A GALIZA COMO TAREFA – o projeto de língua – Ernesto V. Souza

Estaleiro, Carlos Maside

A história da língua galega, na Galiza, é conhecida na projeção gizada, por causa e como justificação do decorrer do discurso nacional de restauração, principiado por volta de 1830.

Isto é, na coincidência e concorrência dos primeiros passos com o processo de elaboração e construção do projeto Nacional espanhol, após a queda do Antigo Regime; da substituição do modelo absolutista por um outro mais moderno de corte liberal e da definitiva perca de todos os territórios continentais Americanos do Império.

Separado politicamente o território galego de Portugal, e dos seus avatares imperiais, também se manteve a Galiza ausente, mas sem perder relacionamento por completo, dos processos de construção e reconstrução política, cultural, social e linguísticos que se deram do século XV até o hoje.

Com o processo andado e já num momento de certa glória conhecido como Rexurdimento (1860-1885), será que se incorpore ao discurso a descoberta e análise da Literatura dos cancioneiros medievais e a ligação existente entre as fases antigas da língua e o Português clássico.

Destarte deveríamos dizer que na sequencia estritamente cronológica da construção canónica da literatura e da Língua galega contemporânea, Pintos, Anhom e Rosalia de Castro, precedem à Literatura medieval, e que Manuel Curros e Pondal são contemporáneos das Cantigas à par da Literatura portuguesa.

Com estes elementos à vista é importante destacar que o processo de construção nacional e linguístico da Galiza nasce e acompanha em eco e protesto toda a construção e história do Estado Espanhol contemporáneo.

Percorre pois, a descoberta, propostas, elegias, debates, lutas pela identidade e discursos todas e cada uma das fases e períodos políticos marcantes dos agitados séculos XIX e XX. Liberalismos, Guerras carlistas, levantamentos provincialistas e anti-centralistas das décadas de 40 e 50, Revolução de setembro de 68, I República de 1874, Restauração Canovista-borbónica (1875-1923), com as suas fases de repressão (1875-80), consolidação (1880-95), crise finissecular e independência de Cuba (1895-1900),  Crise final (1909-1917), ditadura de Primo de Rivera (1923), II república (1931-36), ditadura (1936-1977), Transição e democracia (1978-até hoje).

Em todas estas fases e momentos a Construção da língua galega (correlato de um processo de construção nacional ou de uma reivindicação regionalista, autonomista ou soberanista), foi condicionada, tolerada, combatida, minorizada, perseguida pela realidade política e económica e em função das necessidades do projeto de construção nacional do Estado Espanhol.

Resulta importante destacarmos também, à hora de analisar as especificidades e fraquezas dos modelos de língua parcialmente consolidados, integrar as especifidades e fraquezas dos projetos políticos de teor regional-soberanista, em relação ao nível de nacionalismo de estado em cada fase, e em relação à força política (e posicionamento explícito ou implícito) dos Partidos e políticas maioritárias no Estado e também na Galiza.

Sem isto, a análise que façamos e a percepção que possamos chegar a ter do projeto de língua da Galiza, mesmo dos atuais, será sempre incompleta, parcial e mesmo equivocada.

Para as últimas décadas resultaria interessante analisar o impacto político e social desse Estado espanhol que se re-conformava para a Democracia, sem ter querido perder a tutelagem e controle sobre as regiões e nações antigas e ainda vivas que se encontram no seu território.

Para o caso galego (e para o caso da língua galega) é importante destacar precisamente como se preteriram e negaram sistematicamente três das grandes características conformantes: a importância política regional-soberanista do movimento linguístico, folclórico, musical, artístico e cultural, no século XIX, antes da Guerra espanhola de 1936 e a partir da década de 1960; o marcante papel conetivo e tradição internacionalista da possante Diáspora migratória galega; e o relacionamento intenso, cultural, linguístico, social, económico, intelectual e académico com Portugal.

Uma vez com isto ante os olhos, até o leitor mais confiante na história mais comumente narrada em épica de alvorada, resistência e trunfo, pode questionar não pouco do que se lhe apresenta como realidade institucional, modelo de língua consagrado e história já fechada.

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