A SITUAÇÃO E O FUTURO DA CAIXA GERAL DE DEPÓSITOS E DOS SEUS TRABALHADORES – por EUGÉNIO ROSA – I

 

 

DESPEDIR TRABALHADORES, FECHAR AGÊNCIAS, VENDER ATIVOS, E TRANSFORMAR A CGD NUMA “Caixinha”: Será este o plano da administração de Paulo Macedo para a Caixa Geral de Depósitos?

A situação atual e o que se está a passar na CGD devia merecer uma atenção muito especial por parte de todos os portugueses e, nomeadamente, por aqueles que defendem o banco público, como instrumento fundamental para o crescimento económico sustentado, para o desenvolvimento do país e para a independência nacional. Não basta fazer grandes declarações sobre o controlo público da banca, considerar que a CGD é uma peça fundamental para a recuperação económica do país, e depois não prestar a devida atenção em relação àquilo que está em curso na CGD. E tudo isto ganha uma importância maior quando a maior parte do setor financeiro português já está sob o controlo estrangeiro. Elaborei este estudo, num momento extremamente difícil para a CGD e para os trabalhadores da CGD. Ele tem como objetivo mostrar que, contrariamente ao que afirma a administração e seus mentores, incluindo a comissão europeia, há outras alternativas. É o meu contributo na defesa da CGD e dos seus trabalhadores, esperando que ele seja útil.

1. A AMEAÇA REAL DE DESPEDIMENTOS NA CGD E A INFORMAÇÃO QUE OS TRABALHADORES DEVEM CONHECER: o governo diz que não haverá despedimentos mas Paulo Macedo quer fazer despedimentos

Contrariando as declarações e compromissos tanto do 1º ministro como do ministro das Finanças, a administração da CGD divulgou em 26/6/2017, um designado “Programa de Revogações por Mutuo Acordo” (RMA) em que é dado a todos os trabalhadores das “entidades do grupo CGD” a oportunidade para se candidatarem livremente, até 26 de Setembro, ao despedimento voluntário ou àquilo, que a administração da CGD designa por programa para “cessar os respetivos contratos”, ou então (e esta parte é que é grave e viola os compromissos públicos do governo) sujeitam-se à “inclusão no programa RMA” (programa de despedimentos) ser realizada “por iniciativa da CGD ou de Entidades do grupo CGD, de trabalhadores cujos  postos, atentas as necessidades de reorganização e os objetivos estabelecidos deverão ser suprimidos”. E os trabalhadores a “suprimir”, de acordo com a administração da CGD, vão ser identificados com base na “avaliação de desempenho, o custo, o absentismo, e as habilitações académicas”, ou seja, em critérios muito abrangentes e generalistas que poderá levar à inclusão de qualquer trabalhador da CGD. Portanto, a ameaça de despedimento é real.

É evidente que uma comunicação deste tipo, que não respeita os compromissos públicos do governo, embora a administração da CGD diga o contrário, criou insegurança e medo na CGD, e causa a desmotivação dos trabalhadores. Será tudo isso o que se pretende?

Embora a decisão de aceitar ou não o despedimento voluntário por mútuo acordo só compete a cada trabalhador, é fundamental que ele esteja bem informado, pois as consequências na sua vida futura são muito grandes. Uma decisão desta natureza só deve ser tomada depois de uma informação completa e credível, e dada por quem não tenha conflitos de interesse, o que significa que não deve ser apenas a dada pelos serviços da CGD. E isto, repetimos, para que mais tarde o trabalhador não se arrepender, mas nessa altura já não há nada a fazer.

É importante também que cada trabalhador não se deixe intimidar. Embora a administração e direções afirmem que não haverá despedimentos, no entanto é de prever que ela a nível de serviços fixe objetivos de trabalhadores a “suprimir”  e que os trabalhadores depois sejam objeto de pressão e de assédio para aceitar o despedimento.  Por isso, é muito importante que não se deixem intimidar, e antes de tomar qualquer decisão se informem muito bem sobre as suas consequências na sua vida. O trabalhador não deve hesitar em escolher a melhor decisão para si depois de se informar devidamente.

