UMA CARTA DO PORTO – Por José Magalhães (168)

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JANTAR LITERÁRIO

NA FOZ DO DOURO, PORTO

 

– CAMILO, EÇA e RAMALHO VIERAM JANTAR CONNOSCO –

ACONTECEU no DIA 3 de FEVEREIRO, na TASCA DO BAIRRO

Por iniciativa da Associação Cultural “O PROGRESSO DA FOZ” e da “FOZ LITERÁRIA”, realizou-se, na passada sexta-feira, mais um jantar literário excelentemente dirigido pelo nosso Director Dr José Valle de Figueiredo.

Desta vez, Camilo Castelo Branco, Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão fizeram-nos companhia. Os convivas, limitados a quarenta e dois por decisão da organização e condições do espaço escolhido, fizeram inveja a todos os outros, quase tantos quantos os comensais, que se viram impedidos de estar presentes.

A Tasca do Bairro é hoje um espaço emblemático que à Foz pertence, fazendo as delícias de quem tem o prazer de poder lá ir degustar as iguarias normalmente apresentadas. O atendimento é excelente e o comando de Jorge Costa e Bárbara Guedes exímio.

Não sei se já disse, mas a Tasca do Bairro fica, agora em novas e mais aprazíveis instalações, na Rua de São Bartolomeu, nº 20, numa rua sossegada que fica entre a Rua Senhora da Luz e o mar, e onde às Terças à noite há Fado. Se não tiver dito ainda, fica aqui o apontamento.

Mas voltemos ao nosso Jantar.

O “caldo de galinha com fígado e moela”, que nos trouxe Eça de Queiroz (A Cidade e as Serras – 1901), estava digno de uma entrada de um jantar que se adivinhava soberbo. Uma delícia de sabor, perfume e textura. Preparou-nos o estômago para o prato principal que, após um brevíssimo descanso, nos foi lautamente servido.

Chegou, então, Camilo Castelo Branco, trazendo com ele um esplêndido arroz de pato (Folhas Caídas, Apanhadas na Lama – 1854), suculento, macio, com um odor magnífico, que a todos fez tecer louas aos bichinhos que tinham sido sacrificados para nosso deleite.

A acompanhar, o Vinho de Tormes, um delicado verde que fez realçar os sabores e os cheiros, elevando até ao limite do possível o prazer que cada um de nós experimentava.

Um compasso de espera enquanto as mesas iam ficando vazias de pratos e talheres e descansávamos para receber condignamente Ramalho.

Foi o momento escolhido, e muito bem, para ouvirmos José Valle de Figueiredo. É uma delícia ouvi-lo em qualquer altura, mas ainda mais nestas em que “o seu improviso foi cuidadosamente preparado” (palavras do próprio). No final desta crónica transcrevo o discurso que tivemos o privilégio de ouvir e que vos convido a ler.

E eis que chegou Ramalho Ortigão e mais o seu Pudim de Pão com Passas (As Praias de Portugal – 1876). Leve, de delicioso aspecto e sabor a condizer, recheado de passas quanto baste. Um deleite para os sentidos.

Com o café, uma surpresa. Tomaz Ribeiro (Parada de Gonta, Tondela, 1831-1901) que lamentavelmente não pôde estar presente no convívio, envia, como digestivo, saudando todos os presentes, uma macia e excelente aguardente – bagaceira e convidou-nos a brindar ao nosso “Portugal, jardim da Europa à beira-mar plantado”.

Depois, a festa acabou. Dela viemos mais ricos e fisicamente confortados.

O “O Progresso da Foz” e a “Foz Literária” vão regressar com outro Jantar Literário, de novo na Tasca do Bairro, a 31 de Março. Dessa vez será Júlio Diniz quem virá jantar connosco.

Até lá.

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Palavras ditas no “Jantar Literário” de 3 de Fevereiro

Em circunstâncias como esta que nos reuniu aqui, procuro sempre esquivar-me a dizer o que quer que seja, entendendo que as palavras só poderão atrapalhar o sentido dos Sabores que nos convocaram.

Mas, enfim: alguns Amigos do peito tanto insistiram que deveria haver uma oração, que cedi, e pus-me a caminho, a preparar cuidadosamente um “improviso”…

Por onde deveria começar?

Como nestas coisas sempre há “gato”(salvo seja), porque não ir buscar, precisamente, ”OS GATOS” de Fialho de Almeida, que já havia trazido para a pagela com a ementa que vos distribuímos?

