Da América à Europa, de Trump a Clinton, de Marine Le Pen a Macron, o estado subterrâneo em ação. Texto 5 – Bernie Sanders tem um plano para reconquistar os votantes de Trump, por Sam Stein

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

Texto 5. Bernie Sanders tem um plano para reconquistar os votantes de Trump 

por Sam Stein, 9 de março de 2107

O senador de Vermont afirma que o Partido Democrata mostrou uma “enorme negligência” que teve como resultado “um derradeiro fracasso.”

 

Video by JM Rieger and Jessica Carro.

Numa altura em que o Congresso está a debater uma vasta revisão do sistema de cuidados de saúde nacional, uma abordagem mais dura aos refugiados e imigração em geral, e as ligações entre o atual presidente e os interesses na Rússia, o Senador Bernie Sanders (Independente de Vermont) encontra-se cada vez mais fora dos poderes estabelecidos de Washington, em estados e cidades ganhas pelo Presidente Donald Trump.

Desde janeiro, o senador de Vermont esteve no Mississippi, Kansas e Michigan. Na próxima 2ª feira estará a caminho de uma das mais pobres comarcas na América, a comarca de McDowell County, West Virginia, que Trump ganhou por um ratio de 3-para-1. Sanders vê estes enclaves como sendo críticos para o futuro do Partido Democrata e, consequentemente, do país. Eles são, defende ele, locais onde os Democratas mostraram “uma imensa negligência.”

“A verdade é, e penso que qualquer um que avalie objetivamente a situação, tem de valorizar que o modelo que os Democratas seguiram nos últimos 10 a 20 anos foi um derradeiro fracasso,” disse Sanders em entrevista ao The Huffington Post desde o seu gabinete no Senado em Washington.

“É tão somente a evidência objetiva. Estamos a enfrentar um partido extremista de direita cuja agenda é rejeitada repetidamente e cada vez mais pela vasta maioria do povo americano. E contudo, perdemos a Casa Branca, a Câmara dos Representantes dos EUA, o Senado dos EUA, quase dois terços dos governadores e perto de 900 deputados legislativos por todo o país. Como pode alguém concluir que a agenda e a abordagem Democrata não foram um fracasso?”

Bernie Sanders tem um plano

O Senador Bernie Sanders discursa em 16 de fevereiro numa concentração de trabalhadores contratados, para celebrar a decisão de Andrew Puzder de recusar a indicação para ministro do trabalho. Sanders ultimamente tem também discursado para públicos fora dos circuitos dos poderes estabelecidos em Washington.

Sanders, claro, não é Democrata, apesar reunir com os Democratas no Senado desde há muitos anos e ter concorrido às primárias do partido para as eleições presidenciais de 2016. E frequentemente o seu diagnóstico sobre os fracassos dos Democratas surpreende aqueles que no partido estão eivados de condescendência. Mas o seu apelo a determinada classe de votantes, incluindo aqueles que abandonaram o partido em favor de Trump, é inegável, ao ponto de a liderança ter agido rapidamente a fim de refletir as suas propostas e cair nas suas graças. Este último verão, o partido adotou a sua plataforma mais progressista desde sempre, com muitas políticas fazendo-se eco de propostas de Sanders. A seguir às eleições de Novembro, o líder da minoria no Senado Chuck Schumer (Democrata de Nova York) deu um lugar a Sanders  na sua equipa e apoiou o seu candidato favorito ― Rep. Keith Ellison (Democrata do Minnesota) ― ao lugar de presidente da Comissão Nacional do partido Democrata.

Mas as plataformas são largamente protocolares. E os papéis de liderança importam pouco quando o partido está fora do poder. Assim, Sanders adotou aquilo que considera uma “estratégia exterior ao circuito dos poderes estabelecidos” (outside strategy) para complementar o seu novo estatuto enquanto jogador dentro desse circuito (an inside player).

“Ao final do dia, estar em minoria aqui no Senado, em minoria na Câmara dos Representantes, ter um presidente republicano de direita, o único modo de vencermos esta situação ― e penso que o podemos conseguir ― será quando milhões de pessoas se levantem, principalmente em estados ganhos por Trump e digam, ‘Desculpe-nos, não o elegemos presidente para nos atirar borda fora do sistema de cuidados de saúde. Não o elegemos para fazer cortes na assistência à infância de que necessitamos desesperadamente,’” disse ele.

À medida que ele percorre a América, muito daquilo que Sanders defende soa familiar. É o discurso que utilizou durante décadas e aquele que elevou a sua candidatura nas primárias do ano passado. É o aumento do salário mínimo, tornar gratuita a universidade pública, a necessidade de proteger e expandir o acesso aos cuidados de saúde e o encorajamento dos esforços de sindicalização dos trabalhadores, inclusive na fábrica da Nissan  em Canton, Mississippi. Aqui há um distinto recordar de algo conhecido comoWhat’s the matter with Kansas?” (Qual o problema com o Kansas)[1], com o pressuposto de que muitas pessoas que votaram em Trump o fizeram contra os seus próprios interesses.

E Sanders tem uma teoria quanto aos motivos disso. Em parte, explica ele, Trump conseguiu efetivamente virar um conjunto de votantes (classe trabalhadora branca) contra outro (imigrantes e refugiados) ao ponto de que os verdadeiros responsáveis (CEOs movidos apenas pelo lucro) escaparam a qualquer reprimenda ou castigo. “Isso é aquilo que os demagogos fazem sempre,” diz ele de Trump. “Pega-se nos fracos e indefesos e vira-se contra eles a maioria, e assim desvia-se a atenção das causas reais dos problemas que enfrentamos.”

Mas existe também um elemento pessoal que motiva as deslocações de Sanders. Os públicos a que se dirige não têm a dimensão das multitudes da sua campanha das primárias. Mas pertencem à mesma faixa de votantes: indivíduos que deixaram o Partido Democrata, que poderão nunca ter estado inscritos ou que à partida nunca foram politicamente ativos.

Se os Democratas querem reconquistar o poder ― e se Sanders concorrer novamente à Casa Branca ― o sucesso disso assentará no envolvimento desta faixa da população. Isso pode ser feito a partir de Washington D.C., e pode assumir a forma de resistência a Trump. Mas a aposta que o senador faz é que será mais duradouro se fores ter aonde as pessoas vivem com um discurso apaixonado, populista.

“Eu penso desde um ponto de vista moral bem como de boas políticas que não se pode estar somente na defensiva,” disse ele. “É necessária uma agenda proativa que una as pessoas para lutarem por uma nova América.”

Leia o original em http://www.huffingtonpost.com/entry/bernie-sanders-donald-trump-voters_us_58c1ac90e4b054a0ea68fa17

 

[1] Referência ao livro What’s the Matter with Kansas? How Conservatives Won the Heart of America, do jornalista e historiador Thomas Frank, publicado em 2004, que aborda a subida do conservadorismo populista anti-elitista nos Estados Unidos, focado na experiência do Kansas.

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