I
Coincidindo com os dias dedicados às exposições de Miró e Amadeo, no Porto, não pude estar na estreia do novo espectáculo do Novo Grupo, em cena no Teatro Aberto desde meados de Dezembro de 2016.
Quando as luzes se apagaram, o meu filho chamou-me a atenção para a lotação da sala, quase completamente cheia, logo imaginando como estariam cheios de alegria todos aqueles que contribuíram para a realização do espectáculo, não sendo a minha alegria menor. Lembro também as muitas vezes que pude acompanhar, nos bastidores, os actores a espreitarem a lotação da sala e a tristeza que os seus rostos não deixavam de mostrar quando a sala estava longe de esgotar a lotação, muitas vezes mesmo com um número de espectadores que não completava mais do que duas ou três filas da plateia. Um espectáculo que há tanto tempo está em cena –tanto tempo para Portugal; em França esteve quase três anos-, é de realçar que, numa 5.ª feira, a maior sala do Teatro Aberto estivesse quase esgotada.
No final do espectáculo, outra reflexão me ocupou, lembrando alguns amigos que pensam que o teatro não devia ser apoiado pelo Estado, no que são acompanhados por outros cidadãos, num número bastante significativo, ignorando o serviço público que o teatro presta ao país e aos portugueses, serviço esse indispensável ao desenvolvimento de qualquer país. A todos estes que não saibam o que é serviço público, recomendo que se apressem a ir assistir a este maravilhoso espectáculo e, depois, que honestamente reflictam sobre o que viram e, tenho a certeza, aqueles que não pensem que as suas opiniões, uma vez formuladas, são definitivas, ou seja, que as suas verdades são absolutas, passarão a ser defensores não só desse apoio como também do seu substancial reforço.
Uma última recomendação: não deixem de comprar o respectivo programa, o qual mostra um outro aspecto do serviço público que o Novo Grupo vem prestando ao país.
II
A peça tem o título de «O Pai», sendo seu autor Florian Zeller.

Trata-se de um escritor que me era totalmente desconhecido, não resistindo a uma busca na «internet», despertado que fui pelos dados do programa e, sobretudo, pela qualidade do texto a que assisti.
Nasceu no 15.º Distrito (ou Circunscrição Administrativa, se preferirem) de Paris, na margem esquerda do Sena, em 28 de Junho de 1979, portanto, ainda muito jovem, tendo-se formado no Institut d’ Études Politiques de Paris. Vive em Paris e é casado com a actriz Marine Delterme, de quem tem um filho, Roman, nascido em Dezembro de 2008.
Aos 22 anos publica o seu primeiro romance, «Neiges artificielles», logo lhe sendo atribuído o Prémio da Fundação Hachette (2002), publicando a sua primeira peça de teatro, «L’ Autre», em 2004. Foram os seus romances que, primeiro, o tornaram conhecido, pois ao primeiro seguiram-se «Les Amants du n’ importe quoi» (2003), Prémio Prince Pierre do Mónaco; «La Fascination du pire» (2004), Prémio Interallié; «Julien Parme» (2006); «La Jouissance» (2012). Entretanto, de 2002 a 2006, lecciona Literatura no Instituto onde se havia formado.
Mas é talvez no teatro que mais se destaca, sendo, segundo L’ Express, «o melhor dramaturgo francês, com Yasmina Reza»(1) e, segundo The Guardian, «o mais apaixonante autor de teatro da nossa época». Após o já referido primeiro texto teatral, seguem-se «Le Manège» (2005); «Si tu mourais» (2006), Prémio Jeune Théâtre de l’Académie française; «Elle t’attend» (2008), «La Mère» (2010), «La Vérité» (2011), «Le Père» (2012), recebe o Molière da melhor peça e o Prémio do Brigadie em 2014, e, ainda para esta peça, o prémio israelita Academy Theatre Awards 2016, na categoria de «Melhor peça»; «Une heure de tranquillité» (2013) ; «Le Mensonge» (2015); «L’Envers du décor» e «Avant de s’envoler» (2016, as duas), o que constitui uma produção verdadeiramente impressionante, não apenas pela quantidade, mas também, se atentarmos nos prémios recebidos pelo autor, pela qualidade, prémios esses que foram atribuídos à sua obra romanesca e teatral, como deixámos explícito.
Se quiséssemos ser exaustivos, teríamos ainda de referir as muitas nomeações das suas peças para os vários e prestigiantes prémios, para a categoria de «Melhor peça», no Reino Unido, nos EUA e, naturalmente, em França, onde, mais uma vez, se destaca a sua peça «O Pai», agora apresentada ao público português pelo Novo Grupo, com dez nomeações. Ainda mais exaustivos se referíssemos as suas colaborações no cinema, na ópera e, até, na música, ao compor duas das canções para o álbum «Aimer ce que nous somme», de Christophe.(2)
III
O espectáculo tem a qualidade a que o Novo Grupo nos habituou, naturalmente herdada, podemos dizê-lo, do Grupo 4. Não temos um pormenor menos feliz para referir, desde o trabalho do encenador, aos actores e aos técnicos que me tornaram possível esta noite de teatro, que guardarei na minha memória para todo o sempre.
O autor, como se diz no programa, encontrou duas razões fortes para escrever o texto:
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«… porque queria muito trabalhar com o actor Robert Hirsch. É uma maneira estranha de começar a escrever. Não foi o assunto que me inspirou, mas sim o homem de idade. Foi a voz, o corpo, a sua maneira de estar vivo que me inspiraram.»;
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«Quando acabei de escrever a peça, percebi que a razão pela qual queria escrever para ele era para escrever sobre a demência, porque, de facto, havia uma ligação pessoal. A minha avó, que me criou, teve demência a partir dos meus 15 anos e essa situação impressionou-me muito.»