Cheios de razão, eis que trazem a mensagem que andamos tão precisados de ouvir. Com as suas palavras, principiemos, então, o andamento:

“Isto é gravíssimo! A desnacionalização da cozinha é, para mim, talvez primeiro que a dos sentimentos e das ideias, revelada pela vida pública, o primeiro avanço indicativo da derrocada dos povos.

A coesão étnica de uma raça revela-se, principalmente, por três coisas: Literatura, História, Comezainas – romances e poemas líricos dando o carácter lírico e afectivo; História dando o carácter heróico: finalmente, os pratos nacionais, dando o carácter físico. Este último, como se sabe, impulsionando os outros dois”.

Como que a modos, diria expeditamente, como se entendêssemos que a “FOZ LITERÁRIA” devesse procurar andar, sempre que pudesse, a par da “FOZ CULINÁRIA”, ou “FOZ GASTRONÓMICA”, se não quiséssemos rimar…

Saberes sim, mas com Sabores a temperar o que é ou deve ser sabido…

Bem: a verdade é que vimos de longada até chegar aqui.

Na companhia de Camilo, de Eça, de Ramalho Ortigão, é verdade, mas também com mais de uma vintena de Escritores, trazidos quase página a página, tantos são os que deitaram ferro aqui mesmo na nossa geografia.

Tudo começou com o nosso Camilo. Ora vejamos rapidamente como foi:

Ocorrendo os 150 anos da publicação do “AMOR DE PERDIÇÃO”, propusemos a uns quantos Amigos celebrar a efeméride com uma série de iniciativas a ter lugar no Porto, em Viseu, na Beira.

Resultaram várias realizações, contando-se, entre elas, um colóquio em Viseu, várias conferências no Porto, Tondela, Castro Daire; a erecção de uma escultura evocativa(da autoria de Francisco Simões) no largo que passou a chamar-se do “Amor de Perdição”(junto à Cadeia da Relação); “edição” de um Dão “Amor de Perdição”, pela Quinta de Cabriz, e de um número especial do jornal “AS ARTES ENTRE AS LETRAS”…

Resultou, também, no fundo, o princípio de um processo que nos trouxe até aqui: no passeio às terras beirãs – às minhas terras beirãs – ia o então Presidente do Instituto Cultural D. António Ferreira Gomes – Prof. Dr. Levi Guerra – que nos convidou a ir à Instituição encetar  umas “conversas” à volta do que poderiam ser vários “roteiros literários”, à semelhança do que acabávamos de fazer, inspirado na obra de Camilo Castelo Branco.

Assim o fiz, escolhendo para o “desenho” dos “lugares da Escrita” a atrevida designação de “Geografia Literária”.

Falar de Autores e dos Lugares onde nasceram, onde viveram ou sobre eles escreveram – eis o propósito que nos animou.

Estando nós na Foz, procuraríamos, naturalmente, saber quem por aqui teria passado, aqui teria nascido, vivido ou sobre a Foz tivesse escrito.

Aí estava lançada a FOZ LITERÁRIA. Viemos de longada, e fomos entretecer a teia dos que nos foram escrevendo, por aqui andaram, neste lugar se declamaram e apalavraram.

Efectivamente – como escreveríamos, entretanto, num texto dedicado a Ramalho Ortigão, por ocasião do seu centenário – as palavras acabaram por conquistar vida própria – tornando-se como que afluentes de um rio que não cessou de nos correr. Quer dizer: chegaram à Foz, e aqui se tornaram companhia nossa para sabermos mais de nós próprios e de quanto devemos a vida a tantas e tantas páginas que também nos escreveram.

Como “Foz Literária” têm navegado e têm descoberto quantos de nós dela se acercaram um dia, dando testemunho, prestando serviço, consignando grandeza e altitude.

Estávamos nós neste andamento, quando surgiu o pensamento de que tudo isto era muito bonito, mas não podemos, de modo nenhum, ficar pelas literatices encasuladas. Tínhamos de sair, rasgar caminhos, fazer pontes, aprender com outros, ressuscitar memórias, tecer cumplicidades, até, numa abertura de espírito que só poderia valorizar-nos, e valorizar o entorno em que nos situávamos e nos situamos.

Com Camilo à nossa beira, lembrámo-nos que uma D. Aldonça porfiava uns bifes de cebolada no meio dos seus atavios sentimentais no Hotel da Boa Vista.