Neste documento, vamos dar algumas informações importantes para alertar os trabalhadores da CGD sobre as consequências do despedimento por mutuo acordo, que depois devem ser completadas com informações ajustadas a cada caso concreto e pessoal. Para isso devem recorrer ao seu sindicato se acharem necessário.

O primeiro aspeto importante a ter presente  pelos trabalhadores abrangidos pelo sistema da CGA, é se aceitarem o despedimento perdem o direito ao regime atual do Fundo de Pensões e passam a ser abrangidos pelo regime da CGA que é muito diferente. A idade de acesso à reforma deixa de ser a do Fundo de Pensões e passa a ser a da CGA que, em 2017, é 66 anos e 3 meses, e que depois aumenta, em média, um mês em cada ano. Em segundo lugar, a fórmula de cálculo da pensão da CGA é muito diferente da do Fundo de Pensões. Por ex, a taxa de formação anual da pensão na CGA é de 2% por cada ano, ou seja, por cada ano de serviço o trabalhador tem direito, como pensão, a 2% do salario de referência atualizado, portanto o trabalhador para ter direito à pensão completa que corresponde apenas a 80% do seu salário atualizado tem de ter 40 anos de serviço. Portanto, é importante que o trabalhador antes de tomar qualquer decisão compare o regime da CGA, que passará a ser o seu,  com o do Fundo de Pensões, que é aquele que atualmente lhe é aplicado (se não souber deverá informar-se junto do seu sindicato).

Para além disso, os trabalhadores que aceitarem o despedimento nunca mais poderão descontar para a CGA, portanto se já não tiverem 40 anos de serviço nunca mais terão direito à pensão completa paga pela CGA. E enquanto a lei não for mudada, como já não estão no ativo, não poderão pedir a aposentação antecipada. Só poderão se aposentar quando atingirem a idade normal de acesso à aposentação que, em 2017, é de 66 anos e 3 meses, mas que aumentará , em média, um mês em cada ano, como já referimos.

Em relação aos trabalhadores da CGD abrangidos pela Segurança Social, se aceitarem o despedimento por mutuo só poderão pedir a reforma antecipada se tiverem aos 60 anos de idade 40 anos de serviço, e a pensão está sujeita a um corte pelo facto do trabalhador ter idade inferior à idade de acesso à reforma (0,5 % por cada mês que falte para 66 anos e 3 meses em 2017, que deve aumentar no futuro um mês em cada ano). E os que se reformarem ao abrigo do regime de reforma antecipada após desemprego de longa duração, a pensão sofre 3 cortes: (a) 6% por cada ano que tiver a menos em relação a 62 anos de idade;(b)  3% por cada ano que lhe falte para ter 66 anos e 3 meses; (b) E ainda é-lhe aplicado o fator de sustentabilidade que representa este ano um corte de 13,8% (mas que deve aumentar todos os anos) na pensão que o governo não quer eliminar neste regime. Os cortes (a) e (c) são para toda vida, o corte (b) é eliminado quando chegar à idade de reforma (66 anos e 3 meses em 2017, mas que deve aumentar todos os anos um mês).

Portanto, o primeiro conselho que dou aos trabalhadores da CGD é que não aceitem o despedimento sem antes se informarem muito bem sobre os efeitos do despedimento por mutuo acordo na sua pensão.

