Crise da democracia, crise da política, crise da economia: o olhar de alguns analistas neoliberais – 15. Reflexões sobre a economia alemã. Uma abordagem macroeconómica. Parte 7: A alteração nos saldos financeiros dos setores económicos, 1950 – 2010. Por Egon Neuthinger

Seleção e tradução por Francisco Tavares, revisão de Júlio Marques Mota

Crise da democracia texto 13 analise ciclo economico

15. Reflexões sobre a economia alemã. Uma abordagem macroeconómica. Parte 7: A alteração nos saldos financeiros dos setores económicos, 1950 – 2010.

 

 

Por Egon Neuthinger, antigo funcionário do Ministério das Finanças da Alemanha  e colaborador em diversas instituições de investigação.

Publicado por Flassbeck-economics em 31 de agosto de 2016  flassbeck_logo

1.A posição financeira dos setores económicos

A década de 1950 -1960   foi uma década de forte acumulação e crescimento. O PIB cresceu a uma taxa anual de 8 % . A política do governo foi orientada de forma determinada para a promoção, através da política fiscal, dos investimentos das empresas. Houve, além disso, uma procura relativamente forte de bens de consumo devido à acumulação vinda dos anos de guerra. Os salários reais aumentaram consideravelmente, embora tivessem permanecido claramente abaixo do crescimento da produtividade. A taxa de desemprego permaneceu elevada, embora estivesse a diminuir. As poupanças dos agregados familiares eram, naturalmente, baixas a princípio; o saldo financeiro do setor das famílias manteve-se relativamente baixo, em cerca de 4 ½ % do PIB, embora tivesse crescido durante este período.  O setor das empresas atingiu lucros não distribuídos elevados (inflação de lucros) mas o seu saldo financeiro registou um défice de -6 1/2 % do PIB. Portanto, o saldo financeiro do setor privado, nos anos 50, foi em média negativo, à volta de 2% do PIB.

A notável contrapartida do défice financeiro do setor privado foi o excedente do setor público, em média de cerca de 4% do PIB; na Alemanha este excedente foi apelidado de “Schaeffer’s Juliusturm”. Schaeffer foi o primeiro ministro das finanças da Alemanha Federal. Este saldo governamental foi, assim, fortemente restritivo sobre a economia interna e atuou contra as tendências inflacionistas do setor privado, embora parte deste excedente público tenha sido aplicado em empréstimos ao setor privado da construção. O elevado excedente do setor governamental permitiu até um excedente da conta corrente nos anos 50 de 1 ½ a 2% do PIB.  A ação combinada dos operadores dos setores domésticos acompanhada da elevada taxa de câmbio do dólar, de 4,20 DM, lançou as fundações do posterior surgimento dos excedentes estruturais da conta corrente. Mas, contrariamente ao que se passa hoje em dia, havia então um vivo e altamente qualificado debate sobre as ligações entre o excedente do setor público e o da conta corrente. Mas por fim, de qualquer modo, foi a política abrangente de então do Bundesbank que levou aos excedentes da conta corrente a seguir à década dos anos 50.

