A GALIZA COMO TAREFA – periferias periféricas- Ernesto V. Souza

A visão geral que da Península Ibérica é transmitida no ensaio europeu dos séculos XIX e XX é a da periferia. O tema, qualquer que se gize no género ensaio, é irrelevante, mas a noção da distância e lonjura a respeito de algum dos centros culturais, políticos e económicos da época moderna e contemporânea é tão intenso que se estende como tropo a toda época; atingindo a Idade Média, o Mundo Clássico e antigo e até a Pré-história.

Com um salve a excepção obrigado naquele raro momento de brilho navegante, colonizador e imperial, (normalmente desconsiderado ou destacado como efémero) os inventos, as vagas invasivas, as notícias, novidades literárias e modas, a modernidade, a própria história parece sempre chegar com demora à Península Ibérica.

E se isto é para os entes Espanha e Portugal, que dizer da Galiza, periferia daquelas periferias?

Porém, poucas cousas terão uma mais clara explicação como consequência das políticas internacionais desses grandes centros emergentes como o declínio desde o século XVII de ambos os impérios peninsulares, com a secundarização como resultado da Guerra dos trinta anos e a satelitelização posterior no século XVIII a respeito da França (Espanha) e Reino Unido (Portugal); seguidos pela prostração económica e industrial (provocada também pelos interesses comerciais, militares e coloniais das potências da época) no século XIX e a marginalização autárquica causada pelas fases de ditadura (mantidas também pelo interesse estratégico das potências e das “necessidades” dos blocos na Guerra fria) após as efémeras (e adiantadas repúblicas).

Resulta extraordinário ter assumido em boa medida esta periferização que ecoa da época Romana, estende-se aos livros, letras e cultura da época Franco-Carolingia e tem o seu fastígio na hora da produção e comércio dos primeiros livros impressos.

Aí os casos espanhol e português separam-se, porque nesta lógica absurda, o mundo castelhano mediterraniza-se, deixando Galiza mais e mais periferizada.

Mas é curiosa esta perspectiva e com ela mais curiosa o afetada que se acha a narrativa histórica. Na procura de uma uniformização histórica e discursiva o Estado espanhol, assumiu a noção de periferia à vez que em paralelo levantou toda uma historiografia na que o território central (as duas mesetas) em disputa entre os vários núcleos originais (entre eles Portugal), terminou por ser considerado o centro e motor dos processos, por enquanto as velhas nações e reinos a Norte, Sul e Leste, elementos “provinciais” singulares e Portugal aquele característico oco nos mapas espanhóis.

Resultaria interessante, porém, aplicar na península uma análise lógica que definisse o papel e confrontação de interesses das antigas elites e da existência de estruturas e relações económicas e diplomático-comerciais anteriores à idade moderna. Elementos claramente conformantes e centrais nas construções, alianças e evoluções de ambos os estados, antes da aparição do Estado Moderno a fins do século XVIII.

É importante ainda a análise do papel, do peso constitutivo, de tantos elementos dos diversos blocos territoriais e históricos, entendido como conjuntos: com os seus centros, contextos e bloques de relacionamento.

Deste jeito teríamos, como temos Portugal: um Conjunto mediterrâneo constituído pelo espaço imperial aragonês, fortemente relacionado e afetado pelas políticas do conjunto Francês, norte-africano, com as ilhas e o mundo italiano; um conjunto Basco-Navarro, estendendo-se pelo espaço cantábrico, burgalês e riojano, relacionado com os antigos países do Golfo da Biscaia, a Navarra francesa, a Aquitánia e a Gasconha; o espaço Meridional, da antiga Bética, com relacionamento até o Tejo a Norte e fortemente vinculado com os países e regiões da África ao Norte do Atlas. Fica depois o caso da Galiza, vinculada pelo atlântico com os países célticos, e com a área de relação coincidente com a antiga província da Gallaecia Romana, ou com a extensão máxima da antiga monarquia Sueva.

Talvez muita cousa na história, e no conjunto político e social da Europa hoje,  entenderia-se melhor se raspássemos os Mapas do nacionalismo do século XIX e XX, na procura de algumas imagens anteriores.

Mas achemos ou não, nalgum dos palimpsestos anteriores algum mapa que mais nos convença é evidente que de atendermos aos blocos peninsulares anteditos, um por um, perceberemos rapidamente que nem na história nem no presente deixam de ter uma característica centralidade e a definir outros e possíveis espaços de relacionamento.

 

 

 

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