O segundo aspeto importante que devem ter presente, é que contrariamente ao que podem pensar a indemnização por despedimento por mutuo acordo (despedimento voluntário) está sujeita a pagamento de IRS e a descontos para a CGA ou para a Segurança Social, portanto o valor liquido, ou seja, aquele que vão efetivamente receber,  é diferente do valor ilíquido, ou seja, do valor que consta da comunicação da administração da  CGA

Segundo o Código do IRS (artº 2º, nº 4, alínea b) a parcela da indemnização que exceda um mês de remuneração por cada ano de antiguidade tem de pagar  IRS. O mesmo sucede em relação à Segurança Social e à CGA (a esta aplica-se mesmo regime) segundo os artº 46º e 48º do Código Contributivo. Assim se a indeminização por despedimento por mutuo acordo for 2,1 remunerações (mensal) por cada ano de antiguidade, então 1,1 remuneração (2,1 –1) por cada ano de antiguidade paga IRS e desconta para a CGA ou para a Segurança Social; se a indemnização for 1,6 meses por cada ano de antiguidade então desconta para IRS e CGA sobre 0,6 da remuneração por cada ano de antiguidade. Em relação ao IRS, como o pagamento é feito num mês esse excedente é somado à remuneração do mês, o que dá um valor elevado, e a taxa de retenção de IRS é muito elevada e atingindo 45,2% para rendimentos superiores a 25.200€. Para a CGA e Segurança Social o desconto é de 11%.

Portanto, o segundo conselho que dou aos trabalhadores da CGD é que não aceitem o despedimento sem antes fazer contas (se o pressionarem para se despedir peçam qual é o valor liquido da indemnização após o pagamento do IRS e da contribuição para CGA/Segurança Social e não o valor que consta da comunicação da administração), pois poderão ter surpresas desagradáveis, já que podem pensar que vão receber um valor de indemnização e depois recebem um outro bem diferente, muito inferior. Façam contas.

Há outros aspetos da comunicação da administração que os trabalhadores da CGD devem ler e analisar com muita atenção para não criar falsas espectativas.

Em relação aos “Benefícios complementares opcionais”, devem ter presente que para os ter (alguns são temporários) a indemnização de 2,1 remunerações (caso dos abrangidos pela CGA) ou de 1,6 remunerações (caso dos abrangidos pela Segurança Social) por cada ano de antiguidade é reduzida. Por ex. para ter todos os benefícios opcionais a indeminização de 2,1 remunerações mensais por cada ano de antiguidade é reduzida para apenas uma remuneração mensal por cada ano de antiguidade (0,3+0,1+0,2+0,5= 1,1 logo deduzindo 1,1 a 2,1 fica apenas 1 remuneração por cada ano de antiguidade).

Para além disso, o trabalhador abrangido pela CGA, que opte por receber o sucedâneo do subsidio de desemprego, que determina que a indeminização 2,1 remunerações por cada ano de antiguidade seja reduzida para 1,6 remunerações (2,1-0,5=1,6) por cada ano de antiguidade, logo que arranje emprego perde o direito a essa compensação mesmo que a soma do valor recebido seja inferior ao valor da indemnização que teve de abdicar.

É por tudo isto, que aconselhamos os trabalhadores da CGD a não tomar uma decisão precipitada e de ânimo leve, e a não se deixarem intimidar por eventuais pressões de chefias ou de outros responsáveis, e que se informem muito bem das consequências, pois depois de aceitarem o despedimento a situação é irreversível.

2. HÁ OUTRAS ALTERNATIVAS NA CGD QUE NÃO DESPEDIR MAIS TRABALHADORES, FECHAR MAIS AGÊNCIAS E VENDER ATIVOS QUE SÃO IMPORTANTES PARA QUE A CGD POSSA CUMPRIR A SUA MISSÃO

Contrariamente àquilo que a administração da CGD e os seus mentores pretendem fazer crer, há alternativas aos enormes aumentos de cortes de custos, ao despedimento de elevado numero de trabalhadores, ao fecho de inúmeros balcões, e à venda de ativos importantes para a CGD. É isso que vamos procurar mostrar neste estudo, que pode ser longo para muitos, mas que é importante que se analise com detalhe os problemas mais importantes que a CGD enfrenta, pois só assim é que poderá ficar claro o que é preciso fazer, e não está a ser feito, facto este que contribui para agravar assim os problemas para depois utilizar para justificar as medidas que se pretendem tomar.

