ESTA É TAMBÉM A MINHA TERRA por Luísa Lobão Moniz

Tranca-se a janela e dá-se um passo atrás.

Fecha-se a porta e afasta-se, não vá alguma bala perdida ir certeira para a porta que tenta proteger quem está do outro lado.

São correrias, sapatos e botas quase que voam para apanhar o infractor, quem é o infractor?

Perante a opinião pública é sempre o outro. Mas no caso da Cova da Moura a maioria é de origem Africana e, nesse espaço, o diferente é o branco português que quando lá entra ou vai em paz para fazer estudos antropológicos, ou vai para lá viver nas mesmas condições de todos.

Esta comunidade é orgulhosa do seu bairro, ensina as crianças a falar português… Estes querem a sua inclusão na comunidade, sem violência.

O intruso, o diferente é a Polícia que não pede licença para insultar, ameaçar, bater, prender, estes não querem a inclusão do outro.

As Esquadras da Polícia que servem populações mais sensíveis devido à sua condição cultural, económica, de medo porque alguns estarão em situação ilegal, as esquadras deveriam proteger estas populações com acções de rua, de visibilidade positiva.

A imagem transmitida pela comunicação social e que é importante para a construção da identidade de cada um, para a formação de representações negativas sobre estes bairros e população é a transmissão de valores não totalmente ultrapassados como o racismo, a xenofobia.

É fácil atribuir o mal das sociedades aos que vêm de fora, que vão ter direito a casa, à escolaridade dos filhos ou deles próprios, a subsídios.

As famílias africanas, no geral, são muito generosas mas podem ser também muito agressivas quando se defendem daqueles que os ofendem ou daqueles que não os aceitam.

Os polícias também têm a sua representação sobre os Africanos, são violentos, traiçoeiros, estão cá a mais, não têm educação e são delinquentes. Vendem e traficam drogas, vendem armas. O reconhecimento dos africanos é um reconhecimento negativo perante os outros.

Muitos já nasceram em Portugal, por isso, tal como eu têm nacionalidade portuguesa.

Se alguém, na rua me insultar, bater, ameaçar, prender, torturar eu faço queixa no Ministério Público.

Serei tratada com atenção. Sou branca, portuguesa, sei ler, sei onde me dirigir, se for necessário, tenho emprego. O que acontecerá aos polícias, não sei.

O que sei é que quero acreditar naqueles que devem proteger os cidadãos.

No curso Superior da Polícia deveria haver informação, conhecimento sobre as populações onde vão trabalhar, saber as organizações familiares e seu papel perante os seus elementos. Deveriam aprender os seus códigos de conduta.

Assim, aprenderiam necessariamente, que apesar da cor da pele o sangue corre nas veias da mesma maneira, que estão sujeitos a vários setresses sociais, culturais, económicos como todos os portugueses brancos.

Só que os brancos portugueses sentem-se os donos desta terra e perante qualquer ameaça ao seu dia-a-dia reagem violentamente por palavras e por actos.

O episódio da esquadra de Alfragide tem que ser tratado com pinças para que seja afastada a ideia de que Portugal é um país racista. O país tem episódios de racismo graves, de violência doméstica, de maus tratos a crianças…

O racismo é também uma forma de violência que ultrapassa os limites da racionalidade.

 

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