Da América à Europa , de Trump a Clinton, de Marine Le Pen a Macron, a mesma presença como pano de fundo, o estado subterrâneo em ação – por Júlio Marques Mota – 1. Introdução (parte 4)

júlio marques mota

1. Introdução – parte 4

As eleições em França- a lição bem aprendida

Mas tudo isto nos diz que o programa de Trump irá rotundamente falhar e que a América vai continuar a estar extremamente dividida, entre a hiperclasse e as classes médias altas, que lhe são aliadas e que não se revêem em Trump, e os desfavorecidos da globalização. Estes são cada vez em maior número e o seu despertar de classe pode ser igualmente disfuncional quando verificarem preto no branco que afinal não irão encontrar em Trump o dirigente que assuma como seu estandarte a defesa dos interesses económicos e sociais dos 85% das famílias americanas mais desfavorecidas com a atual repartição do rendimento. Deduz-se isso claramente de alguns dos pontos do seu programa acima analisados. Uma profunda divisão poderá então desestabilizar a sociedade americana e com graves repercussões a nível mundial. O programa de Trump falhará, pelas suas próprias incoerências ou pelos obstáculos que sucessivamente lhe sejam levantados.

Mas a contrapartida desta falência, a luta dos Democratas e dos “guerrilheiros” espalhados por todo o país na sua Organizing for America, não levará a uma melhor situação, a menos que outros Bernie Sanders apareçam e dêem sentido à luta de classes subjacente a toda a violência a que iremos assistir. Entraremos então numa outra fase política em que as fortes contradições da sociedade americana e da sua luta de classes, por agora subterrâneas, irão irromper à luz do dia, constituirão em face do futuro do país apenas um epifenómeno, uma situação violenta de transição mas de não muito longa duração entre fações da mesma coisa: a lógica de um Trump meio vergado aos interesses dos 1%, com uns laivos de populismo de direita pelo meio e a lógica dos Democratas de subscrição aberta da globalização. Pelo meio irrompe à luz do dia as contradições de classe da sociedade americana agora menos manipuláveis pelos media.

Digamos, estamos numa fase política do fim de um dado mundo e o do aparecimento de uma grande vaga, uma vaga de elites novas que avançarão e se deverão constituir para a criação de uma nova ordem económica e social mais justa na sociedade americana. Entre uma velha ordem e uma ordem nova com que muita gente anseia, há todo um espaço de luta de que os Estados Unidos irão ser palco, entre os reacionários do Partido republicano, a esquerda oficial defensora da globalização, a clique dominante do Partido Democrata, tudo isto alimentado a milhões de dólares, e do outro lado, os 85 % por cento da população americana que se sentirão perdidos e atingidos gravemente pela globalização e traídos quer por Trump, quer por aqueles que o combatem em nome da ordem estabelecida.

A estes tempos de angústia não será pois estranho o aumento de participação das gentes progressistas nos templos religiosos. Como se assinala em ZeroHedge:

“Desde a eleição do presidente Donald Trump, que as conferências mensais sobre justiça social na capela gótica de 600 lugares do Seminário Teológico da União de Nova York tem tido a presença de multidões a assistir e em número três vezes maior do que é habitual. Em janeiro, este edifício construído há cerca de 181 anos e cuja arquitetura evoca a Abadia de Westminster em Londres, atraiu cerca de 1.000 pessoas para uma conferência sobre o encarceramento em massa. Nos nove anos em que Reverend Serene Jones tem sido a Presidente esta nunca viu tais multidões.

“A eleição de Trump tem funcionado como um apelo veemente para os progressistas nas igrejas protestantes e católicas na América fazerem deste lugar predominantemente de fé um local de discussão de políticas progressistas para realmente se passar à ação”, disse-nos ela.

Embora não tão poderoso como a direita religiosa, que tem sido creditada por ajudar fortemente a eleger presidentes republicanos e se orgulhar de líderes bem conhecidos, como Pat Robertson, fundador da Christian Broadcasting Network, a “esquerda religiosa” está lentamente a unir-se como uma força na política americana”.

Tempos difíceis, portanto, é o que se espera que venha a acontecer na América e no mundo e este reposicionamento nas igrejas é pois um fenómeno de conforto emocional e um sinal dos novos tempos que necessariamente irão chegar. Entre um tempo, o de um ciclo que agoniza, e o outro, o de um parto extraordinariamente difícil e doloroso, é todo um pântano que temos de atravessar, cheio de múltiplas emboscadas e de várias tempestades violentas. Mau tempo no canal do Mundo e onde todos os golpes baixos são admissíveis, como se tem estado a ver, é o que por agora se pode com alguma segurança prever. Serão pois tempos de crise profunda e aqui cabe-nos lembrar Gramschi quando escreveu:

“A crise consiste justamente no facto de que o antigo morre e o novo não pode ainda nascer: durante este interregno observar-se-ão fenómenos mórbidos dos mais variados.”

