Da América à Europa , de Trump a Clinton, de Marine Le Pen a Macron, a mesma presença como pano de fundo, o estado subterrâneo em ação – por Júlio Marques Mota – 1. Introdução (parte 2)

júlio marques mota

1. Introdução – parte 2

Uma análise de síntese da política de Trump vista pelo seu projeto de Orçamento

Vejamos agora alguns traços do seu projeto de orçamento, tornados públicos já depois deste texto estar escrito, pelo que nos limitamos a pequenos acréscimos:

2017 orçamento Trump

Vejamos com mais detalhe o caminho a ser delineado para a militarização da sociedade americana. Não sei mesmo se não poderemos falar em fascização da sociedade americana porque esta militarização é acompanhada de violentos cortes de natureza social, seja na educação, na segurança social, na justiça, na saúde:

2017 orçamento Trump EPA.jpg

Comentário: A EPA está entre as agências mais atingidas. O orçamento exige a eliminação de cerca de 3.200 funcionários — mais de 20 por cento do departamento. Também elimina todo o financiamento para funcionamento do Clean Pwer Plan, os regulamentos projetados para reduzir as emissões de gases com efeito de estufa produzidos pelas unidades industriais. Cessaria também o financiamento para a investigação sobre as mudanças climáticas e para os programas internacionais sobre as mudanças climáticas.

2017 orçamento Trump SODP.jpg

Comentário: A diplomacia e desenvolvimento poderão ser atingidos. O alvo principal: as Nações Unidas. As Iniciativas sobre as mudanças climáticas da ONU perderiam todo o seu financiamento dos EUA. O governo poderá reduzir a sua contribuição regular para a ONU e não custeará mais de 25 por cento do custo das operações de paz da ONU.

2017 orçamento Trump AGR.jpg

Comentário: O Presidente Trump quer reduzir o financiamento para o Ministério da Agricultura, fazendo cortes no sistema de florestas nacionais e eliminando os programas de créditos e de subvenções para sistemas de abastecimento de água e de esgotos. O orçamento forneceria $ 6,2 milhões para o programa de Alimentação complementar especial para mulheres, bebés e crianças, conhecido como WIC, que ajuda a famílias de baixo rendimento, e não procede a cortes para o serviço de inspeção e segurança alimentar. Ele continua o financiamento de programas de investigação projetados sobre os agricultores e a competitividade da agricultura.

2017 orçamento Trump Labor

Comentário: O Presidente Trump quer diminuir um certo número de programas de formação para o emprego, incluindo os que visam ajudar os idosos, os jovens desfavorecidos e americanos desempregados. O orçamento ajudaria os Estados federados a expandir os programas de aprendizagem e formação para trabalhadores deficientes, enquanto eliminaria subsídios para a formação em Administração da saúde e da segurança no trabalho.

2017 orçamento Trump JusticeComentário: O Presidente Trump quer cortar no orçamento da Justiça, mesmo quando quer intensificar a vigilância na fronteira, quer contratar mais juízes para os casos da imigração e ainda aumentar um pouco o orçamento do FBI. A maioria dos cortes vem de uma manobra sobre o orçamento em que os fundos classificados como ” fundos consignados ou de aplicação obrigatória “, como o fundo para as vítimas de crime, são reduzidos para compensar gastos discricionários. O seu orçamento também se baseia em cortes para a construção de prisões, com base no argumento do declínio da população prisional, registado sob o Presidente Obama.

2017 orçamento Trump Health

Comentário: O orçamento faz cortes significativos nos gastos do departamento de Saúde e Serviços Humanitários, ao eliminar $ 4,2 mil milhões em programas de serviços comunitários, como o Programa de Assistência em Energia para as pessoas de baixos rendimentos. O programa propõe-se cortar despesas do National Institutes of Health em US $ 5,8 mil milhões, ou cerca de 18 por cento. Esta proposta é uma impossibilidade no Congresso como é já evidenciado pelo apoio bipartidário ao Cures Act, uma lei de investigação biomédica assinada em Dezembro. Sobre estes cortes dizem-nos especialistas:

Os cortes de NIH podem não significar nenhum subsídio adicional em 2018. A comunidade de investigação biomédica está a reagir chocada e a considerar uma ofensa a proposta da Administração Trump de 18% de corte no orçamento do National Institutes of Health (NIH). Muitos cientistas estão igualmente preocupados com os planos para reorganizar a agência, porque em parte será para eliminar os departamentos dedicados à formação dos países em vias de desenvolvimento. O orçamento de Trump cortará $5,8 mil milhões de um nível de financiamento atual de NIH de $31,7 mil milhões. Isso colocaria o seu orçamento ao mais de baixo nível desde há 15 anos e isto sem tomar em conta a inflação da biomedicina. Obviamente estamos indignados. Isto é simplesmente inaceitável. Isto não faz nenhum sentido. Devemos investir mais em pesquisa biomédica “, diz Jennifer Zeitzer, diretora de relações jurídicas para a Federação das Sociedades Americanas de Biologia Experimental. A American Medical Colleges afirmou que os cortes iriam “incapacitar a capacidade da nação em apoiar e fazer ” investigação biomédica. Os danos poderiam ser ainda piores do que parece porque os US $ 25,9 mil milhões para o NIH aparentemente incluem US $ 496 milhões que o NIH deveria receber do 21st Century Cures Act que se tornou lei em dezembro de 2016, afirma Kathy Hudson de Washington, DC, um antigo director que deixou a Agência em dezembro. O dinheiro do Cures Act era visto como sendo um adicional ao orçamento da agência, e nunca uma dedução que lhe seria retirada. O NIH também teria de cavar bem fundo no seu orçamento para manter os estudos financiados em 334 milhões de dólares (em 2016) pela agência de Investigação e Qualidade de Saúde (AHRQ), cujas atividades NIH seria esperado vir a absorver, diz Hudson. Em todo o NIH, porque a maioria do orçamento da agência vai para pagamentos de investigações em curso, um corte de quase 20% não poderia deixar virtualmente nenhum financiamento disponível para os novos projetos de investigação no ano fiscal de 2018, diz Hudson. “A nação perderia investigações e investigadores de uma maneira que não seria recuperável”, diz Hudson. – É muito assustador, acrescenta.

