Uma Análise das forças geradoras do tsunami económico e social presente a partir do seu epicentro, os Estados Unidos – Introdução geral aos textos II a VII: Uma economia subjugada- (Parte B)

Selecção de Júlio Marques Mota

Revisão de Francisco Tavares

Uma Análise das forças geradoras do tsunami económico e social presente a partir do seu epicentro, os Estados Unidos

Uma série de 8 textos

 

(TEXTO II) – Introdução geral aos textos II a VII: Uma economia subjugada- (Parte B)

B – Fraqueza das minhas análises anteriores e o plano dos textos seguintes

1° As fraquezas das nossas análises anteriores.

Esta revisão das análises anteriores permite-nos sublinhar as suas fraquezas. Elas são largamente o produto de uma ausência de análises diferenciadas da distribuição do rendimento. Devemos retomar esta análise da distribuição do rendimento estando muito mais atentos à maneira como as desigualdades de rendimentos se aprofundaram. As nossas análises anteriores operavam por secção massiva da distribuição do rendimento opondo o decil 80-90 ao decil de topo, o dos 10%-20% dos Americanos de topo. Podia-se assim identificar os mecanismos essenciais de funcionamento de uma economia americana inigualitária na distribuição do seu rendimento e tendo em conta as apropriações/detenções de património; faltava aqui uma análise mais fina dos mecanismos de aprofundamento das desigualdades de rendimento e de patrimónios. É necessário por conseguinte passar da análise geral à análise mais aprofundada dos mecanismos que estão em funcionamento. Dispomos para isso de um instrumento formidável: a distribuição do rendimento por categorias que nos é disponibilizado pelo IRS.

É suficiente fazer a anatomia das condições de enriquecimento das famílias do 10º decil, o de topo, para compreender como é que a economia americana foi configurada para ser dominada pelos interesses de uma minoria.

 

2° Os complementos desta série de textos.

a) Salário comum e salário misto (Textos II e III)

Esta análise conduzir-nos-á, em primeiro lugar, a regressar à análise da forma do salário. A polarização dos rendimentos salariais a favor das famílias do topo da pirâmide social levanta sérias interrogações sobre a forma do salário. Ser-se-á conduzido a diferenciar um salário comum cuja remuneração corresponde a uma utilidade social. O salário comum surge da oposição tradicional capital produtivo-trabalho, quer o capital seja detido imediatamente (propriedade direta das empresas) quer seja de modo mediato (acções). Opor-lhe-emos um salário misto cuja natureza e remuneração ultrapassam em vários aspetos o trabalho simples.

Esta mudança de análise do salário explica-se por duas razões: tratámos até agora a propriedade do capital existente sob a forma de capital produtivo ou capital dinheiro portador de juros ou dividendos. Ora esta propriedade do capital gera um impasse sobre a sua apropriação. No caso da propriedade directa de um capital produtivo ou de um capital-dinheiro portador de juros, propriedade e apropriação evoluem no mesmo sentido. Já não é do mesmo modo no caso de um capital produtivo sempre que a apropriação do capital esteja dissociada da propriedade deste último. Tal é o caso das sociedades anónimas e acessoriamente das empresas detidas a título privado sempre que a sua direção é deixada a assalariados.

Desmontaremos que o salário misto é indispensável para introduzir uma questão central: a da existência de um grupo restrito de contribuintes americanos que se aproveitam totalmente de um sistema que os serve. Dois primeiros textos consagrados aos salários comuns e mistos terão como função demonstrar que os mecanismos de aprofundamento das desigualdades nos EUA – profundamente ligados à existência do salário misto – são primeiramente nacionais e que a globalização não é a sua causa fundamental. A análise da hierarquia dos salários permitir-nos-á obter uma visão socialmente muito concreta dos americanos que se aproveitam a nível nacional do crescimento.

 

b) Os mecanismos de enriquecimento do grupo dos 10% de rendimentos mais altos (Texto IV a VII)

A minoria em questão identificar-se-á com os rendimentos superiores do decil mais favorecido pela repartição (o dos 10%). Na medida em que o conjunto dos fenómenos de enriquecimento deste decil de famílias mais favorecidas se acentua à medida que a análise tem em conta a minoria mais rica dos americanos (os 0,1% do topo da repartição, dito também milésimo de topo), os mecanismos de enriquecimento que jogam em pleno a favor desta minoria da população americana aparecerão nas suas características essenciais. Poderemos assim delimitar de maneira diferenciada as dinâmicas salariais em funcionamento no enriquecimento de um grupo restrito cujos mecanismos de enriquecimento se aplicam mais ou menos ao resto das componentes de todo o decil dos mais favorecidos mas porém de uma maneira cada vez menos forte. Apresentar-se-á porque é que as partes de salários de uns, as famílias do (top 10-20) devem obrigatoriamente levar a uma recessão da parte dos salários dos outros membros da população americana (a partir da parte baixa dos americanos situados no decil 80-90). É o par conceptual capital produtivo adequado, capital-dinheiro ou capital produtivo detido, que nos permitirá examinar em seguida as questões restantes deixadas em aberto até agora.