Ora, se deixarmos a América e nos voltarmos para a Europa não ficaremos mais descansados. Se olharmos para o caso francês vê-se que este parece tirado a papel químico do caso Bush-Obama ou de Trump-Clinton. Tal como no caso americano, haverá um terceiro candidato que pode complicar a vida a Marine Le Pen e a Macron na segunda volta. No caso americano foi Bernie Sanders que atrapalhava o jogo à alta finança. Convidou-se um especialista em assassinatos políticos, outrora a matar os políticos de esquerda como foi o caso dos Clinton, David Brock, que, agora convidado pelos mesmos Clinton, se encarregou de liquidar Bernie Sanders. No caso francês será François Fillon o candidato a ser politicamente assassinado. Já o foi! Cirurgicamente assim e no momento mais conveniente, antes de se abrir a campanha eleitoral em França. Um homem que veio apresentar como programa eleitoral, um programa assente numa forte austeridade para que a França, em nome de Madame Merkel, vá mais rapidamente ao fundo, e que se descobre, só agora, o que também é curioso, que não tinha moral nenhuma no que lhe dizia respeito, a ele, à sua mulher e aos dinheiros públicos. É o que dizem as crónicas.

Escândalo aberto, escândalo de ordem moral, François Fillon é pois desde já um candidato vencido. O sistema, o Deep State, este estado profundo, sem rosto e sem nomes que o assumam, que nos governa não quer correr riscos. Não se pode apresentar um candidato fraco face a Le Pen. A lição de Clinton-Trump está bem aprendida. Macron, captará as gentes do PSF de agora, as que foram do PSF e agora já não são, e captará também os votos de toda a direita francesa que não alinhe por Marine Le Pen. Dá-se uma ajuda assustando o eleitor com o espantalho da rutura do Euro e do caos que se lhe seguiria.

Como se vê, uma situação a papel químico da que se viveu nos Estados Unidos. No caso francês restarão pois na segunda volta, Marine Le Pen, uma espécie de Trump mas intelectualmente com outra tarimba, e Emmanuel Macron, o homem da alta finança, o homem que ainda não há muito tempo ninguém conhecia, tal como Obama quando venceu as eleições pela primeira vez, ou seja, teremos aqui com Macron o equivalente francês de Hillary Clinton, o representante do grande capital.

Macron já teve o cuidado de ir pedir a bênção a Madame Merkel! A submissão à imperatriz da Europa assim o exige. Veremos o que se seguirá depois.

Coimbra, 25 de Março de 2017.

Júlio Marques Mota

A série de 20 textos a publicar é a seguinte:

  1. Porque vai David Brock dizer o que for preciso a favor dos Clintons, Ian Tuttle
  2. O dispositivo Clinton para desacreditar Donald Trump, Thierry Meyssan
  3. O que fazer? Paul Craig Roberts
  4. Em Washington, a mascara da benevolência está a desintegrar-se, Paul Craig Roberts
  5. Bernie Sanders tem um plano para reconquistar os votantes de Trump, Sam Stein
  6. O ataque de Trump: o neoliberalismo riposta, Heiner Flassbeck.
  7. Trump relança Keynes, Jean-Luc Gréau
  8. O único erro de Trump : a desregulação de Wall Street, Marc Rousset
  9. Trump e a dialética da Nova Ordem Mundial, Auran Derien
  10. Modernizar os tratados ou pensar de outro modo! O México na incerteza, Auran Derien
  11. O plano de Trump e o dólar como moeda de reserva, Auran Derien
  12. Macron, candidato dos multimilionários e do sub-proletariado, Jean-Luc Gréau
  13. A economia francesa está num processo de terceiro-mundialização, Jean- Luc Gréau
  14. Davos, o teu impiedoso universo, Charles Gave
  15. François Fillon: um ultra liberal candidato do patronato, Michel Lhomme
  16. Macron apresenta-se como campeão da Europa em Berlim, Reuters
  17. Porque é que a cooperação de que se precisa não se irá verificar: Introdução sobre conversações entre Emmanuel Macron e Sigmar Gabriel sobre o futuro da Europa, Jürgen Habermas
  18. Macron, um perigo para a República?, Régis de Castelnau
  19. Mas porque é se consideram todos “anti-sistema”?, Entrevista ao filósofo Jacques Rancière
  20. Le cycle néolibéral touche à sa fin , Entrevista a Jean-Michel Quatrepoint

 

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