CONTOS & CRÓNICAS – AS MEMÓRIAS DO CINEMA OLYMPIA – uma crónica revivalista, de CARLOS REIS

contos2 (2)

 

5-a

 

O Jazz dançado dos anos 40, aqui com o Glenn Miller, num excerto de um filme ultra-piroso com uma actor super-hiper-ultra-piroso chamado John Payne. Tão realmente pires e canastrão que se percebe logo que está a fingir que toca piano

E como é que eu sei estas coisas? E estes nomes?

Porque frequentei o Cinema Olympia, ora essa, onde me apresentaram os piores filmes e os piores actores do mundo, como por exemplo este, espécie de John Wayne da Rua dos Condes.

E não podemos nunca esquecer que foi lá, de uma infecta cadeira onde mal se cabia (e tinha de ser guardada e garantida como propriedade privada com um lenço nela atado, ao intervalo) que conhecemos e inefável, o heróico, o indizível e brioso Ronald Reagan, um dos (realmente) piores actores do mundo, com toneladas de brilhantina por filme.

Sabiam disto? Os (e “as”, sobretudo “as”) que jamais frequentaram tão infeccioso quanto lisboeta local, naturalmente que por questões de género ou de pedigree.

Ou ambas.

E o Jeff Chandler? E o Ray Danton? E o Ted de Corsia? E o Rory Calhoun e o John McIntire, entre tantos outros

Todos eles existiram, foram cowboys (ou mesmo índios) a tempo inteiro e tenho a certeza que alguns de vós se lembrariam dos seus trombis, se os lobrigassem por aí, algures. Na net ou mesmo em programas de Cinema antigos.

Tudo actores de segunda (ou de terceira) que sempre encontraram trabalho no Cinema Olympia, felizmente para eles, insuperáveis canastrões de boa estirpe. Alguns conseguiriam mesmo e de vez em quando, lugares no Condes e no S. Jorge, em papeis ultra-secundários, pobres proletários do Cinema americano.

Uma das qualidades do também excelente Victor Mature, por exemplo (este mais Cinema S. Jorge, este mais Cinema Condes, antepassado remoto do Sylvester Stallone e com o mesmo ar inteligente) consistia em ter e manter sempre a mesma (in)expressão, fosse qual fosse o papel representado, a emoção pretendida, estivesse ele triste ou feliz.

Isto, sim, era koltura, mes amis –  lembro-me eu lá de todos os reis da Segunda e Terceira Dinastia e outras inutilidades…

Às vezes ficávamos até ao fim dos filmes, outra vezes saíamos a meio, quando chegava àquela parte em que tínhamos entrado.

Ganda gozo…

E o Jardim Cinema (vergas). E o Europa? E o Paris, o Liz e o Rex? Dormia e vivia neles épocas inteiras. Tive até uma tia que nos arranjava borlas no Jardim Cinema, onde havia lugares em pé (!) e um balcão de lado com uma única fila de cadeiras, atrás umas das outras, viradas a uns 15º para o ecran.

O Olympia (tal como os Cafés, nos princípios do anterior século) não podia ser frequentado por mulheres. Não só pela essência moralista das respectivas épocas, mas também porque a frequência do cinema –  devo dizê-lo –  era um bocado perigosa. Havia de tudo, naquele lúmpen: bêbados, carteiristas, homossexuais de baixa extracção, mau cheiro, maus hálitos, uma gordura permanente e suada, na atmosfera. E com direito a copos de água a dois tostões e rochas (uns bolos horríveis feitos de pelo de arame, pregos e ferro fundido) a um escudo, ao intervalo.

E havia nós. Os intelectuais, os jovens estudantes curiosos, cinéfilos ou pré-cinéfilos, a faltarem às aulas ou a conseguirem um furo. O Olympia começava às duas horas da tarde e ia até à meia noite, sessões sempre contínuas – um hábito não muito comum em Portugal, ao contrário de outros países. E eram sempre filmes americanos. Só comecei a ver Cinema europeu, mais crescidinho, no S. Jorge, Monumental, Eden, Tivoli.

Lembro-me ainda que, estranhamente e às vezes, saia-se do Politeama pelas portas do Olympia, o que me fazia uma certa infantil confusão, um mistério para mim, na altura.

De categoria e classe semelhantes (mas sem o mesmo galmour, nem a mesma pertinência) ainda havia por debaixo do Eden um outro, o Chant Éclair (também conhecido por Cinema Galo ou Cine-Restauradores) e no Martim Moniz o Salão Lisboa (Piolho) – todos eles muito mal frequentados e muito mal cheirosos. Havia gajos que iam dormir para o Galo, que era um perfeito corredor com alguns cem metros de comprido e preços de 5$00, 3$60 e 2$50. Era nesta última secção (a mais longínqua do ecran) que eles ressonavam sossegadamente por horas e horas.

Soube mesmo de um tipo no nosso género intelectual, que levava para o Piolho um aspersor de perfume e ia borrifando a perigosa atmosfera enquanto decorria o filme Hoje, sendo um armazém qualquer de fazendas, ainda lá persiste, no topo das portas, o nome do Cinema – Salão Lisboa. Para que conste.

Convém esclarecer.

O Olympia só se transformou em Cinema pornográfico algum tempo depois do 25 de Abril, numa perfeita decadência, culpa da revolução e dos comunistas, é evidente. Porque até lá era absolutamente honesto, sóbrio e funcional, no seu saudoso processar de filmes: cowboyadas e filmes policiais – eram os “filmes de acção” da época, uma terminologia ainda não inventada. Chamava-se-lhes simplesmente “Filmes de porrada”, designação inteligente, própria de gente culta e civilizada.

Carlos

http://www.30sjazz.com/page/6015.html

 

About joaompmachado

Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: