CRISE DA DEMOCRACIA, CRISE DA POLÍTICA, CRISE DA ECONOMIA: O OLHAR DE ALGUNS ANALISTAS NÃO NEOLIBERAIS – 12. A COLÓNIA NEOLIBERAL QUE É A GRÉCIA DEU MAIS UM PASSO ATRÁS – por BILL MITCHELL

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

A colónia neoliberal que é a Grécia deu mais um passo atrás.

Bill Mitchell

Bill  Mitchell, The neo-liberal colony of Greece takes another step backwards. Texto disponível em:

http://bilbo.economicoutlook.net/blog/?p=35369

Billy Blog, 15 de Fevereiro de 2017 

 

As estimativas das Contas Nacionais da Zona Euro para o quarto trimestre de 2016 foram divulgadas ontem pelo Eurostat – o PIB cresceu 0,4% na zona euro e de 0,5% na UE 28. A taxa de crescimento homóloga da Zona Euro em 2016 foi de 1,7. Também se informa no texto que a economia grega caiu de novo na sua depressão e foi seguido por outro parceiro da zona euro, a Finlândia. Ambos registaram crescimento negativo no quarto trimestre, Grécia -0,4%, Finlândia -0,5%. Ambos os resultados refletem a austeridade orçamental em marcha. A Espanha, por seu lado, no que lhe é permitido pela Comissão Europeia, está perante grandes défices estruturais (para poder manter o PPP no poder) registou outro forte crescimento. Talvez se Syriza tivesse demonstrado uma certa espinha, eles também poderiam ter escapado com uma solução espanhola – onde Bruxelas faz a vista grossa à violação flagrante das regras do Pacto de Estabilidade e Crescimento, enquanto a sua economia começa a crescer fortemente. Os dados da Grécia ajustados. Mas, então a história o que nos diz é que Syriza cedeu quase imediatamente e o declínio contínuo da situação grega é um resultado direto das políticas que desde então co-assumidas para serem infligidas ao seu próprio povo. Uma análise mais profunda da situação grega revela quão terrível vai ser o seu futuro. Apresento aqui alguns indicadores desse futuro neste blog. À medida que a colónia neoliberal da Grécia dá mais um passo atrás, isto não será nada difícil de entender, e porquê? Basicamente, a Tróika conspirou para destruir a prosperidade da Grécia como uma nação e a sua liderança política juntou-se a essa conspiração ao recusar-se a abordar uma saída da zona do euro. Simplesmente assim.

Os dados ajustados das variações sazonais mostram que:

  • O PIB em termos reais reduziu-se de 0,4% no último trimestre de 2016

  • O crescimento anual para o ano de 2016 foi de um modesto valor de 0,3 por cento

  • O gráfico abaixo é obtido do Instituto Nacional das Estatísticas da Grécia publicado em Fevereiro de 2017 – Quarterly National Accounts, 4th Quarter 2016 (Flash Estimates).

Essas estimativas são as chamadas “estimativas rápidas” e serão sujeitas a revisão à medida que mais dados forem sendo recebidos. Nesta fase, temos apenas o gráfico acima  e, portanto, uma análise detalhada dos padrões de despesas e contribuições para o crescimento terá de esperar até a próxima publicação de dados.

O título do Financial TimesA economia grega sofre uma surpresa de ter uma contração do PIB no quarto trimestre de 2016  (14 de fevereiro de 2017) – sugere que o jornalista foi apanhado no exagero das previsões positivas.

O artigo dizia que:

A economia grega sofreu uma contração surpresa no final do ano passado, invertendo sinais incipientes de crescimento sustentado e infligindo um novo golpe nas esperanças de seus credores internacionais…

Os credores da Grécia na UE têm defendido o regresso do crescimento económico em 2016, elogiando os esforços do governo Syriza para melhorar as suas finanças públicas por meio de impostos mais altos e redução de gastos. Bruxelas espera que a economia recupere fortemente este ano para expandir 2,7 por cento de apenas 0,3 por cento em 2016, dependendo do sucesso em suas negociações de resgate.

Sim, aqueles credores otimistas da UE e todos os pelotões de alegria em Bruxelas, Frankfurt e Washington  vivem toda uma vida de ilusão.

O artigo da FT também sublinha que, embora o FMI tenha reconhecido que “um projeto de austeridade aplicado durante seis anos viu… [a Grécia]… sofrer uma contração económica pior do que os Estados Unidos durante a Grande Depressão”:

O FMI está agora exigindo que Atenas legisle por cerca de € 3,6 mil milhões em reformas adicionais de impostos e pensões como condição para permanecer envolvido no resgate…

É tão louco quanto se lê.

Os cirurgiões só sabem uma coisa, o mesmo se pode dizer quanto a estas organizações internacionais neoliberais totalmente infestadas. Elas devem ser desmanteladas.

Penso que a Comissão Europeia ficará surpreendida.

… presos como eles estão à sua própria propaganda e ao seu pensamento único

O gráfico seguinte (para além de ser muito curioso  olhar para ele atentamente ) mostra a natureza iterativa da previsão da Comissão Europeia para o crescimento real do PIB na Grécia, a partir das previsões do Outono de 2009.

A linha azul espessa é o atual crescimento do PIB em termos reais.

Assim, para interpretar o gráfico comecemos com a previsão de Outono de 2009. Projetava que o crescimento real do PIB na Grécia para 2009 seria de -2,9 por cento, mas o crescimento voltaria em 2010 (0,6 por cento) seguido por um crescimento mais forte em 2011 (1,5 por cento).

O crescimento verificado durante esses três anos foi de -4,3 (2009), -5,5 (2010) e -9,1 (2011).

A divergência quanto ao que a Comissão Europeia estimou que iria acontecer, já que estava a começar a intimidar a Grécia para aplicar a austeridade orçamental e o que realmente aconteceu é muito desolador e ultrapassa o entendimento de qualquer pessoa de bom-senso.

E nos dois anos seguintes a Comissão esteve igualmente errada, embora possamos ver como é que as suas previsões estavam-se a tornar um pouco menos otimistas à medida que a crise se aprofundava.

Por volta de 2013, a Comissão estava a aproximar-se da realidade, embora continuasse a prever que, em 2014, o crescimento em 2015 seria de 2,9 por cento, quando o real era de -0,2 por cento – os erros passaram a ser mais pequenos.

A estimativa de 2,7% parece ser popular na unidade de previsão da Comissão Europeia. Nos últimos dois anos, previu-se que esta seria a taxa de crescimento que se iria verificar na Grécia este ano.

Com a contração do quarto trimestre de 2016, seria necessário ser-se uma pessoa muito corajosa para sugerir que a Grécia crescerá 2,7 por cento este ano.

O investimento entrou em colapso

Os dados trimestrais das contas nacionais da Autoridade Estatística Nacional da Grécia (El.Stat) fornecem dados bastante pormenorizados sobre a formação bruta de capital fixo por tipo de ativo.

O gráfico a seguir mostra índices trimestrais a partir de setembro de 2007 (o índice de pico = 100) até ao trimestre de setembro de 2016 para toda a formação bruta de capital fixo (despesas em investimento) e pela subcategoria imobiliário.

Para os 9 anos analisados, o investimento total passou do índice 100 para 32,4 enquanto o investimento em imobiliário passou do indicie 100 para 3,7. Sim, foi assim, não há engano.

O investimento na construção de habitações diminuiu em 96,3%.

O investimento em equipamentos de transporte passou do índice 100 para 12,2 pontos do valor do índice. O investimento no TIC passou do índice 100 para 54,4 pontos desse índice. O investimento em máquinas e outros equipamentos passou do índice 100 a 61,3 pontos desse índice.

É quase impossível imaginar como é que um governo poderia permitir que isso acontecesse a menos que este tenha perdido toda a autoridade e que uma força externa, sem nenhum interesse sobre os efeitos dos investimentos a longo prazo  sobre o bem-estar da nação, tenha estado a dirigir este degradante espetáculo.

O que, é claro, é exatamente o que aconteceu com a Grécia. Os funcionários do FMI que andaram sempre fora e dentro pressionando os burocratas do governo grego, não têm nenhuma participação na Grécia. Os funcionários da Comissão Europeia não têm uma participação significativa.

Eles irão ter uma pensão de reforma que para alguns são um verdadeiro  luxo. Um luxo para estes que terão deixado para trás um desastre total que é a situação grega.

Mesmo utilizar  o  termo nação em relação à Grécia é um termo errado  hoje. Eles ainda podem por a sua bandeira a flutuar, mas para todos os efeitos, eles têm estado colonizados pelos neoliberais que estão a norte da Grécia.

 

No blog de ontem – o mercado de trabalho dos EUA tem estado a degradar-se – as perdas da grande crise financeira estão para durar e por muito tempo- comparamos as trajetórias temporais de várias séries quanto ao PIB potencial real para os EUA para mostrar como é que as recessões tem efeitos de arrasto, têm impactos futuros, e como é que através do seu efeito sobre as despesas em bens de investimento se leva a que perdurem as consequências negativas sobre o longo prazo.

A lição era clara: quanto mais tempo dura uma recessão e quanto mais fraca for a recuperação posterior, maior será a probabilidade de que a formação bruta de capital se deteriore significativamente, o que reduziria o potencial de crescimento a longo prazo da nação.

Os custos da recessão então multiplicam-se  e perduram durante várias gerações.

Qualquer recessão é sempre uma má coisa e as perdas de rendimento são permanentes. Mas uma desaceleração habitualmente em forma de  V que vê a sua economia a degradar-se rapidamente e depois a recuperar de forma relativamente igual tende a não criar esses efeitos de histerese de longa duração (que eu expliquei no blog de ontem).

Mas uma recessão profunda e longa seguida por uma recuperação fraca e durante muito tempo é um verdadeiro desastre e leva ao tipo de perfis de investimento que se mostrou no gráfico anterior.

Embora, eu deva dizer, a experiência grega relata uma situação extrema. Não me lembro de nenhum outro exemplo histórico tão grave como este.

Trata-se da destruição deliberada de uma economia nacional.

Um futuro cada vez mais estreito para a Grécia

Eu fiz um exercício semelhante para a Grécia (semelhante ao que foi apresentado nesta série no blog de ontem) e que se mostra no gráfico seguinte. É preciso fazer vários cálculos para construir um conjunto de dados (que seja relativamente) consistente.

Usei os dados do World Economic Outlook (WEO) do FMI porque ainda é possível obter bancos de dados em arquivo. Lembremo-nos, porém, de que as estimativas do FMI sobre as diferenças de produção (PIB potencial-menos PIB efetivo) são tipicamente enviesadas à baixa (demasiado reduzidas) porque o seu conceito de pleno emprego é calculado mantendo eles taxas de desemprego que poderiam ser ainda mais reduzidas sem consequências inflacionistas desde que sejam realizados programas adequados de criação de empregos.

Mas vamos usá-los como referência, mantendo a questão do enviesamento em mente.

Eu refiz três séries de 1995 a 2016:

1. O PIB potencial real utilizando as estimativas da diferença de PIB (PIB potencial menos PIB efetivo) de 2016 do FMI -WEO (em seguida, invertendo a engenharia para obter o PIB potencial).

2. O PIB potencial real usando as estimativas de gap de produção de 2009 das estatísticas do FMI, ou seja as diferenças entre o PIB potencial e o efetivo que o FMI estimava antes do aparecimento da grande crise financeira em 2008. Eu não poderia voltar a 2007 porque não há nenhuma medida da diferença de produção dos dois tipos de PIB para a Grécia naquele tempo.

3. O PIB potencial real baseado numa simples extrapolação linear da taxa de crescimento anual do PIB real entre 1996-2007 para dar alguma ideia do que teria acontecido se a grande crise financeira não tivesse ocorrido e a economia grega tivesse continuado a crescer para além de 2007. A extrapolação começa em 2008.

Tive que ajustar as séries baseadas nos dados publicados pelo FMI para fazer com que a base de preços constante fosse a mesma (preços de 2000 convertidos para os preços de 2009 para as estimativas WEO do FMI de 2009) e extrapolar os últimos três anos.

Todas as séries temporais foram indexadas como sendo 100 em 2007.

Nenhuma dessas manipulações de dados introduz qualquer coisa espúria na análise. A economia aplicada é de toda a maneira feita de muitas aproximações.

Os resultados são mostrados no gráfico seguinte. As linhas correspondem às séries temporais explicadas acima com o índice do PIB efetivo real (azul) incluído.

Os resultados são:

1. O PIB real grego diminuiu cerca de 27 por cento (utilizando dados do FMI-WEO) desde 2007.

2. Se a economia tivesse mantido a sua taxa média de crescimento do PIB real entre 1996-2007, então o PIB real ter-se-ia movido ao longo da linha verde. Poderíamos supor que o PIB potencial real teria estado dentro dessa vizinhança (dependendo da taxa de crescimento do investimento).

Em 2016, a perda de PIB real em relação ao cenário da linha verde foi de 168 mil milhões de euros ( o que significa 67% do PIB real alcançado em 2007).

3. A linha roxa diz-nos qual era a evolução que o FMI previa que se iria verificar com o passar do tempo para o PIB (lembre-se que isso foi baseado em estimativas feitas 2 anos de se estar em crise  – então o pessimismo já estava refletido nas suas estimativas).

4. A linha vermelha representa a evolução estimada atual do FMI quanto ao PIB potencial real (em Outubro de 2016) e mostra a que nível é que a Depressão que a Grécia tem suportado desde há mais de 8 anos tem danificado  o seu PIB potencial de longo prazo.

Se essas estimativas estão perto de ser um fato, então a economia grega atingiria a sua capacidade total com apenas mais 10 por cento da sua dimensão atual – mas  lembremo-nos de que houve uma contração real que atingiu cerca de 27 por cento.

Assim, mesmo atingindo a plena capacidade produtiva, o rendimento nacional será muito menor nos próximos anos – razão pela qual o FMI alega que o desemprego permanecerá acima de 10% até pelo menos 2050.

 

Lembre-se também que uma taxa de crescimento de 1 por cento em 2017 gera muito menos rendimento adicional do que 1 por cento de crescimento em 1995. Em 1995, 1 por cento de crescimento teria gerado 2,51 mil milhões de euros (em termos reais), enquanto em 2016 gera 1,85 mil milhões de euros, o que se deve à contração da economia grega.

Assim, quando os funcionários da Comissão Europeia e do FMI estão a gritar que a Grécia regressa ao crescimento, a base de onde se calcula esse crescimento é cerca de 28 por cento menor.

Conclusão

Basicamente, a Troika conspirou para destruir a prosperidade da Grécia como uma nação e a sua liderança política juntou-se-lhe nessa mesma conspiração ao recusar-se abordar uma saída da zona do euro.

Sem o euro, a Grécia poderia ter regressado ao crescimento imediatamente e ter sustentado esse crescimento sem ter de suportar estas contrações invalidantes da capacidade produtiva que prejudicarão as suas gerações futuras até um futuro longínquo.

Bill Mitchell, The neo-liberal colony of Greece takes another step backwards, texto disponível em:

http://bilbo.economicoutlook.net/blog/?p=35369

 

That is enough for today!

 

About joaompmachado

Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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