ZECA(6) – As distracções de um cantor atento- por Carlos Loures

cantares-50-anosDepois, pelo tempo fora, encontrámo-nos por numerosas ocasiões, em reuniões políticas e não só. Durante a campanha do Otelo, em 1976, por exemplo, encontrámo-nos por diversas vezesnas agitadas reuniões dos GDUPs. Perante algumas intervenções de elevado teor revolucionário, sem olhar a despesas, com citações de Mao ou de Lenine. feitas por meninos e meninas que transpiravam burguesia por todos os poros, o  Zeca olhava para mim e sorríamos.

 Quando do II Congresso dos Escritores Portugueses, em Março de 1982, ficámos. por mero acas. lado a lado e almoçámos sempre juntos, durante os três dias, num pequeno restaurante da Conde de Valbom, em frente do muro da Gulbenkian, onde se realizaram os trabalhos do congresso. Num desses almoços esteve também, além de nós os dois, a escritora e saudosa amiga Maria Rosa Colaço.

Estivemos pela última vez, já ele estava muito doente, salvo erro em 1984, numa reunião de tentativa de criação de um movimento unitário da chamada extrema-esquerda (tentativa que soçobrou, como as anteriores, diante da muralha do sectarismo), realizada em casa de um amigo comum. A doença notava-se, sobretudo, na impaciência com o Zeca procurava que se discutisse apenas o essencial e se pusesse de parte o acessório.

Quando, num comentário, eu disse que o Zeca era distraído, referia-me a histórias que os amigos contavam.. Como, por exemplo, numa manhã de domingo foi com os filhos, ainda pequenos, ao jardim, os pôs a brincar nos baloiços e no escorrega e depois, pouco antes do almoço, sempre imerso nos seus projectos, chegou a casa sem eles. Perante a aflição da mulher, voltou correndo ao parque e lá estavam, felizes, brincando. Ou como, à mesa do café, trauteava uma melodia que criara, perguntando aos amigos se aquela música já existia, respondendo eles sempre, com amistosa ironia, que sim.

Ou ainda, quando as salas multiplex eram ainda novidade, com a Zélia, e com o casal Bruno da Ponte e Clara Queiroz, foram ver um filme. No intervalo, saiu e quando o intervalo acabou o Zeca entrando por engano noutra sala, viu a segunda parte de um filme diferente. A Zélia e os da Ponte, pensaram que ele se fartara do filme e os esperava no átrio. Esperava-os de facto, mas com esta observação: «Não vos encontrei na sala. Mas estes filmes de agora… não percebi nada da história». O Fausto e outros companheiros, por diversas vezes me contaram das atrapalhações quando, a meio de uma actuação, o Zeca se esquecia da continuação da letra. Parava tudo, ele encontrava o papel e lá se recomeçava. Distraído o Zeca?

Sim, distraído, parecendo «andar nas nuvens». Mas, ao mesmo tempo, muito atento à realidade do seu tempo. Cada canção sua, além de ser uma obra-prima da chamada música de intervenção, é um post it colado  à nossa memória e à nossa atenção, para que não esqueçamos que continua a haver «índios da meia-praia», «meninos do bairro negro», que a «morte continua a sair à rua»… Sobretudo, seria uma grande injustiça que nós nos distraíssemos e que esquecêssemos que houve um artista e, sobretudo, um ser humano como foi o José Afonso. O Zeca, como me disse outro ser de eleição – Edmundo Bettencourt – não foi um cantor – foi o cantor.

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