CRISE DA DEMOCRACIA, CRISE DA POLÍTICA, CRISE DA ECONOMIA: O OLHAR DE ALGUNS ANALISTAS NÃO NEOLIBERAIS – INTRODUÇÃO A UMA SÉRIE DE TEXTOS (4ª PARTE), por JÚLIO MARQUES MOTA

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 Júlio Marques Mota

(CONCLUSÃO)

E por fim vejamos o último ponto:  E a esquerda oficial americana, terá ela tirado as ilações devidas `com a derrota eleitoral sofrida?

 Aqui já escrevemos muito sobre o assunto, pelo que vamos mudar o ângulo de análise da situação. O Partido Democrata delegou no seu chefe a sua estratégia eleitoral. Que faz então Obama?

Quando o antigo presidente Barack Obama disse que estava “sensibilizado” pelos protestos anti Trump, ele estava a enviar uma mensagem de aprovação aos seus fiéis seguidores, às suas tropas. Tropas? Sim, Obama tem um exército de agitadores — cerca de 30.000 — que lutarão contra o seu sucessor republicano diariamente e ao longo da sua Presidência histórica. E Obama vai comandá-los a partir de um bunker situado a menos de duas milhas da Casa Branca.

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Legenda: former President Obama spoke out against President Trump’s policies Monday and said he was “heartened” by the level of protests against them

No que é que se está a tornar uma pós-presidência altamente fora do vulgar, é que Obama não vai apenas ficar por detrás de Washington. Ele está a trabalhar nos bastidores para configurar o que será efetivamente um governo sombra não só para proteger o seu legado ameaçado, mas para sabotar a nova Administração e a sua popular agenda “America First”.

Ele está a fazê-lo através de uma rede de organizações de esquerda sem fins lucrativos encabeçada por Organizing for Action. Normalmente, esperar-se-ia que se crie uma organização para apoiar um político e a sua agenda até ao fim do mandato, quando o candidato abandona as instalações governamentais mas nunca uma Organizing for Action de Obama. Mais, Obama está-se a preparar para a batalha, com um tesouro de guerra crescente e mais de 250 sedes em todo o país.

Desde a eleição do Donald Trump, este braço de contestação pouco conhecido mas bem financiado tem reforçado o seu pessoal com o aumento do recrutamento de jovens ativistas liberais, que declaram no seu sítio: “nós estamos, nós não voltamos atrás.” Determinados a salvar o legado do Obama, estão a dirigir as suas linhas de ataque sobre as questões da imigração, ObamaCare, relações raciais e as mudanças climáticas.

Funcionando a partir dos seus assessores e daqueles que trabalharam na anterior campanha de Obama, os registos federais mostram que a OFA mobiliza cerca de 32.525 voluntários “apartidários” por todo o país. Registado como um 501 (c) (4), não tem que divulgar quem são os seus doadores, mas estes foram generosos. A OFA recolheu já mais de US $ 40 milhões em contribuições e subsídios desde que evoluiu de organização da campanha presidencial de Obama intitulada “Obama for America” para a organização intitulada “Organizing for Action” em 2013.

A organização OFA, na sua documentação do IRS declara que forma jovens ativistas para desenvolverem ” capacidades de organização.” Dispondo de uma boa base de dados da campanha de 2012 de Obama, OFA planeia apoiar as candidaturas dos democratas que se estão a preparar para reconquistar o Congresso e erguer um muro de resistência a Trump a partir do outro extremo da Avenida Pensilvânia.

Obama vai pairar como uma sombra sobre a Casa Branca uma vez que trabalha a duas milhas da Casa Branca. Dispõe de uma verdadeira mansão, enriquecida com a construção de um muro alto em tijolo em toda a sua volta e um seu vizinho financiou o gabinete de Obama com o seu próprio chefe do pessoal e com o seu secretariado para a imprensa. Michelle Obama irá igualmente dispor de um gabinete para além de estar na fundação Obama.

Barack Obama de 55 anos de idade não se contenta em ir tranquilamente para casa como outros ex-presidentes.