O objetivo do Bundesbank e do governo era integrar a economia alemã tão rapidamente quanto possível na economia mundial. O rótulo “exportação de capital e pleno emprego” pode ser assim descrito, desde o início, como o lema dominante do desempenho da economia alemã. Esta explicação pode ser vista também à luz do muito celebrado lema “Wirtschaftswunder” (milagre económico) que na Alemanha é enaltecido como sendo o resultado da “libertação dos mercados” no domínio das políticas que introduziram e institucionalizaram a economia de mercado:  Neo – ou ORDO liberalismo que defende fortes leis da concorrência para impedirem monopólios ou atividades limitadoras da concorrência. Este enquadramento (Rahmenbedingungen) é visto como um elemento fundamental do meio ambiente político. Mas a promoção massiva do investimento e políticas de reforço dos lucros estiveram também por detrás deste resultado. Isto ocorreu com base numa profunda reforma da moeda/monetária e numa acentuada redução das elevadas dívidas internacionais alemãs. Neste contexto, deve relembrar-se que também outros países, por exemplo a França, tinham elevadas taxas de crescimento neste período; e a fase de acumulação na Alemanha terminou pouco depois. Os anos 60 caracterizaram-se por uma mudança na relação crescimento-preços. O crescimento real do PIB foi, em média, de 5% ao ano e era ainda, deste modo, equilibrado. Mas, ao mesmo tempo, registou-se o gradual aumento da taxa de inflação, em torno de 3% e mais anualmente. Os sindicatos procuraram cada vez mais restaurar uma distribuição do rendimento mais equitativa através da garantia de salários reais. A taxa de desemprego caiu radicalmente para 1 ½ e 2%. O governo aplicou em 1961 uma apreciação do DM a fim de reprimir a inflação e em 1963 abriu a possibilidade de atrair trabalhadores estrangeiros. Simultaneamente, logo em 1963, o governo começou a trabalhar sobre o estabelecimento de leis e normas com o fim de estabilizar a economia, o que levou em 1967, no âmbito da primeira grande coligação, à “Lei de Promoção da Estabilidade e Crescimento da Economia” (Gesetz zur Förderung der Stabilität und des Wachstums der Wirtschaft). Após a primeira indiscutível recessão em 1967, o PIB real e a procura de mão-de-obra aumentaram a taxas elevadas nos finais dos anos 60; os sindicatos conseguiram substanciais aumentos de salários; os custos unitários nominais do trabalho aumentaram fortemente, de 2 ½ % no início dos anos 60 a 5 ½ % no final desses anos. Em reação a esta situação surgiram vivos debates e proposições com significativo número de comentários, mas que se ativou apenas no início dos anos setenta, demasiado tarde e excessivamente prudente.

2. A situação nos anos de 1960

Neste ambiente macroeconómico se enquadra uma visível alteração na estrutura dos saldos financeiros setoriais. Nos anos 60 o saldo financeiro dos agregados familiares aumentou para perto de 6 ½ % do PIB contra 4 ½ % nos anos 50, refletindo rendimentos líquidos mais elevados e disponíveis e crescentes taxas de poupança. O saldo financeiro do setor empresarial manteve-se consideravelmente negativo em 6 ½% do PIB, influenciado principalmente pela recessão de 1967; foi o défice médio mais elevado em relação ao PIB durante todas as décadas: Com um investimento relativamente alto por parte das empresas, apenas interrompido durante a recessão de 1967, o cash flow das empresas – depreciação e lucros retidos – decaiu e levou aos já mencionados défices financeiros relativamente elevados do setor empresarial. Mas apesar desta, afinal, não muito pesada deterioração, o défice financeiro do setor privado melhorou e reduziu-se quase até zero, atingindo mesmo um pequeno excedente na segunda metade dos anos 60 em virtude da dinâmica melhoria do setor das famílias. E caracteristicamente significativo: em todas as décadas que se seguiram o setor privado esteve sempre excedentário, especialmente na segunda metade dos anos oitenta em que atingiu 5% do PIB. Posição contrária teve o setor público. O elevado excedente dos anos 50 decaiu logo na primeira metade da década de 60 e passou para um défice financeiro de ½ %, em média, na segunda metade dos 60. Neste sentido, o setor público atuou como força equilibradora evidenciando a carácter instrumental do saldo orçamental. A absorção pela procura interna aumentou marcadamente com a forte deterioração do saldo financeiro do setor público. E isto manifestado num excedente em declínio da conta corrente de cerca de ½ do PIB nos anos 60.

3. O desenvolvimento dos saldos financeiros nos anos de 1970 e de 1980

Durante os anos 70 a turbulência e instabilidade mundiais estão claramente refletidas nos saldos setoriais. Responsável, em primeiro lugar, pela turbulência estiveram a quebra do sistema de Bretton Woods de taxas de câmbio fixas mas ajustáveis, as subidas de preços do petróleo em 1974 e em 1979, a quebra associada das taxas de produtividade e eventualmente com tudo isto em conjunto crescentes taxas de inflação.