2017 orçamento Trump Education

Comentário: Este orçamento ilustra um suporte a plenos pulmões para os programas de escolha da escola defendidos pela Secretária de Educação Betsy Devos. Ele inclui um aumento de US $ 1,4 mil milhões em programas de escolha de escolas públicas e privadas, eliminando o financiamento dos programas de antes e de depois da escola assim como os programas de verão. O programa federal de apoio financeiro a quem pós-secundário trabalha a tempo parcial e estuda, será “significativamente reduzido”, enquanto o Supplemental Educational Opportunity Grant Federal, que está reservado para estudantes universitários com a maior necessidade de ajuda financeira seria eliminado. O financiamento para as faculdades historicamente negras (desde sempre frequentadas predominantemente por estudantes de raça negra) permaneceria o mesmo.

Também sobre o orçamento apresentado por Trump, eis um comentário de NORMAN POLLACK, extraído do seu artigo publicado por CounterPunch e intitulado America Becomes Fascist: Trump Revealed:

“Trump é uma realidade. A sua proposta de orçamento, agora tornada pública, era já perfeitamente esperada, um aumento de 10% para despesas militares, 7%, para a segurança interna, 6%, para os veteranos, e os cortes maiores, EPA -31%, o departamento de Estado -29% e as agências de desenvolvimento, – 21% agricultura. Isto, obviamente, diz-nos pouco sobre o enviesamento de fundos do governo e ainda menos sobre o seu objetivo global. O que é imediatamente visível é o militarismo a esmagar funções do Estado Providência, funções de bem-estar das populações, e isso é uma pista sobre o que está em jogo.

Como relata o New York Times, “a proposta eliminaria também o financiamento [sublinho, eliminaria] a cerca de 20 pequenas agências independentes, incluindo a National Endowment for the Arts, a Corporation for Public Broadcasting e a Legal Services Corporation, que financia grupos de assistência jurídica.” A lista [acima] é instrutiva. A razão dada que é a de que evitar défices enquanto se aumenta o orçamento da defesa exige que se faça uma poda no orçamento. A preeminência de defesa exige nada menos que isso, para que a pátria permaneça segura. Trump é o Supremo protetor da Democracia Americana e da Liberdade.”

As mais recentes nomeações ou propostas de nomeação para a Defesa e a Segurança Interna mostram como o Deep State alarga a sua influência e como é que se continua a expandir o lado mais negro da sociedade americana: o poder do complexo militar.

Vejam-se algumas das nomeações de Trump: Benjamin Cassidy, da Boeing, Jonathan Rath Hoffman, do grupo Chertoff, Jim Mattis de General Dynamics, submarinos, John Kelly conselheiro de Dynacorp. Pat Shanahan, vice-Presidente de Boeing, Elaine Duke, de General Dynamics e de Columbia Group, fabricantes de drones navais, entre tantos outros, ilustram a militarização do Sistema.

Como afirma William Hartung, diretor do projeto Arms & Security Project at the Center for International Policy: A administração de Trump é o “complexo militar-industrial personificado,” disse ele. Hartung notou que, enquanto a Administração está a colocar altos quadros de empresas privadas de armamento no governo também está a exigir um enorme aumento nas despesas militares e aparece a querer levar a cabo uma escalada nos conflitos na Síria e Iémen. Em suma, as propostas de Trump fazem dos sonhos dos fabricantes de armamento militar uma realidade.

Esta é, pois, uma síntese da proposta do Orçamento de Trump em que se mostra que estamos já muito longe, muito longe mesmo, das promessas eleitorais de Trump. Afinal corta-se em tudo o que é social, em tudo o que é meio ambiente, em tudo o que é educação, aumenta-se em tudo o que é armamento. Em suma, continua-se na mesma sequência do que fizeram Bush, Bill Clinton, Obama. Eis pois o reforço do Estado militarizado. Pela via seguida por Trump, o aumento proposto em despesas militares nos Estados Unidos equivale a 80% das despesas militares da Rússia e os Estados Unidos passariam a representar, em despesas militares, cerca de 40% das despesas militares à escala mundial. Mais armas, significa menos manteiga ou menos saúde ou menos educação, ninguém inventou o sistema que funcione de uma outra maneira.

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