O MAPA (A saga do anadel/53) – o grumete Barend – por Carlos Loures

 

                                                                                            Leeuwarden, sexta-feira, 27 de Setembro de 1487.

 

Depois de um ou de outro contratempo e de alguns factos sem importância – um tempo bonançoso em excesso, com ausência de vento e, por isso, obrigando a recorrer à força dos remadores – a carraca sulcava já as águas do mar Adriático, divisando-se agora por bombordo, entre a neblina, o casario e as torres sineiras das igrejas de Pescara. Em contraponto a esta placidez, tinham ocorrido algumas pequenas tormentas de Estio; um mastro da mezena que, devido à recente tempestade, se verificou estar rachado quase de alto a baixo e em risco de se quebrar, mas que pôde ser escorado e reparado antes de cair. Houve uma preocupante hemorragia verificada num tripulante que fez pairar a ameaça de uma epidemia de escorbuto. O físico verificou ser o temor infundado, pois tratava-se apenas de uma queixa de um estômago ulcerado, castigado pela ingestão excessiva de bebidas, vinho e aguardente, sobretudo.

Os efeitos paliativos que o ataque dos piratas berberescos tiveram na vida de bordo, apaziguando quezílias antigas e criando alguns laços de solidariedade entre os homens, forma extinguindo-se de dia para dia. A agressividade voltara a campear.

Devido ao álcool e, desta vez, em viagem de subida à cabeça e não de descida ao estômago, houve algumas rixas, não passando algumas, em todo o caso, de escaramuças verbais, com avulsos impropérios gritados em variados idiomas, outras mais graves e violentas, travados na linguagem universal da paulada e da facada, fruto da bebida misturada com o jogo de dados. É fácil explicar a ocorrência destas brigas: por um lado, o álcool era distribuído com abundância exagerada face à pouco substanciosa alimentação; por outro, as condições existentes no navio, em que os homens viviam apinhados e obrigados a compartilhar durante tanto tempo um espaço exíguo e insalubre, levava-os a comportarem-se e a quase enlouquecerem como os ratos quando grandes grupos são confinados em espaços reduzidos. Esta circunstância não era, por certo, estranha às rixas, por vezes violentas que davam suplementar trabalho ao físico Anton, colocando talas em membros fracturados, curando feridas de arma branca, cosendo cabeças quebradas por violentas pauladas ou pelo arremesso de garrafas.

Outra preocupação, talvez a mais séria das que ocorreram nestes derradeiros dias de viagem, surgiu sob a forma da vela redonda de uma fusta árabe que apareceu rondando no horizonte, mas que, temendo por certo o aspecto agressivo e quase marcial daquela grande nave de comércio, se afastou sem atacar. Lourenço e os seus «soldados» quase lamentaram que os piratas mouriscos se não tivessem atrevido desta vez a consumar o ataque, pois bem gostavam de ter experimentado a prontidão da sua hoste, bem como a eficácia das armas que lhes foram distribuídas. Em suma, ocorreram apenas coisas insignificantes, tudo acontecimentos muito normais nas viagens marítimas.

Foi quando se deu o estranho caso da morte súbita de Eduwart, o fulvo e sardento gnomo que seguia Jan Peter como uma diminuta sombra. Jan Peter jogava aos dados com os seus três sequazes mais directos, Joris, Wouter e Eduwart. Estavam os quatro muito embriagados e mandaram um grumete ir buscar mais uma garrafa de aguardente, pois a que tinham na mesa estava vazia. O rapaz trouxe a garrafa e começou a encher os copos dos quatro marinheiros. O «anão vermelho» não deixou que o moço lhe deitasse o líquido no copo, arrancou-lhe a garrafa da mão e gritou «Tenho sede! – Ik heb dorst!». Emborcou-a, ingerindo mais de metade da aguardente. Continuaram a jogar e a beber, quando, subitamente, Joris se levantou e correu para a amurada, vomitando de forma copiosa. Jan Peter e Wouter, sentiram também dores de estômago. Só Eduwart não se queixou. O pequeno homem tinha a cabeça entre as mãos como se dormisse. Mas não estava a dormir. Morrera.

Von Emmen veio observar o corpo. O ruivo morrera com uma síncope, diagnosticou. Os outros três jogadores, incluindo Jan Peter, apresentavam também queixas, tais como dores de cabeça, vómitos, diarreia. Envenenamento? Talvez. Mas o físico não conseguiu apurar nada. Porque não dispunha de meios e porque a vida humana valia ali muito pouco. O capitão perguntou se o excesso de álcool não podia provocar a síncope. Anton respondeu afirmativamente. Sim, podia, mas… Van der Meer, voltou-lhe as costas e deu ordens para atirarem o corpo de Eduwart ao mar. Foi buscar a Bíblia, leu uns versículos e o assunto caiu no esquecimento.

O grumete que fora buscar a garrafa, um jovem chamado Barend, nem sequer foi interrogado. Quando Jan Peter ficou melhor, graças a um vomitório que Von Emmen lhe ministrou, procurou o rapaz para tentar saber onde fora ele buscar a garrafa. Não o encontrou em parte alguma do navio. Depois, acharam-no no porão das mercadorias, entre tonéis de vinho e rimas de linho. Estava morto. Degolado.

 

 

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