13. A semana onde a esquerda virou à direita – PARTE IV

“O franco forte” não figurava no entanto entre “as 110 propostas para a França” do candidato François Mitterrand. A redução do desemprego, essa sim, essa estava: em dez anos desta política, a barra dos 3 milhões de desempregados é ultrapassada. Durante a mesma década, os dividendos dos acionistas triplicaram, quase: o capital comeu 8 % do valor acrescentado ao trabalho.

Os socialistas franceses têm mais de 30 anos de avanço sobre a Troika a defenderem as políticas de austeridade.

Crónica sobre os anos 80, sobre “Viva a Crise! “ – Texto 13 – Parte IV

(Por François Ruffin, Abril de 2013)

finance

25 Março 1983 – Palavra

Então conselheiro económico no Eliseu, François-Xavier Stasse recorda-se “perfeitamente da reunião de gabinete de 25 de Março. Todos nós tínhamos o sentimento que estávamos a mudar de época, que a esquerda tinha dado o salto para o realismo económico, que era irreversível”.

À noite, no telejornal, Pierre Mauroy, confirmado em Matignon, anuncia um plano de austeridade que “não tinha sido encarado”. Majoração do imposto sobre o rendimento, empréstimo obrigatório, taxa sobre a gasolina, e sobretudo: desindexação dos salários – que deixa de seguir automaticamente a inflação . No telejornal ds 20 horas, sempre, Jacques Delors é interrogado: “À primeira vista, sublinha o repórter, tem-se a impressão que são as empresas que se saem o menos mal possível, porque se evita  sobrecarregar as suas pesadas cargas.

— Por uma razão simples. Queremos que possam investir e criar empregos “, replica o futuro presidente da Comissão. De tudo aquilo, Pierre Mauroy felicita-se nas suas Memórias: “Volto ao meu trabalho, para lançar este formidável movimento que se chamou a política de rigor, que se traduziu por um bloqueio dos preços e dos rendimentos nunca visto na França […] Eu cheguei com a inflação a 14 % antes do fim do ano de 1982 e será menos de 10 %, enquanto em 1983 será de 8 % e seguidamente estaremos sobre a tendência de 5 %. E, pois bem, mantivemos a nossa palavra.”

Que palavra ?

“O franco forte” não figurava no entanto entre “as 110 propostas para a França” do candidato François Mitterrand. A redução do desemprego, essa sim, essa estava: em dez anos desta política, a barra dos 3 milhões de desempregados é ultrapassada. Durante a mesma década, os dividendos dos acionistas triplicaram, quase: o capital comeu 8 % do valor acrescentado ao trabalho.

29 Maio 1983

Dois meses após a sua saída do governo, Jean-Pierre Chevènement protesta em frente da convenção nacional do Partido socialista: “A história julgar-nos -á, e tanto mais severamente quanto, ao contrário de que se tinha passado sob o Frente popular, o povo deu-nos, em 1981, todas as responsabilidades. Tudo se passa como se a política governamental atual tenha por filosofia implícita: é necessário assegurar a convergência das políticas económicas com a Alemanha e os nossos vizinhos europeus… Trata-se de um parêntese, de acordo com a expressão de Lionel Jospin? Há infelizmente demasiados sinais em sentido contrário. Acredita-se estar a abrir um parêntese, e seguidamente apercebemo-nos que é uma viragem, e rapidamente a seguir. Se não reagirmos, esta viragem assume a figura do destino!”

E no seu livro Desafios republicanos, acrescenta:

“Como teria gostado de que em Março de 1983 François Mitterrand assumisse a sua independência face a um Sistema monetário europeu preparado pelo seu antecessor, defendido com unhas e dentes por qualquer tecnoestrutura liberal e de que o meu colega alemão me dizia com uma ponta de cinismo que funcionava como “um sistema de subvenções para a indústria alemã”! Isto teria sido uma alteração da face da Europa mostrando a nossa liberdade no que diz respeito à condicionalidade que nos queriam impor. Isto teria sido o permanecermos fieis ao sentido que, desde há dez anos, tínhamos querido imprimir preto no branco à nossa política. A esquerda teria perdido em 1986, mas sobre as suas bases, e a sequência teria sido diferente. O Partido socialista teria vertebrado na Europa uma política realmente alternativa cuja hora teria acabado de soar. Em vez disso, o Partido socialista desceu ao nível de assumir o papel de paladino da ortodoxia liberal e monetarista.”

