivamente a partir das estatísticas oficiais americanas.

A resposta a esta situação é dada agora por Clinton à televisão CBS (60 minutos) e deixemo-la em inglês com um pergunta: não será isto puro populismo?

“ At a fundraiser in Seattle Friday — with her growing lead over Donald Trump, Clinton holds few actual campaign rallies — Clinton described her spending agenda: the “biggest investment in jobs since World War II,” higher spending on prescription drugs, billions more for Obamacare, pre-school, family leave, college affordability, roads, bridges, tunnels, ports, airports, a new electric grid to “distribute all the clean, renewable energy we’re going to be producing,” half a billion new solar panels, advanced manufacturing, climate change, and more.

Clinton conceded that was a lot to pay for, but argued America’s wealthy have more than enough cash to hand over to the government. Chief among them, Clinton said, is her billionaire opponent, Donald Trump, whom she promises to target after the election.

“When people ask me, so how are you going to pay for infrastructure jobs and paid family leave, I say well, I’m telling you I’m going to pay for everything,” Clinton told the fundraiser audience. “I’m not going to add a penny to the national debt. We’re going to go where the money is. We’re going to make the wealthy pay their fair share. And we’re going to finally close those corporate loopholes. And it would be a good idea to start with my opponent.”

It’s not clear whether Clinton meant there might be some specific retaliation against Trump under her administration or whether Trump would simply pay more taxes along with other wealthy Americans.

Clinton often uses the phrase “go where the money is” to describe her tax-raising proposals. (The phrase comes from a legendary 20th Century criminal, Willie Sutton, who was asked why he robbed banks and supposedly replied, “Because that’s where the money is.”)

Na linha do descontentamento de que se fala acima, mas só agora, deixem-me então chamar a vossa atenção para três artigos que julgo importantes para se perceber o drama da América de hoje, que tem de escolher entre um homem altamente instável e talvez sem nenhum conhecimento do que é a política (Trump)  e de um outro candidato que a conhece mas no pior sentido da palavra, o de capitalismo de elite e de compadrio onde impera a ganância e a falta de princípios.

Os três textos são:

  1. A elite ” não tem nenhuma ideia ” – a sociedade está à beira do ponto de rutura

  1. As sete propostas de Donald Trump que os grandes media nos escondem

  1. Hillary e Bill Clinton: O casal «Bonnie e Clyde» da política americana

Boa leitura e já agora, se estivesse nos Estados Unidos e fosse eleitor votaria em branco ou nos Verdes.

Júlio Marques Mota

P. S. Este texto foi feito em velocidade. As minhas desculpas pelas muitas gralhas que possa ter.

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[1] Adjusted Gross Income (AGI) é definido como o rendimento bruto menos os ajustamentos para efeitos de tributação.

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*Ver em:

EDITORIAL – OS ESTADOS UNIDOS DEPOIS DE AMANHÃ

**Clicar em:

https://www.publico.pt/mundo/noticia/amese-ou-odeiese-a-verdade-e-que-muitas-pessoas-gostam-de-ver-donald-trump-1750158

 

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