Fomos procurá-la e encontrámo-la refastelada no hotel. Num instante, aí apalavrámos um almoço…

Bendito almoço, esse, pois tivemos a dita de vir a colher, por sua via, o empenho da União de Freguesias a que a Foz pertence – nas pessoas do Dr. Nuno Ortigão e da Dra. Maria Lacerda – abrindo caminho para um muito frutuoso entendimento – e cumplicidade, porque não? – que nos trouxe até aqui.

Entrávamos pelo Castelo dentro, fizemos conferências, assinalámos efemérides, celebrámos Autores e Obras, organizámos exposições, conhecemos o extraordinário trabalho do “Progresso da Foz” e da sua devotadíssima equipa, sentámo-nos à mesa algumas vezes, na evocação de hotéis “literários” – com Camilo e Eça – daqui resultando um passo mais na nossa geografia.

E oferecemo-nos o privilégio de estar hoje aqui, num local que é bem o sinal da Comunidade de que se entretece a Foz. Mais a mais, tendo em frente o que para mim – pelo menos – é um lugar de peregrino, a casa onde esteve e faleceu o grande Poeta que foi Fr. Bernardo de Vasconcelos, hoje bastante esquecido mas que em breve subirá aos altares.

Aqui chegados, permitam-se-me ainda, duas palavras para assinalar a presença entre nós, do Professor António Cunha e Silva – Figura incontornável da Cultura Portuguesa, Presidente do Orfeão de Matosinhos, a cujo centenário, agora a celebrar-se, nos associamos vivamente – e do Senhor Luís Sá, um dos mais activos e empenhados Expoentes da iniciativa da “Geografia Cultural da Parada de Gonta”(Tondela), onde se insere a sempre presente Memória do grande Estadista e Poeta Tomás Ribeiro, hoje trazida até nós, pelos seus cuidados.

Vai longa a nossa jornada. Mas não a queremos terminar sem avocar o testemunho de Quem bem se pode juntar a nós nesta mesa, sentando-se na galeria dos nossos extremosos Companheiros de Viagem (Camilo, Eça ,Ramalho, Tomás Ribeiro): Luís de Magalhães, acompanhado pelo seu e nosso Amigo, o ditoso “Brasileiro Soares”, que vamos surpreender a almoçar na sua Quinta do Mosteiro, na Maia -na “Quinta de Refaldes” – sim, essa mesma, que Fradique Mendes exaltava na sua carta a Madame de Jouarre:

“Houve um momento de silêncio – essa concentração exclusiva do homem esfomeado em frente do sue prato. Sentia-se o tinir dos talheres, a deglutição ruidosa desses comilões grosseiros e o murmúrio dormente da água, pondo no ar uma nota de frescura. Mas gradualmente a conversa reanimou-se. Entrou a circular o vinho verde. Os grandes copázios esvaziavam-se deixando nódoas arrubinadas nos beiços dos homens. Vinham as travessas fumegantes, com um cheiro forte a espécies e a estrugidos. Os pratos eram saudados com aclamações joviais que o vinho excitava. Soares, já muito animado, exigia que o deixassem trinchar; e atulhava os pratos de um modo brutal, que chocava o administrador.

– Coma-lhe e beba-lhe – dizia o Médico com autoridade.

– É cá a minha receita…

E voraz, insaciável, embuchava-se de arroz e de grandes nacos de toucinho muito branco, que tremiam gordorosamente nos dentes do garfo.

O Cura e o Abade, esses comiam em silêncio, mortos de fome pelo longo jejum. Soares exprobou-lhes o mutismo.

– Ó Reverendos, isso, então, é só dar aos queixos?

 – Regra do frade, amigo Soares! – respondeu o Cura.

– Ou bem que se fala ou bem que se come…

Mas quando se serviu o leitão é que a alegria chegou ao cúmulo. O Médico deteve a travessa no caminho e exclamou de modo solene: 

– Cá, essa autópsia, é comigo!…”

E é connosco, também…Essa – e outras que apareçam…

José Valle de Figueiredo




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ESTAS SÃO AS FRONTEIRAS PORTUGUESAS

E NO ENTANTO SOMOS O QUE SE SABE EM RELAÇÃO ÀS PESCAS E FROTA MARÍTIMA, JÁ PARA NÃO FALAR NOS DIREITOS QUE TEMOS E QUE OUTROS USAM COMO SE DELES FOSSEM.

AS FRONTEIRAS DE PORTUGAL

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Escrevo e fotografo pelo imenso prazer que daí tiro

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