15 Setembro 1983 – A reviravolta assumida

O presidente volta à televisão, após seis meses de relativo silêncio, e aquando desta emissão excecional intitulada L’Enjeu, a reviravolta é agora assumida, a modernidade da mudança é reivindicada. “A luta de  classes não é para mim um objetivo. Procuro que esta deixe de existir! ” proclama François Mitterrand que, durante todos os anos de 1970, denunciava “uma luta de classe entre este pequeno grupo de privilegiados e a massa dos assalariados”, entre “o operário especializado, dominado, oprimido, forçado até à revolta” e “os donos do dinheiro, o dinheiro, o dinheiro, os novos senhores, os donos do armamento, os donos dos computadores, os donos dos produtos farmacêuticos, os donos da energia elétrica, os donos do ferro e do aço, os donos dos solos e dos subsolos, os donos do espaço, os donos da informação, os donos das ondas”. Ei-lo, pois em direto na TF1, que reabilita o lucro à esquerda (“Eu não sou, de modo nenhum inimigo do lucro, desde que o lucro seja justamente repartido”), que impõe os critérios de Maastricht antes de Maastricht (“ não se poderá ter um défice orçamental de mais 3 % da produção interna bruta”), que denuncia as “cargas excessivas” (“ demasiado imposto, mata o imposto. Asfixia-se a produção, asfixiam-se as energias. Chega um momento em que isto é insuportável, e este momento chegou”), e Mitterrand fecha, sobretudo, a porta a uma “ outra política”: “Penso, eu, que há apenas uma política possível nas circunstâncias presentes. ” A TINA de Margaret Thatcher, There is No. alternative, não está muito longe disto. E o presidente caricatura então esta alternativa que, num outro tempo, no entanto, tinha sido das suas preferências: “Esta única política possível proíbe o protecionismo. Para bem me fazer compreender, isto significa  que se feche total ou parcialmente, as nossas fronteiras, a todos os produtos, ou a certos produtos, para evitar ser invadido. Eu  acredito que o mundo moderno, a redução do planeta e seguidamente a presença da França no mercado comum, exigem que a França jogue o jogo. (…) Eu, eu tenho confiança na produção francesa, e sou contra o protecionismo.”

 “Rigor” obriga, o desemprego ia crescer 25 % num ano. A Frente Nacional ultrapassaria, pela primeira vez, os 10 % na Primavera seguinte. Os primeiros contratos precários ditos TUC – trabalhos de utilidade coletiva – são aprovados em Dezembro de 1984. E para o Natal de 1985, abriram os restaurantes Restos du cœur. “É necessário ser-se cruel – ou “brutal”, conforme as fontes – confia o presidente a um Pierre Mauroy preocupado de moderar a rutura industrial. Estaleiros navais, carvão, aço, automóvel: tudo passa, portanto, “setor a setor”, pela trituradora chamada “reestruturações”. “Os socialistas fazem a limpeza que nós não soubemos fazer”, concederá Alain Juppé – enquanto que Laurent Fabius, em 1986, no final da sua passagem por Matignon, se orgulha de ter efetuado “o trabalho sujo, que não tinha sido feito antes”: “É a esquerda e é a sua coragem e é  sua a  honra de o ter feito. ” Uma vez este destino escolhido, caberia agora avançar por este caminho, do Ato único à Constituição para a Europa, passando pelos tratados de Maastricht, de Amesterdão, de Lisboa. Porque no meio de todas estas traições, continua a estar bem viva uma fidelidade: ao compromisso europeu.

1 Maio 2013 – Um ano

Podia-se compreender esta escolha em 1983: Reagan acaba de ser eleito nos Estados Unidos, Thatcher na Grã-Bretanha, Kohl na Alemanha. E sobretudo: é de modo ideológico que o neoliberalismo está com o vento em popa, as teses de Hayek e de Friedman invadem e dominam, na imprensa francesa, nas universidades, nos intelectuais. Enquanto o socialismo, sem falar já do comunismo, torna-se sinónimo de nulidade, de mediocridade .

Neste contexto, a “ outra política” teria constituído, infalivelmente, uma cidadela sitiada. Mas hoje! é o liberalismo que aparece, pelo contrário, sem fôlego, sem força. O voto no referendo de 2005, a crise financeira de 2008, as manifestações massivas contra “as reformas” (1995, 2004,2006,2010), as sondagens sobre o euro ou o protecionismo, muitos sinais demonstram que este modelo está minado, está em total desacreditação. E que o povo francês, e os povos à sua volta como Portugal, Itália, Espanha, Grécia, estão na expectativa de ruturas. Aí está o que oferece uma margem de manobra para efetuar “outra política”, a definir, mas enfrentando os dogmas do comércio livre e da moeda, para fazer um 1983 ao contrário, “uma viragem ” em sentido contrário. E é neste período que François Hollande, quase a contracorrente da história – que, esta vez, poderia virar à esquerda – é neste momento crucial que François Hollande, em vez de agarrar esta possibilidade, em vez de fechar “o parêntese liberal”, aplaude este conformismo, se instala cobardemente dentro dele e reclama-se “do realismo” de 1983, nada tentando, nada ousando, ligando o nosso destino à Alemanha, ao estar a apelar ao rigor, gravando o parêntese liberal no mármore socialista. No dia 2 de maio de 1993, no dia seguinte ao do seu suicídio, o antigo Primeiro-ministro Raymond Barre, o inventor “da austeridade”, saudava em Pierre Bérégovoy “um homem corajoso e responsável”: “Homem corajoso porque, tendo em conta a sua equação pessoal, foi levado a tomar decisões que deviam necessariamente suscitar reações nos que lhe eram mais próximos. Homem responsável porque media a necessidade, sobre o plano nacional e internacional, de tomar medidas dolorosas e rigorosas. ” François Hollande procurará ele a mesma homenagem póstumo da direita, que elogiará a sua “coragem” e o seu “sentido das responsabilidades”? Felicitando-se por sua vez de ter feito “o trabalho sujo”!

(O décimo quarto texto desta série será publicado amanhã, 17/07/2017, 22h)


Texto original aqui

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