Em França, por exemplo. O Partido Comunista Francês de há anos, que foi forte e bastante importante em tempos – desagregou-se, colapsou, esvaiu-se numa diarreia qualquer, sabe-se lá como e porquê. Desapareceu, pronto. Acabou. Fini.
São factos. Não vale a pena, aqui e agora, discuti-los, preocuparmo-nos em demasia com explicações desse triste e quase recente passado.
Nessa mesma inconsistente França, as divisões políticas são de enorme dimensão, de enorme (popular) confusão e (cada vez mais) assustadoras.
Não há Esquerda que os valha, aquilo não tem ponta por onde se lhes pegue. O Partido Socialista Francês, graças em parte àquele asqueroso hermafrodita dito Hollande, afundou-se, deu o que tinha a dar e anda evidentemente mal visto por toda a gente e pelos dias da amargura.
Depois, a Direita enferma de corrupções e barracas várias, a si cada vez mais associadas. Primeiro foi o Sarkozy, enterrado até aos feijões em esquemas absolutamente corruptos, criminosos e ilegais, agora é o Fillon, também ele corrupto e aldrabão até ao tutano, com mulher e filhos envolvidos em esquemas e exposto pelos media, sem apelo nem agravo, ao julgamento popular, o que é (e seria) óptimo por parte da Esquerda – se alguma Esquerda funcional existisse naquele importante país da União Europeia.
Mas não existe. Nem o eleitorado está interessado em tal, pelos vistos.
Aparece de repente um Macron, populista, repentista e recente (vindo do governo do querido François) a armar em salvador da pátria. Não é de Esquerda nem de Direita, confessa sorridente, essa interessante e ominosa confissão de muitos reaccionários com ambíguas ideias e programas concebidos para “agradar à Esquerda e à Direita”, uma daquelas coisas nenhumas que estamos fartos de constatar e em que o despolitizado e chamado povo costuma embarcar, já cansado, farto, indeciso e irresoluto (e politicamente inculto) para ser capaz de pensar.
E em quem é que essa parte de povo (cansado, farto, indeciso e irresoluto) vai maioritariamente, ou perto disso, votar?
Na querida Marine Le Pen, pois claro.
E eu não sei como tais procedimentos populares, neo-fascistas e xenófobos, afectam as ideias feitas da Esquerda oficial portuguesa, o indómito e sempre optimista Partido Comunista Português. Não sei. E eles também não, por mais que finjam que sabem, por mais que finjam que o povo é quem mais ordena.
O que pelos vistos parece ser verdade. Há coincidências estranhissimamente coincidentes nas ideias anti-europeias e anti-euro de Partidos de Esquerda, em coro afinado, com extremas-direitas como a Le Pen, a gritar exactamente a mesma coisa.
Não, não são o mesmo, não são a mesma coisa, nem pelas mesmas razões, eu sei, não sou estúpido de todo, por amor de Deus (que às vezes faz falta, até aos ateus) e evidentemente. Mas vem tudo a dar no mesmo. Olha se a Le Pen ganhasse e cagasse no euro! O que é a tal Esquerda oficial diria, como se comportaria, como se comprometeria?
Falei na França por estar próxima e ser mais fácil a informação. Mas, por exemplo, um ganda fascista e actual candidato holandês do momento (lembro-me lá do nome dele, vão ao Google, não me chateiem) acabou há pouco de estar em desacordo com uma cimeira no seu país com o querido Erdogan turco (outro fascista inato) porque deve achar que aquilo faz tudo parte da mesma indefinida corja de orientais e porcos árabes e afins. É uma questão de puro racismo, pois claro, mas que (tal como a Le Pen) atrai povo às dúzias de milhões. Um mistério? Talvez, mas um facto, com certeza.
Eu nem vou falar no Trump, para não me cansar ainda mais. Vejam-se as manifestações a seu favor, de todas as idades, sexos e feitios.
O cansaço que se nos vai apoderando, dos alguns de nós que não militamos e que insistimos em pensar por nós próprios, é que nos mina. Sobretudo por quem, com responsabilidades óbvias, insiste nas mesmas tretas de há cinquenta anos, como se não houvesse outras e recentes dúvidas ou indefinições populares e assustadoras.
O mal do PCP é talvez pensar que Povo é sinónimo de uns milhares de envelhecidos e cansados militantes e adeptos, hoje em Moura (importante cidade europeia) por ridícula que seja essa assunção.
Em vez de (e como sempre) explicarem ou tentarem explicar às pessoas, aos simples, as verdades, as dúvidas e as verdadeiras angústias. Que devia ser, fazer, parte do seu programa, neste país de inatos analfabetos.
É também por isso que me irritam.
Ou já não se lembram do fascismo de massas de Mussolini? Vão rever “Una giornata particolare” (Um dia inesquecível) do Scola e pensem. Pensem, porra.