EDITORIAL: E A CULTURA, SENHORES GOVERNANTES? – por ANTÓNIO GOMES MARQUES

 

Se quisermos saber se um determinado país pode considerar-se desenvolvido, é bastante fazer-se uma análise do estado de apenas três itens: educação, ciência (incluindo nela a tecnologia) e cultura.

Pensando em Portugal, verificamos que apenas num ano de governo de António Guterres o orçamento de 2002 para a Cultura aprovado na Assembleia da República se aproximou do que é considerado o mínimo, que é 1%., atingindo 0,7%, mas começando a diminuir para 0,6% no ano seguinte Em todos os outros orçamentos, desde o 25 de Abril de 1974, o montante aprovado tem ficado muito longe de tal objectivo, o que não permite o desenvolvimento de uma cultura que se deseja para o país e que, portanto, nos pode levar à conclusão de que Portugal não é um país desenvolvido.

Se olharmos para o estado da Educação e para o estado da Ciência, apesar das verbas investidas, sobretudo na Educação, chegaríamos provavelmente a conclusões parecidas, mesmo não esquecendo os grandes progressos conseguidos nestas duas áreas no pós Revolução dos Cravos, parecendo-nos que os problemas existentes na Educação terão mais a ver com a gestão, enquanto na Ciência, para além de os apoios ainda não serem os suficientes, haverá que resolver o problema da fixação no país dos novos cientistas, o que só se conseguirá com uma estreita colaboração com as empresas.

Mas, neste texto, o que me interessa é falar da Cultura e de mais um facto que nos deverá indignar e que se refere a um exemplo de grande mérito, internacionalmente reconhecido, que tem a ver com os Bonecos de Santo Aleixo e com a BIME – Bienal Internacional de Marionetas de Évora.

Comecemos por falar um pouco dos Bonecos de Santo Aleixo e, depois, do facto de que queremos dar conhecimento a todos os leitores do blogue:

São títeres de varão, cujo tamanho varia entre 20 e 40 centímetros, manipulados por cima, como poderá verificar-se no vídeo https://youtu.be/PI2cLVqXFh8 e na imagem abaixo:

Comprovadamente, existem pelo menos desde o século XVIII, com o registo de uma acção de um representante da igreja católica, que podemos considerar inquisitorial, no ano de 1798.

Os seus textos foram sendo reelaborados, nomeadamente por um guarda de herdades da localidade de Santo Aleixo, de seu nome Nepomuceno. Mais tarde, os Bonecos de Santo Aleixo foram herdados pela mulher do Ti Manuel Jaleca e, depois, conservados por cerca de 30 anos por Manuel Talhinhas, cantador com grande capacidade de improvisação.

Foram Michel Giacometti — a quem muito deve a cultura popular portuguesa, é bom lembrá-lo — e Henrique Delgado que, em 1967, deram grande divulgação aos Bonecos de Santo Aleixo.

Em 1978 foram adquiridos pela Assembleia Distrital de Évora, tornando-se propriedade do CENDREV – Centro Dramático de Évora — fundado por iniciativa do saudoso Mário Barradas, com quem tivemos a felicidade de discutir muito sobre o teatro em Portugal e o teatro português, assim como sobre a cultura popular, às vezes discordando, mas sempre tendo presente a amizade que nos unia—, onde se encontram em exposição.

Terá sido esta aquisição que salvou os Bonecos de Santo Aleixo, hoje manipulados por um grupo profissional do CENDREV e ali formado, que levaram os seus espectáculos a quase todo o país, assim como a vários certames internacionais em Espanha, Bélgica, Holanda, Inglaterra, Grécia, Moçambique, Alemanha, Macau, China, Índia, Tailândia, Brasil, Rússia, México e França.

Estes actores, como nos diz Hernâni Matos, utilizam réplicas elaboradas por um artesão da aldeia da Glória (Estremoz), Joaquim Carriço Rolo, com um vasto repertório, bem característico da expressão artística alentejana. (1)

Por iniciativa do CENDREV, iniciou-se em 1987 a BIME – Bienal Internacional de Marionetas de Évora, a qual não se realizou em 2015, primeira interrupção, por falta dos habituais financiamentos europeus e nacionais.

Perante a impossibilidade da realização da Bienal de Junho de 2015, aconteceu nesse mesmo mês «uma cerimónia pública de assinatura de um acordo de colaboração entre o Cendrev, a Câmara Municipal de Évora, a Direcção Regional de Cultura do Alentejo e a Entidade Regional de Turismo onde se assumiu que, em virtude da ausência dos fundos comunitários, essa edição da BIME ficava agendada para Junho de 2016, o que não se veio a verificar porque continuavam os incompreensíveis atrasos nos financiamentos para a área do património e da cultura do novo quadro comunitário, que devia, nessa altura, estar a funcionar há dois ano e meio.» (CENDREV, «newsletter» de Junho corrente).

Agora, para concluir a informação, transcrevo da mesma «newsletter»:

«Era uma vez a BIME, era uma vez um certame que tem tudo para ser uma história de encantar. Era uma vez um ciclo que se interrompeu há tanto tempo que já era uma vez a última vez que se realizou. Mas como em tudo que começa com era uma vez, vamos fazer o que podemos para que a BIME regresse rápido à cidade!»

Entretanto, houve um novo projecto para Évora, intitulado CONFLUÊNCIAS, por iniciativa da respectiva Câmara Municipal, que não foi avaliado por razões, segundo a autarquia, que se prendem com a falta de um documento que nem sequer era exigido pelo programa comunitário Alentejo 2020 (vide a citada «newsletter» ou inscrevam-se, para passarem a recebê-la, no endereço: newsletter.cendrev@gmail.com).

E agora, pergunto:

  • Que se pretende? Acabar com os espectáculos dos Bonecos de Santo Aleixo, que têm sido a alegria de milhares e milhares de crianças e adultos?

  • Que tem o Senhor Ministro da Cultura a dizer? E o Senhor Primeiro-Ministro, que, ainda recentemente, mostrou ser sua intenção reforçar o orçamento da cultura?

  • E, mais importante, que têm os cidadãos portugueses a dizer sobre mais este ataque à Cultura e à Cultura Popular em particular?

Portela (de Sacavém) 2017-06-10

NOTAS

  1. texto de Hernâni Matos, in https://dotempodaoutrasenhora.blogspot.pt/2014/01/bonecos-de-santo-aleixo.html

About joaompmachado

Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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