A GALIZA COMO TAREFA – das velhas traduções – Ernesto V. Souza

Uma das cousas, para mim, que melhor demonstra o golpe de tópicos sobre as línguas é o tempo.

Há certas singularidades que manifestam esta passagem das décadas em forma de surpresas ou irritantes mistérios na leitura dos livros velhos. Por que é que muitos dos bons e mais constantes leitores e até estudiosos dos clássicos são estrangeiros? Por que alguns romances já há tempos esquecidos e até insucedidos ganham nova e interessante vida noutras latitudes? Por que os livros traduzidos no presente parecem sempre mais claros e melhores que os traduzidos há décadas?

Já sabemos que os livros na própria língua vão-se fazendo opacos com a passagem das épocas e dos estilos. E intuímos que a crescente hostilidade ou aborrecimento que provocam nos escolares obrigados à sua leitura é proporcional à distância entre o livro e cada presente.

Porém, isto não parece sempre tão evidente, porque as mudanças vão acontecendo às caladas, mas não se manifestam senão aos saltos, que, mais que cronológicos, são geracionais. A gente está segura nos estilos que leu e aprendeu na sua infância e adolescência, que por sua vez eram clássicos, e por isso os incorpora nos estilos próprios do seu tempo. Não deixa de ter a sua relevância constatar que a distância entre livros dos anos 70, 60 e 50 do século XX é maior a respeito dos escolares leitores que a respeito dos leitores docentes, o que explica não poucos desencontros históricos.

Mas, não se trata – ou não estamos a falar – apenas de rejeição a conteúdos, costumes, modos e estilos antepassados, nem desses livros raríssimos, difíceis de procurar, e impossíveis de encontrar nas librarias e bibliotecas, que apaixonam os eruditos. Senão do muito que a língua neles vai tornando-se distante e alheia.

Este fenómeno evolutivo podemos testá-lo nas traduções de um mesmo livro em várias épocas. Contrastando as velhas com as novas que é cousa bem objetiva e fácil de fazer nas de clássicos estrangeiros, nesses livros ainda em uso escolar ou circulantes ou entre esses best-seller de longa distância, que podemos encontrar uma e outra vez de novo popularmente editados.

Salvo para os raros devoradores omnívoros de belos textos, que afeitos à leitura, procuram elementos, palavras, toques, modismos e conexões epocais e culturais para além da compreensão do conteúdo; quando a gente lê uma tradução dos anos 50, 40, 30, 20 do século XX ou uma tradução feita no século XIX daquele texto que já leu mais moderno, leva uma surpresa. A mesma que acontece quando tratam de ler um texto desses anos numa edição original.

A maior parte dos leitores concorda, sem que normalmente consiga explicar este mistério: por muito que saibam que um livro está na sua própria língua, uma vez que o livro é velho, não termina de o parecer, não está bem traduzido: há elementos estranhos ou suspeitos a cada pouco.

Regionalismos, outras variantes da língua, arcaísmos, usos antiquados, ou culpa dos tradutores – quanta culpa não terão levado esses traidores imitadores dos latinos, dos franceses, dos russos, que invadem tudo; ou das modas anglicistas, afrancesadas, ou – arrenego-te demo  – acastelhanadas.

Poderíamos suspeitar que os tradutores não apenas traduzem, com mais ou menos competência, talento e filigrana, senão que adaptam os modos, dispõem a sintaxe, ajustam as preposições, as palavras para o leitor e o tempo de hoje: em realidade produzem textos de novo para ser digeridos pelos contemporâneos.

Os estrangeiros, somos caso à parte, lemos tudo numa relativamente feliz ignorância da língua presente e dos estilos à moda, acreditando na existência de uma Língua e misturando nela tudo quanto cai dentro da nossa rede. Por isso quanto a produtores, por vezes os resultados são deliciosamente gloriosos, mas o mais comum é os nativos desculparem as nossas desajeitadas combinações. Agora, como leitores de clássicos, antigos, ultra-modernos ou autores regionais, carentes como andamos de preconceito e de barreiras, muitas vezes somos imbatíveis.

Apenas os eruditos, os antiquários, ou os leitores treinados e afeitos à leitura sem época, são capazes de desfrutarem, bebendo com naturalidade nestas fontes velhas. Porque as línguas, até as sérias, mudam com os tempos que é uma barbaridade.

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