A CGD é atualmente a instituição financeira ainda líder, pois detém 22% da quota do mercado bancário. É sem dúvida muito importante recuperar e tornar a CGD rentável. E isto porque só assim é que a CGD, por um lado, pode gerar internamente capital para evitar que os contribuintes sejam obrigados a recapitalizar de novo a CGD face às exigências crescentes dos supervisores (BdP e BCE) e, por outro lado, consolidar a sua posição de banco líder, desempenhar a sua missão como grande banco público, e respeitar os direitos dos trabalhadores.

Neste momento, duas opções claramente opostas se confrontam na CGD e é importante que todos tenham consciência disso para não poderem dizer mais tarde que não sabiam. E essas opções são as seguintes: (1) A primeira, com a justificação de  que para tornar a CGD rentável, defende que é necessário fazer uma redução enorme de trabalhadores (despedimentos com “mútuo acordo”, despedimentos mesmo forçados, e pré-reformas) e fechar muitas mais agências. Esta opção, que parece ser a da atual administração utilizando para isso o plano de reestruturação cozinhado por António Domingues e aprovado por Bruxelas, a avançar, com a configuração que está em curso, transformará inevitavelmente a CGD numa “mini-CGD” ou numa “Caixinha”, embora os seus defensores afirmem desejar o contrário, deixando assim o campo aberto para a banca privada controlada por estrangeiros se expandir ainda mais e aumentar o seu domínio sobre a economia e a sociedade portuguesa; (2) A 2ª opção, aposta no aumento do negócio bancário (credito à economia e às famílias), na recuperação do crédito em risco, na redução dos NPL´s e dos “ativos não correntes detidos para venda”, etc., tarefas difíceis tendo em conta o contexto negativo para o negócio bancário, mas absolutamente necessárias para consolidar a CGD com grande banco público e para a tornar rentável de uma forma sustentada que parece não preocupar os defensores da 1ª opção mais interessados em cortar custos e em reduzir a dimensão da CGD.

Neste estudo procura-se identificar os pontos fracos (weaknesses) mais importantes da situação atual da CGD pois só assim será possível definir, de uma forma fundamentada, uma estratégia e medidas adequadas visando a recuperação e a consolidação da CGD. É a nossa contribuição para a reflexão, que pretende ser também um alerta, na defesa deste grande banco público e dos seus trabalhadores e uma ajuda às suas organizações.

3. LIMITAÇÕES DO ESTUDO DEVIDO À INSUFICIENTE INFORMAÇÃO COMPLEMENTAR DISPONIBILIZADA DEVIDO À COMPLACÊNCIA DO SUPERVISOR

A análise que se vai fazer tem limitações devido ao facto da informação complementar disponibilizada nos relatórios e contas dos bancos, apesar de ser muito importante para se poder avaliar a situação de cada banco e a qualidade da sua gestão de uma forma fundamentada, não estar normalizada (essa é uma responsabilidade do BCE e do BdP que, infelizmente, fogem a ela), o que permite que uns bancos divulguem um tipo de informação e outros não (ex.:crédito repartido por tipo de garantias, “write-off”, etc), e também que o mesmo banco divulgue num ano um tipo de informação e no ano seguinte já o não faça porque isso não lhe convém (ex. CGD que, em 2015, divulgou informação sobre o credito às micro e PME´s  e, em 2016, sobre “write-off” mas que, em anos anteriores e seguintes, já o não fez). E isto é grave porque, para quem conhece a realidade bancária, sabe bem que o mais importante não é sempre o que consta das contas oficiais, mas o que não consta delas e que muitas vezes se fica a conhecer através da informação complementar (o chamado Anexo às Demonstrações Financeiras) que muitos não dão a devida atenção porque dá muito trabalho analisá-las. O BCE, e o Banco de Portugal, como supervisores, deviam por cobro a isso normalizando a informação complementar, para criar confiança e segurança mas, infelizmente, não o fazem apesar da obrigação que decorre  da IFRS7 e da CRR 575/2013, Parte VIII, do Parlamento Europeu e Conselho, dando cobertura aos que interessam a opacidade.