(Lidas as palavras da primeira razão apresentada por Florian Zeller, não pude deixar de me lembrar de alguns textos portugueses escritos a pensar no elenco desta ou daquela companhia, alguns deles ainda não representados. Lembro-me também dos textos «arranjados» pelo Costa Ferreira para os espectáculos de «Os Hipopótamos – Grupo de Teatro dos Serviços Sociais da Caixa Geral de Depósitos», cujas falas tinham em atenção o actor de amadores do grupo que iria dizê-las em palco, falas essas construídas por aquele autor, encenador e actor em diálogo permanente comigo. Estas são boas memórias).
Como o leitor já terá percebido, o tema tratado é o da demência, da demência de um pai, «O Pai», que dá o título à peça, interpretado magistralmente por João Perry. O drama familiar que a situação provoca, com as memórias da personagem principal a serem-nos mostradas sem qualquer sequência cronológica, que ele vive como se a tivessem, mas depois o levam a um estado de confusão que, naturalmente, o perturbam. Dá pela falta do relógio, não sabe onde o deixou mas isso não o impede de pensar e, dado não estar consciente da doença de que padece, de acusar alguém de o ter roubado. O tempo dele não é o tempo real, mas o tempo que a sua memória lhe dá e tomando a sequência cronológica do surgimento das suas memórias como se fosse esse o tempo real. A peça mostra-nos também o drama vivido pela própria filha, que tem de construir a sua própria vida, que a obriga a afastar-se para longe do local onde o seu pai vive e não sabe como fazê-lo. O drama de pai e filha quando surge, muito tenuemente, a ideia do seu internamento numa instituição, que o pai teme que seja a vontade da filha mas não o explicita claramente para ela, e a filha não o diz claramente ao pai por a solução não ser, também para si, a desejada.
Enfim, poderíamos continuar a mostrar o que vimos no espectáculo, a descrever outras cenas que ilustram o labirinto que o autor nos apresenta, mas não queremos ser exaustivos, nem tirar a futuros espectadores o prazer da descoberta do conteúdo deste magnífico texto.
O próprio autor confessa: «É um prazer escrever uma coisa que desorienta as pessoas e é exactamente isso que eu gosto como espectador. Participar na acção, tentar perceber o que é que se passa e constatar mais uma vez que não se sabe nada. Com O PAI, tentei realmente fazer com que as pessoas sentissem a história a partir do interior da doença. No cinema, diríamos uma câmara subjectiva: fazer as pessoas sentir aquilo que a personagem pode estar a sentir, não ouvir falar de demência a partir de fora, mas de dentro. Pensei que só o teatro podia propor essa experiência.»
Mais palavras para quê? Corram ao Teatro Aberto e vejam o espectáculo. Acreditem, vale mesmo a pena!
Portela (de Sacavém), 2017-02-06
NOTAS
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Também romancista e dramaturga francesa, nascida em Paris, a 1 de Maio de 1959, portanto, 20 anos mais velha do que F. Zeller, traduzida em 35 línguas e muito premiada: Molière de l’ auteur -1987 e 1995-, Tony Award -1998 e 2009-, Laurence Olivier Award -1997 e 2009-, Grand prix du théâtre de l’ Academie française -2000-, e Prix Renaudot -2016 -, assim como outros prémios;
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Ver, nomeadamente, https://fr.wikipedia.org/wiki/Florian_Zeller;



Amar o Teatro é amar um mundo mágico e misterioso, feito de suor e muito trabalho, e muita paixão e devoção. Os atores são heróis. Encontram sempre resistências, mas não esmorcem, não desistem.
São habitados por uma missão civilizatória e criadora de beleza. Viva o Teatro!
abraço da
Rachel