De uma crise a outra, dos anos de Miterrand aos anos de Hollande, da tragédia de outrora à farsa de agora. 1ª Parte: Os anos Miterrand, anos de inverno. Texto – 1.2 A histeria fascistoide do Presidente FN permite que se contenha a propagação das suas ideias, à direita. Sobre a utilidade de Le Pen. Por Serge July

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

1ª Parte: Os anos Miterrand, anos de inverno

Texto – 1.2 A histeria fascistoide do Presidente FN permite que se contenha a propagação das  suas ideias, à direita. Sobre a utilidade de Le Pen.

Por Serge July, publicado por Libération em 20 de novembro de 1998

Dividindo por dois a sua pena de inelegibilidade, os magistrados de Versalhes colocaram Jean-Marie Le Pen em cena. O risco de um demasiado longo eclipse permitiu medir de novo a importância do seu papel. Jean-Marie Le Pen tornou-se estranhamente indispensável ao bom funcionamento da democracia francesa. O principal travão às ambições políticas da Frente Nacional é, com efeito, ele próprio. O inventor da Frente Nacional trabalha com uma histeria megalomaníaca para a sua própria guetização. 16 anos depois da sua primeira entrada eleitoral, um quarto de século após a criação da FN, ele consegue, com um talento que espanta, auto-limitar os seus efeitos maléficos. Estes efeitos são já muito importantes, mas Jean-Marie Le Pen é, por si-só, uma verdadeira fábrica de criação de anticorpos contra ele próprio.

O confronto com Bruno Mégret[1] nada tem de anedótico.

Jean-Marie Le Pen defende uma conceção furiosamente “führer” da conquista do poder. Não quer ir para o governo como uma força secundária: quer ser presidente, eventualmente primeiro-ministro ou então nada. Prefere antes tudo destruir do que ser segundo numa coligação com a direita parlamentar. Bruno Mégret quer, pelo contrário, fazer sair a Frente Nacional do banco de suplentes para participar eventualmente no poder no quadro de uma coligação de direita plural. A geração Le Pen quer quebrar a força dos democratas e aspira a um triunfo ideológico das teses fascistoides. A geração Mégret, que tem apetite e impaciência, e tem, digamos, o futuro à sua frente, prefere os acordos às lengalengas da ordem negra e põe a participação no poder na primeira fila das suas ambições. Mégret multiplica os contactos e os compromissos enquanto Le Pen cultiva o carácter radical da velha extrema-direita europeia. Felizmente, poder-se-ia dizer aprofundando o paradoxo, que Jean-Marie Le Pen está na Frente Nacional para esterilizar as ambições do seu partido recordando infatigavelmente as suas origens, para obstruir a estratégia contagiosa dos partidários de Megret. Jean-Marie Le Pen encarna como pessoa um populismo autoritário e racista. Sem ele, estar-se-ia reduzido aos livros de história, para se ter uma ideia do caráter trágico das suas teses. Sem dúvida que os livros permanecem indispensáveis, mas não rivalizam com a demonstração diária que dá Jean-Marie Le Pen da história do racismo e do autoritarismo. Os seus discursos permanecem como o melhor dos cursos de instrução cívica. Graças a ele, é possível, em reação, formar gerações atentas ao que representam os seus deslizes semânticos, de reavivar as lembranças, de reanimar os valores democráticos que, por falta de ameaças, estariam em parte adormecidos. Do mesmo modo, as disposições legislativas contra o racismo são permanentemente solicitadas pelas declarações do líder Jean-Marie Le Pen: este confere-lhes realidade, quer seja na França, quer seja no Parlamento europeu ou na Alemanha. Jean-Marie le Pen, tal como em si mesmo, é um poderoso excitante para o antirracismo. Desperta vigilância e prevenção.

Jean-Marie Le Pen tem outra virtude paradoxal: como o seu partido próspera sobre a desertificação e sobre os desequilíbrios territoriais, sobre as múltiplas fraturas e violências sociais, ele força os partidos democráticos a estarem obrigados a obter resultados. Estes não podem demitir-se e abandonarem de forma definitiva segmentos inteiros da sociedade. A ameaça que ele deixa pairar, o militantismo gelado dos seus correligionários, tudo isto força à obtenção de compromissos diários para tentar melhorar, se não resolver, a equação do subdesenvolvimento social sobre o qual orgulhosamente finge estar apoiado. Jean-Marie Le Pen é um fermento da vida associativa e da militância social.  Por último, Jean-Marie Le Pen tem incontestavelmente uma função profilática. Noutras democracias, o equivalente de Frente Nacional não é senão um pequeno grupo residual porque as direitas liberais ocupam todo o terreno. Após alguns erros táticos, a direita parlamentar francesa renunciou a colorir o seu discurso com as tintas frentistas, dado que descobriu que podia ganhar eleições legislativas e presidenciais, e isto apesar da FN. A porta eleitoral da direita parlamentar é estreita, mas não está, contudo, fechada. A rejeição que Jean-Marie Le Pen suscita à direita e que ele mantém com um incrível deleite é uma espécie de ABS político, que leva a que formações da oposição evitem as derrapagens e as sacudidelas. As desventuras dos presidentes de regiões eleitos com os votos da FN são outras tantas picadas de advertência. Temos talvez, de certos ângulos e de certos pontos de vista, a direita mais estúpida do mundo, mas certamente não a mais comprometida com o populismo. Seguramente, todos nós devemos, em parte, ao lepenismo uma intensa poluição ideológica. Tem-se abusivamente manipulado os imigrantes e os códigos da nacionalidade. Mas a atualidade faz-nos recordar que a questão é compartilhada pela maior parte dos países da muito rica Europa, de tal modo que faz parte da interrogação decisiva sobre a natureza da soberania europeia. A preocupação política recente visando desativar esta questão, a fazê-la sair do campo de batalha eleitoral, se não resolver o problema, permite pelo menos desinflamá-lo em superfície.

A corrosão lepenista não está inativa e a sua ameaça está sempre latente. Preferiríamos não precisar de utilizar este meio mas a realidade, sendo o que é, leva a que seja necessário continuar a manter preciosamente Le Pen. Mesmo se isto é contra a sua vontade, o certo é que ele presta verdadeiramente muitos serviços à democracia.

Leia em http://www.liberation.fr/tribune/1998/11/20/l-hysterie-fascistoide-du-president-du-fn-permet-de-contenir-la-propagation-de-ses-idees-a-droite-de_251463

[1] N.T. Bruno Mégret (abril de1949) é um alto funcionário e político francês. Depois de ter sido membro do Rassemblement pour la République (RPR), dirigiu o seu próprio movimento, os Comités de Ação Republicana (CAR). Nos anos 1980 aderiu à Frente Nacional (FN), de que se tornou um dos principais dirigentes. Após a sua rutura com Jean Marie Le Pen em 1998, funda o Movimento Nacional Republicano (MNR), partido de extrema-direita e que se reclama da «direita nacionalista e conservadora».(Vd. https://fr.wikipedia.org/wiki/Bruno_M%C3%A9gret)

 

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