O MAPA (A saga do anadel/79) . por Carlos Loures

Veneza, fim de tarde de segunda-feira, 30 de Setembro de 1487.

 

As sombras acentuavam-se no interior da tenda de Saul Navarro. O livreiro estava a fazer a limpeza de uma velha versão iluminada do Talmude de Jerusalém, uma súmula ou breviário dos ensinamentos da crença judaica. Sob o paciente trabalho de uma trincha seca que ia retirando os grãos de poeira acumulados, seguido de uma leve passagem com um pano humedecido primeiro em água e depois numa emulsão cujo segredo Navarro não partilhava com ninguém, as cores originais das páginas iam surgindo, quase restituídas ao seu esplendor original. Absorvido pelo seu trabalho, ouviu sem dar importância a campainha da porta retinir no aviso de que alguém entrara. Voltou-se e viu um jovem moreno e franzino, bem trajado, usando cores escuras. «Um inquisidor», diagnosticou Navarro, quando a sua observação do recém-chegado deparou, sob as abas do capeirão negro, com uns olhos escuros, perfurantes, onde brilhando a fé, não havia sequer a sombra de uma ideia piedosa. Enquanto o observava, sem deixar de o fitar, o livreiro meteu um pedaço de papel entre as páginas do Talmude e colocou o breviário sobre a mesa. A cabeça do visitante curvou-se numa breve vénia. Um sorriso que a outros pareceria tímido e educado, mas que Navarro logo classificou como sinistro. Voz bem timbrada, amável:

         – Trago aqui um livro para lhe vender. Oxalá esteja interessado – anunciou o jovem abrindo uma sacola. Falara em português, embora com um acento estrangeiro que Navarro não logrou identificar – castelhano? ítalo? aragonês? Pegou no volume que o jovem lhe estendia. Emitiu um assobio de apreciação:

         – O Sefer ha-Zohar, «O Livro do Esplendor», escrito pelo grande Rabi Shimon bar Yochai – Naturalmente que estou interessado. Tudo depende do preço – Navarro simulou estar deslumbrado, mas cada vez ia ficando mais preocupado e atento:

         – Foi a minha mãe que mo ofereceu – respondeu o jovem com uma voz compungida.

         – E mesmo assim quer desfazer-se dele? – Continuou a manusear cuidadosamente o livro.

         – Os tempos difíceis assim o obrigam.

         – É verdade, é verdade, vivemos tempos difíceis – concordou. Mas Saul não estava convencido. Aquele moço não era um filho de Israel: – Vossa mercê veio de Portugal? Voltou-se para a mesa para analisar melhor o livro. Na verdade, era um bonito exemplar:

         – Passei por Portugal, mas vim de Castela, foi lá que nasci – Navarro fez um gesto de assentimento. A campainha da porta voltou a tilintar. Saul que pusera a armação com as lentes sobre o nariz, voltou a cabeça.

         – São uns amigos que me vêm ajudar a negociar – disse o jovem.  Dois homens fortes, corpulentos, haviam entretanto chegado junto do moço.

         – Agarrem-no bem – ordenou, agora em idioma toscano.

         Saul Navarro tentou agarrar uma faca de cortar papel, procurando defender-se, mas os sicários estavam junto dele e agarraram-lhe os braços, imobilizando-o com violência.

         O jovem aproximou-se. Pegou no Zohar e guardou-o na sacola. Falou de novo em toscano:

         – Está bem agarrado? – Perguntou. Os dois homens assentiram com um aceno de cabeça:

         – Vamos conversar, marrano – disse em português, enquanto que, com os dedos da mão direita, afagava o colar oculto por debaixo da camisa.

Na sua mão esquerda, como que por magia, surgira uma adaga.

Tal como as pessoas, as histórias começam antes de ter nascido, pois também elas têm um período de gestação. A que vos tenho estado a contar é a história de um mapa de que muitos falam e poucos viram. Das lutas, inquietações e mortes que provocou. E para que aqueles que tiveram a paciência de a ler até aqui compreendam o que se passou, tenho viajado no tempo, para diante e para trás. Tenho falado do mundo novo e da nova idade em que vivemos. Agora, passados todos estes anos, já sabemos qual o tamanho aproximado da Terra. Esse mapa secreto de que me tenho ocupado é um retrato do mundo, mais vasto, que habitamos e que não se restringe àquele de que as Escrituras nos falam e que se desenvolvia em torno do Mediterrâneo. Mas o tal mapa não foi desenhado agora, foi feito numa idade em que se queria impor como definitiva uma verdade que apenas começava a ser desvelada. É uma história ocorrida na fronteira entre duas idades, passada no fim da velha idade e no limiar da nova.