 “Ver-nos-emos no início do próximo ano,” disse às suas tropas de OFA após a eleição presidencial, “e nós caminharemos para uma posição onde nos será possível começar a preparar grandes projetos.”

E acrescentou o ex-presidente: “A questão é que eu continuo vivamente e pronto para recomeçar.”

Num dos manuais de apoio às “tropas” de Obama, pode-se ler:

Os autores deste guia são antigos funcionários do Congresso que testemunharam a ascensão do Tea Party. Vimos esses ativistas assumir uma postura de forte violência para com um Presidente popular, com um mandato para a mudança e para uma maioria absoluta no Congresso. Nós vimo-los organizarem-se localmente e a convencerem os seus próprios membros na Câmara dos Representantes para rejeitarem a agenda do Presidente Obama. As suas ideias eram erradas, cruéis, cheias de racismo — e eles ganharam.

Nós acreditamos que proteger os nossos valores, os nossos bairros e nós mesmos exigirá uma resistência semelhante à que foi montada com a agenda de Trump— mas uma resistência construída sobre os valores de inclusão, tolerância e justiça. Trump não é popular. Ele não tem um mandato. Ele não tem grande maioria no Congresso. Se uma pequena minoria como o Tea Party pode bloquear o Presidente Obama, então nós, a maioria, poderemos parar um tirano chamado Trump”

Em: INDIVISIBLE – A PRACTICAL GUIDE FOR RESISTING THE TRUMP AGENDA

Sobre a nova postura do partido democrata, vejamos o que nos diz o Washington Post:

“Passadas três semanas depois da tomada de posse do Presidente Trump, o partido Democrata e o establishment progressista adotaram quase inteiramente as exigências de uma base rebelde, ativa e agressiva. Eles estão cheios de esperança de que o seu novo ativismo se assemelhe mais ao Movimento Tea Party, que se assumiu desde o princípio como movimento político, do que ao movimento Occupy Wall Street que assim não fez.

O ritmo dos ativistas e a abordagem da fuga para a frente da Administração Trump, deram-lhes pouco tempo para equacionarem as formas de oposição.

“Trump tem uma estratégia para fazer muita coisa, mais ainda do que a oposição”, disse o governador John Hickenlooper (D-Colo.) sobre Trump, ” [mas] ele está a criar o maior movimento de oposição que já vi na minha vida nos Estados Unidos.

Boicotes e indignação, a nova normalidade no Capitólio?

“Nós perdemos. Agora lutamos, “escreveu o senador Chris Murphy Murphy (D-Conn) num tweet “Não há nada que seja inevitável. O medo ou a ansiedade pode-se ultrapassar pela ação política.”

É menos claro porém saber como é que os Democratas irão converter a ação política em resultados eleitorais. Muito tem sido dito sobre as falhas de 2016 — entre elas está a crença de que bastava difamar e atacar agressivamente Trump e a ausência de uma mensagem econômica coerente.

Mesmo ainda agora e a todos os níveis da política nacional, a discussão no Partido Democrata sobre como é que pode voltar a ganhar os eleitores que perdeu é minimizada pelo argumento de que o fundamental é saber como se deve organizar a oposição a Trump. A resposta é sempre a mesma: tanto quanto possível. E no momento presente, parece estar uma enorme massa de novos ativistas. Na corrida para Presidente do Comitê Nacional Democrata, mesmo Thomas Perez, o antigo Secretário do trabalho de Obama, olhado com algum ceticismo por alguns apoiantes do senador Bernie Sanders (I-VT.), afirmou que os democratas devem matraquear Trump “entre” os olhos e tratá-lo como Mitch McConnell tratou Barack Obama.

Obama ao nível dos rufias do Tea Party, o Partido Democrata dominado pela obsessão em vez de o estar pela reflexão. Impensável. No fundo, continua-se a acreditar que a votação em Trump foi um engano, pura e simplesmente isso. Da mesma maneira que Jorge Coelho diz que a questão da Caixa é apenas um processo que correu mal, nada mais que isso. Com este comportamento, os democratas, os fiéis de Obama sobretudo, evitam-se questionar porque é que a votação foi assim, porque é que afinal tanta gente se terá enganado. Evitando a pergunta, segue-se então em frente na defesa do legado de Obama. É assim a nova luta de Obama em Organizing for America e também através das redes conexas. E financiamento parece não faltar.

Estes três apontamentos, sobre a esquerda oficial em Portugal, França e nos Estados Unidos levam-nos pessoalmente a pensar que esquerda oficial é coisa que não existe. E quanto à esquerda real, classificada agora toda ela de radical, no plano dos factos e do poder espera-se por melhores dias, espera-se pelas sementes já semeadas por políticos como Bernie Sanders, Jeremy Corbyn, Oskar Lafontaine, pelo exemplo da Islândia, espera-se ainda pelos frutos derivados da difusão do trabalho dos intelectuais que nunca se vergaram ao peso do pensamento dominante e que por ele nunca se deixaram comprar. É o trabalho de alguns destes intelectuais que temos a satisfação de estar a divulgar através da publicação da presente série.

Todos estes pontos nos mostram que os rastilhos e as bombas capazes de gerar verdadeiros desastres à escala nacional, regional ou mesmo mundial existem e estão dispersos por todo o lado. Procurá-los, neutraliza-los, desativá-los é hoje um trabalho de cidadania imenso, possivelmente de gerações, um dos trabalhos de Hércules dos tempos modernos em que todos nos devemos empenhar. Entender, esclarecer e vencer depois, pela força da convicção e da argumentação nas urnas de voto, as forças que os geram e espalham já prontos a explodir é então dever de todos nós. É pois nesta base que se edita esta série de textos intitulada :

Crise da democracia, crise da Política, Crise da Economia: o olhar de alguns analistas não neoliberais

Uma série de textos:

  1. Wilheim Lautenbach, Fundamentos da Teoria Económica

  1. Heiner Flassbeck, Paradoxos em macroeconomia e a moderna economia política -A contribuição de Wolfgang Stützels para uma economia racional

  1. Domenico Mario NUTI– As falhas sísmicas na União Europeia

  1. Heiner Flassbeck e Costas Lapavitsas, A confusão não é resposta à ortodoxia económica. O debate sobre a moderação salarial alemã

  1. Heiner Flassbeck, Profunda Depressão em Itália dá à Alemanha uma Vantagem Absoluta

  1. Jean-Luc Gréau Contra o neoliberalismo

  1. Jean-Luc Gréau, Porque é que a bolsa americana sobe, sobe, sobe

  1. Michael Pettis, O impacto na China e no estrangeiro do abrandamento do crescimento

  1. Bill Mitchell, O mercado de trabalho americano a degradar-se: as perdas da grande crise financeira terão uma longa vida

  1. Peter Mertens, Treize thèses sur le Diktat de Bruxelles, la Grèce et l’avenir de l’Europe

  1. Bill Mitchell, A neoliberal colónia grega dá mais um passo atrás

  1. Heiner Flassbeck, Análise do ciclo económico da economia europeia no verão de 2016

  1. Michael Pettis, China: Optar por mais Dívida, por mais Desemprego, ou em vez disso por Transferências de Rendimentos

  1. Egon Neuthinger Reflexões sobre a economia alemã. Uma abordagem macroeconómica. -5 artigos

  1. Bill Mitchell, O mercado de trabalho Americano a degradar-se: os prejuizos da grande crise financeira tem ainda uma longa vida pela frente

  1. Bill Mitchell, A Europa, um “castelo de cartas” em colapso

  1. Um trabalho de Finance Watch, Uma oportunidade falhada de restabelecer a finança não-criativa, a finança segura, a finança sã- uma análise sobre a Iniciativa de Financiamento a Longo Prazo da União Europeia

________

Para ler a Parte 3 desta introdução de Júlio Marques Mota, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, clique em:

https://aviagemdosargonautas.net/2017/03/04/crise-da-democracia-crise-da-politica-crise-da-economia-o-olhar-de-alguns-analistas-nao-neoliberais-introducao-a-uma-serie-de-textos-3a-parte-por-julio-marques-mota/

About joaompmachado

Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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