A economia alemã entrou na década de 70 com crescentes taxas de inflação. Após a quebra de Bretton Woods, as revalorizações promovidas sob a forma de restrição à exportação de capitais não tiveram os efeitos esperados. Em 1973/74 foi aplicado um pacote orçamental restritivo. Mas a recessão iniciada em 1974 levou a uma reviravolta na política orçamental. Após uma forte retoma em 1976, com um crescimento do PIB acima de 5%, foi aplicado outro ligeiro pacote orçamental restritivo. Mas, quando em 1977 a economia alemã, bem como a de outros países desenvolvidos, mostrou novamente fortes sinais de afrouxamento e regressão, os decisores políticos alemães participaram numa ação concertada de expansão orçamental, aprovada na Cimeira de Colónia de 1978 de acordo com a visão do “do ut des” (toma lá, dá cá). O resultado foi outro forte aumento do PIB alemão em 1979 e 1980/81. Mas, em ligação com a imprevista segunda subida de preços do petróleo de 1979, o então elevado excedente da conta corrente passou, em 79/81, para défices de cerca de 1 ½ % do PIB em média. O Bundesbank virou-se para uma política monetária restritiva a fim de combater a inflação e, principalmente, para recuperar a conta corrente, ou seja, recuperar e proteger a capacidade de uma economia monetária.

Os anos 70 caracterizaram-se, assim, por um lado, pelo esforço de uma política orçamental contra-cíclica – definida negativamente como “stop and go” – e por vezes apoiada pela política monetária- e, por outro lado, principalmente uma política monetária que tinha por objetivo conter a inflação e assim recuperar a estabilidade no final da década. Em relação aos saldos setoriais, o setor das famílias atingiu crescentes excedentes, com uma média de 7 ¾ % do PIB, uma fase dos mais elevados excedentes financeiros, em média, em décadas. Isto foi a consequência de elevados aumentos dos rendimentos do trabalho (inflação do rendimento) e de altas taxas de poupança. O saldo financeiro negativo do setor das empresas permaneceu elevado na primeira metade da década, mas diminuiu acentuadamente na segunda metade. Em média o défice financeiro do setor das empresas diminuiu para cerca de 5 a 5 1/2 % do PIB, sendo assim mais baixo em cerca de 1 % do PIB do que nos anos sessenta. Isto foi o resultado de investimentos fixos bastante baixos principalmente nas fases mais avançadas da década. Um declínio significativo mostrava uma retenção de lucros próxima de zero no final da década. As fatores principais do financiamento do investimento eram as depreciações. Contudo, considerado em conjunto o setor privado melhorou novamente o seu saldo financeiro para uns 2 ½ % do PIB em média, enquanto na segunda metade teve mesmo um excedente de quase 4% do PIB em média. O reflexo desta evolução manifestou-se no posterior aumento do défice financeiro do setor público, com uma media aquém de 2 % do PIB e quase 3 ½ % do PIB na segunda metade da década, como consequência da recessão de 1975 e do pacote orçamental expansionista de 1978. Mais uma vez o grau de absorção aumentou nos anos 70 e foi acompanhado por um declínio do excedente da conta corrente de menos de ½ a 1% do PIB.

Novamente estas alterações de estrutura são, em primeiro lugar, um indicador e a afirmação da função instrumental do setor público. A impressionante constelação de mercado nos anos 70 consistia na evidente deterioração da posição financeira do setor das empresas na primeira metade da década, com efeitos negativos no investimento fixo. A política orçamental expansionista destinava-se a estabilizar a procura agregada com custos nominais unitários do trabalho mais baixos e a regenerar os rendimentos das empresas e posição financeira e a promover o investimento fixo. Na verdade estes desejos foram concretizados. Os custos unitários nominais do trabalho e o deflator do PIB diminuíram, e os rendimentos empresariais e os meios financeiros do setor das empresas aumentaram bem como o investimento fixo. Assim, tal como alguns economistas afirmaram, um ciclo virtuoso global emergiu. Todavia, em virtude da segunda vaga de aumento de preços do petróleo no final dos anos 70, juntamente com a forte restrição na política monetária que se seguiu – com o argumento de combate à inflação e de restauração do défice na conta corrente- esta retoma bastante satisfatória foi interrompida.

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(continua)

Texto original em http://www.flassbeck-economics.com/reflections-on-the-german-economy-a-macroeconomic-approach-part-7-the-change-in-the-financial-balances-of-the-economic-sectors-1950-2010-by-egon-neuthinger/

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