 Quando se transpõe um novo patamar da História, não há consciência do que está a acontecer às nossas pessoas e ao vasto mundo que as envolve. Até quando se produz a maior das mudanças, não parece sempre que tudo permanece imutável, o hoje igual a ontem? Como soi acontecer em todas as eras, os velhos e os amantes da imobilidade, condenam os novos costumes e a pressa com que hábitos de séculos são postos de parte. Os jovens e os adoradores de tudo o que é novo, exultam com o que surge de diferente sem curar de saber se é melhor ou pior do que aquilo que se vai sumindo na bruma do tempo, no nevoeiro da memória. E tantas vezes o que parece novo, mais não é do que uma hábil maneira de perpetuar o que é velho. É um aparente renovo contínuo que apenas serve para recuperar coisas que já muitas eras atrás foram novidade e que, escovadas e limpas da poeira, o voltam a ser. Não se diz que Gregos e Romanos foram tão longe quanto era possível ir e que não é sensato procurar inovar o que tais povos criaram? Por isso, nós, os mortais comuns, não nos apercebemos das fracturas que se produzem na História. Tão habituados estamos a que as coisas insignificantes se modifiquem que, quando muda o que é importante, de tal não nos apercebemos. Este permanente renovo reproduz os ciclos vitais da natureza. Não servem os cadáveres de estrume para a terra onde florescem plantas que vão dar lugar a carne e a leite e, por seu turno, não estimulam as flores apodrecidas o nascimento das novas flores?

Compreender as mudanças que se estão a produzir no mundo e nas mentes é uma das minhas preocupações. E estou confuso. É trabalho difícil o de entender como e por que motivos mudam as coisas e, sobretudo, quando mudam. Assinalar o momento, o século, o ano, o dia, o facto que marca o início de uma nova idade, é trabalho para filósofos, cronistas… Gente dessa, que, mergulhada em códices, passa a vida a anunciar adventos e que quase sempre se engana. Terão os Persas, os Sumérios, os Egípcios, os Gregos, os Romanos, dado conta de quando começou o seu período áureo e de quando o declínio os conduziu ao olvido, deixando de ser história viva e passando a ser pasto de necrófagos? Penso que não. Nós, os que nos limitamos a viver a realidade que nos coube, não damos por essas mudanças. Não sabemos se vivemos esplendores ou declínios.

É trabalho que fica para sábios vindouros. Porém, é evidente que vivemos tempos novos. Quem diria há cem anos que o mundo era tão extenso e que aos senhores a quem prestávamos vassalagem, pagávamos impostos e tributos iriam ser suprimidas as mordomias? Que aos barões ignaros iriam suceder príncipes ilustrados? Quem diria que as naves que sulcam os oceanos e demandam novas ilhas e continentes, que víamos como meras transportadoras de pessoas e mercadorias entre lugares conhecidos iriam desempenhar na ciência, nas artes, no comércio, papel tão importante? Ninguém poderia adivinhar que tantas terras novas, tantos animais e plantas desconhecidos havia à face do mundo, tantas ilhas, mares e oceanos, quem sabe se até mesmo novos continentes? O Novo e o Velho Testamento, vade-mécuns de sapiência para tantas gerações, só nos falavam deste pequeno mundo – que julgávamos imenso – o que girava em torno do umbigo que é o Mediterrâneo. E a quem dissesse que havia mundo para lá das terras conhecidas, respondiam os sábios que assim não era. Quem se atrevesse a desmentir os livros sagrados, pecava e, muitas vezes, sofria as consequências na carne. Hoje, a Igreja é forçada a acertar o passo pelas coisas novas que no mundo vão surgindo e agora até os papas são talhados na carne dos príncipes. Veja-se Bórgia, o valenciano de quem se disse tanta coisa – intrigas, envenenamentos, incesto com sua filha… – sobre o barro de cuja carne pecadora se modelou o branco mármore da figura impoluta de Alexandre VI. Quem diria?

Assim são estes tempos, nos quais o homem serve de medida a tudo, até à divina vontade. Humanistas, se dizem os que assim pensam. Nós, as pessoas simples, não achamos diferença entre o que hoje se faz em relação ao que ontem se fazia. Preocupa-nos mais que o preço do moio de trigo seja, no Terreiro do Trigo, vendido a quatro mil réis e o alqueire atinja os sessenta e sete mil réis. Que os legumes, as castanhas, o pescado, a peixota, o marisco, as pipas de vinho, a fruta, a hortaliça, a caça e até a carne cozida e assada que se vende nas tavernas e as sardinhas assadas que se compram nas barracas dos mal-cozinhados, tenham subido tanto de preço. Nas tavernas não entro (por ser frade e porque não bebo – meu pai, meu avô e meu bisavô eram moderados bebedores. As famílias têm a sua quota de vinho e Bartolomeu gastou-a toda em seu proveito), mas ouço as queixas de quem por lá se adentra. E preocupam-me elas mais do que o tema do renovo, que é discussão antiga e gasta.

Parménides dizia que nada muda, que as mudanças são só aparentes. O ser é, ou seja, o ser é uno. Ao invés, Heraclito afirmava que o ser está em permanente devir e que nunca nos podemos banhar duas vezes no mesmo rio. Talvez ambos tivessem razão: tudo flui, não nos podemos banhar duas vezes no mesmo rio. Mas, atentai, se água estiver, mais ou menos à mesma temperatura e se o seu grau de limpidez for semelhante, quem notará a diferença? O renovo, embora exista, poderá muito bem ser muitas vezes irrelevante. Falo-vos, pois, num tempo novo, em que tantas maravilhas se produzem e que é também um tempo velho em que tantas ignomínias se continuam a praticar. Por vezes, tenho misturado a crónica familiar com a do mundo, que é como quem diz, a história da barca com a de alguns dos seus humildes tripulantes. E fui atando nós. Chegou agora o momento de os ir desatando.

 

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