A ARQUITETA DO PROGRAMA OBAMACARE ABANDONA A CASA BRANCA PARA IR TRABALHAR NA INDÚSTRIA FARMACÊUTICA, por GLENN GREENWALD

usa_map_flag

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota. Revisão de Francisco Tavares.

the guardian logo

A arquiteta do programa Obamacare abandona a Casa Branca para ir trabalhar na indústria farmacêutica

Glenn-Greenwald-Original_350

Glenn Greenwald, Obamacare architect leaves White House for pharmaceutical industry job

The Guardian, 5 de Dezembro de 2012

Poucas pessoas personificam tanto a porta giratória de aliciamento utilizada pelas grandes empresas em Washington como Elizabeth Fowler

obamacare-i
A ex-Vice-Presidente da  WellPoint Elizabeth Fowler, sentada atrás do seu chefe, o senador  Max Baucus, quando este anunciou em  2009 que o projeto de lei de cuidados de saúde não incluiria um seguro de saúde público.  Photograph: screen grab, Bill Moyers’ Journal

Quando a legislação que que se tornou conhecida como “Obamacare” foi redigida pela primeira vez, o responsável principal por esta legislação foi o Presidente da Comissão de Finanças do Senado, o democrata Max Baucus, cujo comité assumiu a liderança da elaboração desta legislação. Como o próprio Baucus afirmou alto e bom som, o principal arquiteto do projeto de legislação produzido foi Elizabeth Folwer, a sua principal assessora para a política da saúde. De facto, como Marcy Wheeler veio a saber, foi Fowler que realmente redigiu o texto do projeto de lei. Como escreveu na altura a Revista Politico: “Se fizessemos um organigrama dos mais importantes intervenientes nas negociações sobre a saúde no Senado, Fowler seria aí a chefe operacional”.

O que era bastante impressionante em tudo isso era que, antes de ir para o gabinete de  Baucus para liderar a elaboração da lei sobre os cuidados  de saúde,  Fowler era a  Vice-Presidente da WellPoint para as Políticas Públicas e Assuntos Externos (ou seja, o lobby informal), a maior seguradora em planos de saúde no país (antes de ir para WellPoint, assim como depois, Fowler tinha trabalhado com Baucus como principal assessora de política de saúde). E quando aquele projeto de lei sobre cuidados de saúde foi redigido, a pessoa que Fowler foi substituir como conselheiro-chefe em política de saúde no gabinete de Baucus, Michelle Easton, fazia lobby para a WellPoint como quadro superior da Tarplin, Downs & Young.

Quaisquer que tenham sido ou sejam as opiniões sobre o Obamacare: a disposição da lei de que toda a gente tem de adquirir os produtos das seguradoras privadas de saúde, sem haver qualquer alternativa pública, foi um enorme presente dado a este sector; como Wheeler escreveu na altura: “na medida em que Liz Fowler é a autora deste projeto de lei, poderemos muito bem considerar que a WellPoint também foi autora.” Veja os cinco o minutos do relatório de Bill Moyers de  2009, abaixo indicado,  sobre o o papel fundamental desempenhado em todo este processo por Liz Fowler e sobre a  “porta giratória” entre o lobbying do setor privado de seguros de saúde e os altos  funcionários do governo quando esta lei foi escrita e aprovada.

Mais impressionante ainda, quando a Casa Branca de Obama precisou de alguém para supervisionar a aplicação do Obamacare, depois da aprovação da lei, escolheu … Liz Fowler. Que a Casa Branca tenha posto um ex-alto executivo de setor privado de seguros de saúde como responsável da aplicação da sua substancial nova legislação sobre cuidados médicos foi geralmente condenado por grupos do governo como sendo pelo menos uma violação do “espírito” da ética na governação ou mesmo “ultrajante”, mas estas objeções, naturalmente, foram ignoradas pela Casa Branca. Ela passou então a ser Assessora Especial do Presidente para a Saúde e a Política Econômica no Conselho Económico Nacional.

Agora, tal como a coluna “Influence ” da Revista “Político” referiu numa curta nota na terça-feira, Liz Fowler está a passar mais uma vez pela profundamente corrupta porta giratória ao abandonar a administração Obama para regressar aos bem amados e lucrativos braços da setor privado da saúde:

“Elizabeth Fowler vai deixar a Casa Branca para uma posição de chefia do departamento de “política global de saúde” da área dos assuntos governamentais e políticos do Grupo  Johnson & Johnson’s.

O gigante farmacêutico que acabou de contratar Fowler apoiou ativamente a aprovação do programa Obamacare através do lobby Pharmaceutical Researchers and Manufacturers of America (PhRMA). Na verdade, a PhRMA foi um dos apoiantes mais agressivos – e um dos seus mais importantes beneficiários – do projeto de lei de cuidados de saúde elaborado por Liz  Fowler. James Ridgeway, do blog  Mother Jones, proclamou a “Big Pharma” como a  “grande vencedora” da lei sobre cuidados de saúde. E agora, Fowler irá receber altas recompensas dessa mesma indústria ao traficar as suas influências no governo e explorar a sua experiência de conhecimento dos procedimentos internos do governo para trabalhar para este setor empresarial, o que foi tornado perfeitamente legal pela mesma cultura fechada e palaciana de Washington que tão extensamente beneficia de tudo isto.

É difícil encontrar alguém que personifique tão bem e tão vergonhosamente como Liz Fowler a sórdida e antidemocrática porta giratória de aliciamento das grandes empresas  em Washington. Um dos poucos concorrentes em que posso pensar é o Vice-Almirante Michael McConnell, que trocou a sua carreira nas forças armadas e nos serviços de informações por uma posição altamente lucrativa na Booz Allen, uma das maiores empresas de serviços de informações e serviços secretos contratadas pelo governo; tornou-se depois, no governo de George W. Bush, Diretor da NSA, a Agência de Segurança Nacional (onde promoveu um enorme presente oferecido à indústria de telecomunicações: a imunidade retroativa protegendo esta indústria de toda e qualquer responsabilidade pela sua participação no programa ilegal de escutas feito pela NSA para Bush) e deu continuidade ao trabalho da Booz Allen em privatizar funções dos serviços secretos e de vigilância; regressou depois aos braços de Booz Allen, onde explora agora as suas credenciais de Segurança Nacional em nome dos interesses da indústria (encabeçando. por exemplo, a campanha de propaganda do medo da cyber-guerra, a fim de justificar programas da segurança que enriqueceriam amplamente os clientes da Booz Allen).

Este é precisamente o comportamento que, muito racionalmente, faz com que os cidadãos se sintam tão cansados de Washington. É aquilo que assegura que os interesses das mesmas e permanentes fações do poder sejam providenciados, independentemente dos resultados eleitorais. É isto que põe completamente a ridículo as profissões de fé de democracia. E é o que demonstra que as grandes empresas e a oligarquia são as formas dominantes de governo nos EUA.

 

Glenn Greenwald, The Guardian, Obamacare architect leaves White House for pharmaceutical industry job. Texto disponível em:

https://www.theguardian.com/commentisfree/2012/dec/05/obamacare-fowler-lobbyist-industry1

Leave a Reply