O MAPA (A saga do anadel/82 – por Carlos Loures

Quando, em 1481, el-rei D. João subiu ao trono, a gesta dos Descobrimentos e da expansão por novos mundos iniciara-se cerca de sessenta anos antes por iniciativa do Infante. Apesar de se ter sido dito que a tentativa de achamento de um caminho marítimo para a Índia fazia parte dos projectos de D. Hanrique, tudo indica que o depois chamado «plano da Índia» foi concebido por el-rei D. João quando, ainda antes de subir ao trono, passou a ter responsabilidade na orientação das navegações. Foi dele que partiu a iniciativa de reconhecer as condições físicas do Atlântico Sul, missão de que encarregou Duarte Pacheco Pereira. Dele foi a decisão de prosseguir cada vez mais para sul as viagens ao longo da costa africana. Foram ainda realizadas por determinação sua as duas viagens de Diogo Cão, que na segunda atingiu como ponto mais meridional a serra da Parda; a de Bartolomeu Dias, que levou, em 1488, navios portugueses pela primeira vez ao Índico; e, também, a missão desempenhada por Pêro da Covilhã que, no Indostão, no Golfo Pérsico e na costa oriental de África, permitiu recolher preciosas informações de carácter económico.

El-rei D. Manuel, que também tomou assisadas decisões, colheu os frutos semeados pelo seu cunhado e primo, a quem os despeitados barões da antiga nobreza a que el-rei cortou as garras, apelidavam de o traidor. Traidor a quem? A eles, claro, pois sempre se manteve fiel aos interesses dos súbditos e ao serviço da grandeza do Reino. Parecerá estranho que el-rei, sabendo, já no início de 1489, da inter comunicabilidade entre os oceanos Atlântico e Índico, não tenha mandado uma armada para o comprovar. Há quem acredite ter havido entre a viagem de Bartolomeu Dias e a de Vasco da Gama, o envio de armadas «secretas» que, afastadas para Oeste por inesperados ventos, terão desvelado segredos sobre um continente desconhecido a Ocidente. Porém, carecendo isso de uma consistente prova, é mais aceitável supor que, para concretização do plano da Índia faltava só uma peça essencial: a garantia de que uma boa parte dos oceanos Atlântico e Índico, incluindo as terras que se sabia já existirem, quer na Ásia quer a poente da Europa, eram «mar português».

Falando ainda das leis que regulavam a circulação nos mares e oceanos, pode dizer-se que o acordo entre as duas maiores potências navais do mundo das eras de Quatrocentos e de Quinhentos, que viria a ser assinado anos depois dos factos que aqui tenho estado a narrar, no dia 7 de Junho de 1494, no Asilo de Nossa Senhora del Carmen, na vila de Tordesilhas, cerca de Valhadolide, veio colocar alguma ordem naquela floresta de leis contraditórias e inconsequentes. Os reinos europeus não concordaram com esta hegemonia de Portugal Castela sobre os mares do mundo. Mas tiveram de se conformar. Negociado sob a égide do papa Alexandre VI, o vituperado Rodrigo Bórgia, o tratado iria estabelecer, com todo o rigor possível, os limites geográficos da expansão autorizada pela Santa Sé a cada um dos estados signatários.

Este documento, fora antecedido, no ano anterior, pela bula Inter caetera, na qual o papa ditava as linhas gerais do convénio que Portugueses e Castelhanos iriam assinar. A Terra ficava dividida em duas zonas de influência separadas por um meridiano que passava a 370 léguas das ilhas de Cabo Verde. O hemisfério oriental pertenceria a Portugal e o Ocidental a Castela e Aragão. Ratificado por Fernando e Isabel no dia 2 de Junho de 1494 e por el-rei D. João II a 5 de Setembro desse mesmo ano, seria depois confirmado, já no pontificado de Júlio II, a pedido de el-rei D. Manuel, em 1506. Perante a iminência deste acontecimento diplomático, ainda melhor se pode compreender o motivo pelo qual a posse do mapa de Vaz da Cunha, contendo uma informação geográfica que só viria a ser confirmada com navegações posteriores a 1494, nomeadamente a Cabral, em 1500, tinha tanta importância e tenha feito passar tantos tormentos e derramar tanto sangue.

 

 

2 comments

  1. Carlos A P M Leça da Veiga

    Achamento???.Que razão haverá para não escrever Descoberta? Com a dobragem do Cabo do Bojador -e não com a queda de Constantinopla – os Navegadores portugueses, de facto e de verdade, inauguraram a época Moderna. O facto não merece chamar-se-lhe uma Descoberta?CLV

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    • «Achamento» era um termo usado na época, como sinónimo de Descobrimento. O que pode ser contestado é a tendência actual para desvalorizar o mérito científico e a proeza dos Descobrimentos – preferem chamar «encontro» de culturas – não tivessem os nossos geógrafos, cartógrafos e navegadores a encontrar um novo continente e ainda hoje os índios, ,á estariam,escavando arvores a fogo e fazendo pirogas. Os Descobrimentos significaram um grande rigor científico e uma disciplina militar de grau elevado. É um grande momento cultural da Europa. Portugal, sobretudo D. Henrique e João II, foi o centro de uma extraordinária epopeia,

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