Esta análise do alargamento da desigualdade dos rendimentos abre uma segunda pista: o destino das classes médias superiores (decil 80-90) mostra que a lógica da polarização dos rendimentos é progressiva e que procede por um alargamento crescente dos perdedores do sistema económico americano em proveito de uma fração cada vez mais reduzida da população. Examinaremos em detalhe a lógica desta polarização aprofundando a análise das formas desta polarização por categorias de capital. Estaremos particularmente atentos à forma como os patrimónios permitem captar o rendimento (IV). Mostraremos como a acumulação das MVVA permite compreender como é que os do top 10 não podem senão captar sempre cada vez parcelas mais elevadas dos rendimentos procedentes da propriedade do capital, transformando as famílias do top 10 em prestamistas estruturais de capital portador de juros ou dividendos (V). Poder‑se‑á então enunciar como é que as condições de polarização dos patrimónios contribuem para a polarização dos rendimentos (VI)

Restar-nos-á por fim examinar se a concentração dos rendimentos é acompanhada ou não de uma lógica malthusiana de redução da percentagem dos beneficiários do sistema. Esta última análise não deixa de nos colocar um desafio essencial: um sistema de concentração dos rendimentos a favor dos rendimentos de topo acoplado a uma redução do peso dos beneficiários altera profundamente a análise das rivalidades patrimoniais. Neste último caso, é possível falar de reação patrimonial sobre um fundo de criação de riqueza em que está em desaceleração. (VII)

As consequências económicas, políticas e sociais vão então bem para além de uma crise de legitimação política provocada pela desqualificação das classes médias superiores que deixarão pois de ter os meios de sustentar a sua pretensão à hegemonia cultural e à influência exclusiva sobre o modo de vida. Uma reacção patrimonial supõe não somente que se reduza o acesso das outras classes sociais à divisão do rendimento, mas também que se aumente desmedidamente a sua parte no rendimento, com o risco de com isso tornar o quadro de legitimação democrático insustentável. Refletir-se-á, por conseguinte, sobre a preservação do quadro democrático do crescimento americano.

 

C – Método de exposição desta série de textos – Síntese e tópica relacional.

Para expor as principais teses apresentadas nesta introdução ligámos dois tipos de exposição. Como é nosso hábito, construímos a nossa exposição utilizando estatísticas que permitem apoiar as nossas ideias. Estas estatísticas formam os fios documentais, são escolhidas e elaboradas com cuidado a fim de apoiar os nossos argumentos.

A fim de não complicar a análise e facilitar o seu acompanhamento, escolhemos retomar as análises desenvolvidas anteriormente sob a forma de incisões. Uma incisão é pois uma retoma de análises anteriores, incisões são em geral resumos muito condensados das nossas teses; as incisões não se complicam com estatísticas. No entanto, as incisões não são estranhas às demonstrações que se apoiam sobre estatísticas, bem pelo contrário, a sua presença vem clarificar, cada vez que se utilizam, os desenvolvimentos que fazem apelo a estatísticas.

Argumentação estatística e incisões completar-se-ão uma e outra, à medida que a leitura dos textos for feita por um leitor atento. Esta complementaridade é a tradução de uma longa evolução deste blog: após anos de diligência analítica passamos a um nível sintético de análise que vale como conclusão do trabalho começado sobre este blog em 2009. Nós esquadrinhamos as estatísticas americanas desde 2000.

O carácter sintético destes textos permite obter pela primeira vez uma visão global da crise. Esta visão é, do nosso ponto de vista, completa. Permite-nos propor uma tópica relacional da crise que será objeto de uma outra série de textos.

Uma tópica relacional é um conjunto de esquemas que permitem apresentar sob uma forma sintética e completa a lógica de funcionamento de uma economia nela integrando a dinâmica e os fatores de crise. Esta série de esquema retomará as ideias desenvolvidas nesses textos sempre com a preocupação de nos fornecer complementos sobre a teoria do salário misto que é a chave-mestra para a compreensão do modelo de crescimento desequilibrado dos EUA.

Uma tópica relacional é a coisa mais difícil de produzir, ela supõe ter tratado em detalhe o funcionamento de um conjunto económico, pode apenas ser apresentada depois da redação do 28º texto, o que representa 1500 páginas de análises acompanhadas por mais de 2000 de gráficos. O conjunto totaliza sem dúvida 3000 páginas, de linhas de simples entrelinha, ilustradas. A tópica relacional oferece uma síntese em 6 a 7 esquemas.

Respondemos assim a um pedido – enunciado às vezes sob a forma de crítica – de numerosos leitores. A simplicidade vem sempre no fim. Quando esta se apresenta no início do tratamento de um tema muito complicado, é apenas ideologia apressadamente colada à realidade.

Onubre Einz., I – Introduction générale aux papiers II à VII : Une économie asservie.Texto disponível em :

http://criseusa.blog.lemonde.fr/2015/09/10/i-anatomie-top-ten-intrd-generale/

 

(continua)

15/12 Uma Análise das forças geradoras do tsunami económico e social presente a partir do seu epicentro, os Estados Unidos – Introdução geral aos textos II a VII: Uma economia subjugada. (Parte A)

 

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