A GALIZA COMO TAREFA – finis coronat opus – Ernesto V. Souza

Na arquitetura tradicional, com a obra terminada, colocava-se um ramo no topo. Daí inferia-se que a tarefa ficava pronta. Todavia hoje é costume para marcar em construção a finalização da estrutura quanto em diversos ofícios e trabalhos; coloca-se o ramo também para indicar que há vinho novo, ou para dizer que rematou a colheita.

É esse fim o que coroa a obra, seria extraordinário colocar um fim sem ter obra finalizada.

Podemos pensar que o ramo, numa obra académica ou ensaística, são as conclusões finais. Esse resumo ou essa síntese enunciativa que se conformou, provou e demonstrou através do aparato crítico, na análise de fontes, na experimentação e do discurso da obra.

Para mim, e desde o Século das luzes essa é a metodologia, tal e como a enuncia Martim Sarmiento, precedente do materialismo Marxista, ou representante – com o seu mestre Feijóo – de uma haskalá galega, no início da sua celebrada Memoria para la história de la poesia y poetas españoles, que correu escrita de mão e depois foi um dos poucos livros publicados do bieito. Mas este póstumo, impresso por Joaquim Ibarra em 1775, é fonte profusamente citada pelos eruditos e estudiosos das origens da poesia e da música na Espanha (compreendendo nela Portugal) e com saborosas indicações sobre a original da Galiza e a sua língua nos tempos mais antigos.

[…]14- Obra muy curiosa,y selecta sería una Historia general de la poesía, si exîstiese semejante obra. Si las fatigas de los Doctos se hubiesen reglado desde los principios tendríamos en menos número de volúmenes mas copia de excelentes noticias, que yá al presente ó son inaveriguables, ó están totalmente perdidas. No hallaré dificultad en proferir que la mayor parte de los libros que se han escrito de Historia, lo que menos contienen es lo que debiera ser el objeto principal de ella. (p. 6-7)

[…] 17- De esta inadvertencia se originó, que habiendo tantos libros con el título de Historias, que yo solo llamára Anales Polémicos, haya tan pocas historias de lo que mas nos importaba saber; y yá vivimos casi imposibilitados para averiguarlo. Sé que ya hay hoy Historias de la Philosophía, de la Jurisprudencia, de la Theología, de la música, de la Medicina, de la Matemática, &c. Pero por lo que mira al primitivo origen, mas son colecciones de tal qual fragmento, ó no inconcuso, ó no entendido, que verdadera Historia. (p. 7-8)

[…]18- A la poesía le ha sucedido lo mismo. No ignoro que hay Historias de la Poesía de esta, ó de la otra Nación; pero al querer señalar el cierto origen, ó se copian, ó se contradicen unas á otras. Comun defecto es este á todo género de Historiadores, que ó recurren á siglos fabulosos, quando no hallan que decir, ó molestan, como dicen, ab ovo ad mala, quando hallan mucho que copiar. A este tenor no sería difícil componer una Historia general de la Poesía, en vista de lo mucho que hay escrito sobre ella, creyendo á ciegas, y copiando a bulto. (p. 8) […]

MEMORIAS PARA LA HISTORIA DE LA POESIA, Y POETAS ESPAÑOLES. OBRAS POSTHUMAS DEL R.MO P. FR. MARTIN SARMIENTO BENEDICTINO. TOMO I. JOACHIN IBARRA IMPRESOR MADRID MDCCLXXV.

É muito importante a metodologia, mas mais o rigor na análise, a verificação continuada das fontes e dos resultados. Importa verificar com os próprios olhos, não acreditar a cegas nem copiar a vulto, senão antes submeter ao próprio critério e ao pensamento.

Não poucas e fundamentais descobertas científicas e humanísticas aconteceram no decurso de pesquisas mal ecaminhadas, ou precisamente por re-considerar ou re-questionar metodologias pre-estabelecidas, métodos da tradição, ou supostos pre-conceituosos.

Na minha própria experiência foi a pesquisa, misturada com o hábito crítico a que me levou constantemente a resultados diferentes e muito mais amplos e interessantes, do que a metodologia, o argumentário aprendido, a bibliografia recomendada e as propostas de quem me meteu nas pesquisas me deveriam ter levado.

Quantas vezes uma pesquisa rigorosa e pessoal não nos levou a refutar o comumente aceite ou o estabelecido?

Mas é isto possível hoje? no mundo académico? Num mundo de formalidades e burocracias, onde as pesquisas se predeterminam, onde as linhas de investigação vão definidas pelo aprendido nos Masters e aceites ou refutadas previamente e no decorrer delas por expertos na área? é possível quando as pesquisas se enquadram em linhas de investigação constringidas a objetivos, metodologia, grupos de trabalho e a resultados e considerações mediatizadas por esquemas, grupos de expertos, consideradas por “pares” já consagrados e resultados prévios?

Resulta curioso comprovar como nestes tempos de explosão do conhecimento (explosão como não se via desde a aparição da imprensa, o microscópio, o telescópio e dos métodos científicos) impera de novo o Neo-Aristotelismo, no mundo académico.

Deixa-nos perplexo cada dia mais a consulta dos trabalhos académicos mais atuais. Que vantagens obtemos desta neo-escolástica? as mesmas que o intrépido Dr. Sanchez tirava do famosíssimo Aristóteles e dos seus discípulos? e ante a que nos aconselhava “fugir deles e refugiar-se na realidade das cousas”. E se Aristóteles, mesmo sendo Aristóteles e tudo, não podia dizer mais que aristoteladas, que outra cousa poderão dizer hoje os mais sabidos doutores?

Realmente não estaremos caindo nas mesmas armadilhas contra a que já nos advertia Lord Bacon no seu Novum Organum:

A reverência à Antiguidade, o respeito à autoridade de homens tidos como grandes mestres de filosofia e o geral conformismo para com o atual estádio do saber e das coisas descobertas também muito retardaram os homens na senda do progresso das ciências, mantendo-os como que encantados. Desse tipo de consenso já falamos antes.
[…]Por outra parte, não é de se desprezar o fato de que, pelas navegações longínquas e explorações tão numerosas, em nosso tempo, muitas coisas que se descortinaram e descobriram podem levar nova luz à filosofia. Assim, será vergonhoso para os homens que, tendo sido tão imensamente abertas e perlustradas em nossos tempos as regiões do globo material, ou seja, da terra, dos astros e dos mares, permaneça o globo intelectual adstrito aos angustos confins traçados pelos antigos.
No que respeita à autoridade, é de suma pusilanimidade atribuir-se tanto aos autores e negar-se ao tempo o que lhe é de direito, pois com razão já se disse que “a verdade é filha do tempo, não da autoridade”. Novum Organum. “Aforismos sobre a interpretação da natureza e o reino do homem”, LXXXIV.
E sabemos mais e temos mais que em nenhum momento da história antes ferramentas de pesquisa e observação, porém continuamos presos das mesmas ligaduras e preconceitos que os nossos precedentes. Desconfiemos das escolas e das metodologias únicas e deixemos às mentes pesquisar livremente. Treinemos a inteligência, a crítica e a observação com os próprios olhos. Não vaiamos preparando o ramo antes de ter feito a pesquisa.
Tomarei hoje do Doutor Sanches o ramo da perplexidade céptica: porque parece lógico conjeturar que os caminhos trilhados, conduzem apenas a lugares esperados.

Quae docentur non plus habent virtium,
quàm ab eo qui docetur
accipiunt*

QVID?

FINIS

[*O que se ensina não tem mais virtude que a que recebe daquele que o ensina]

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