A CGD, como banco público devia dar o exemplo, mas infelizmente também isso não acontece, pois não divulga dados essenciais (ex. novo credito, ou seja, produção nova anual; credito a micro e PME´s e grandes empresas segmentado; credito repartido por tipo de garantias assim como o mesmo em relação ao crédito  com imparidades, e o anulado por tipo de garantias, ou seja, os “write-off” realizados em cada ano e segmentados; carteira anual vendida, preço, e seu impacto a nível de contas individuais e consolidadas; etc.). E isto apesar de alguns destes dados serem publicados por outras instituições financeiras, e mesmo a CGD publica-os quando está interessada que sejam conhecidos, o que não colhe a justificação de confidencialidade.

É um alerta que se deixa ao BCE, ao Banco de Portugal e à administração da CGD para que seja normalizada a informação complementar que é fundamental também para se saber qual é a situação de cada banco e para se poder avaliar a qualidade da sua gestão de uma forma fundamentada, e também para se poder fazer análises da mesma instituição financeira em momentos diferentes e assim se poder avaliar a sua recuperação.

A confidencialidade da atividade bancária não pode continuar a ser utilizada para ocultar a má gestão e a gestão danosa, como tem acontecido, que depois é paga por clientes, investidores e até pelos contribuintes. É certamente incompreensível para a opinião pública que se divulguem, e bem, os nomes dos que têm dividas ao fisco e à Segurança Social, mas se oculte os nomes daqueles que não pagam os grandes créditos à banca que depois têm de ser pagos pelos acionistas, clientes e pelos contribuintes. E isso é ainda mais grave quando essa recusa é feita em relação à própria Assembleia da República. Se a atividade bancária fosse mais transparente certamente as administrações dos bancos sentir-se-iam mais responsáveis pelas decisões, e seriam certamente mais facilmente responsabilizadas pela gestão danosa, e os supervisores não poderiam utilizar, a nível da opinião pública, a desculpa de que não sabiam e que foram enganados, e por isso não intervieram no momento adequado.

4. O RISCO DA ELEVADA EXPOSIÇÃO DA CGD EM TÍTULOS QUE SE AGRAVOU COM A ATUAL ADMINISTRAÇÃO QUANDO TUDO ACONSELHAVA A REDUZI-LA

Um ponto fraco (weaknesses) da situação atual da CGD, prende-se com a sua elevada exposição a títulos. Embora a CGD não seja um banco de investimento, o certo é que tem uma elevada exposição a ativos financeiros (títulos), já que uma percentagem muito elevada do seu Ativo está aplicada em títulos. No fim de 2016, as aplicações em títulos (15.581 milhões €) representavam 16,6% de todo o Ativo liquido e, em 31.3.2017, essa exposição tinha aumentado para 18,2% (17.562 milhões €), o que é a mais elevada entre todas as instituições financeiras, e determina riscos elevados, pois o seu valor depende das flutuações do mercado (yields). Com a baixa da taxa de juro verificada na divida portuguesa, vários bancos obtiveram mais-valias importantes no 2º Trim.2017 vendendo divida, o que lhes permitiu “compor” o “Produto bancário” através de “resultados de operações financeiras

Para uma melhor compreensão dos efeitos nas contas da CGD da elevada carteira de títulos transcreve-se a nota da pág. 188 do relatório e contas de 2016, que esclarece como as variações no valor destes títulos se refletem nas contas: “Os ativos financeiros disponíveis para venda são mensurados ao justo valor…. Os ganhos ou perdas resultantes da reavaliação são registados diretamente em capitais próprios, na rubrica de “Reservas de reavaliação”, o que reduz o Capital próprio aquando de menos-valias. “No momento da venda, ou caso seja determinada imparidade, as variações acumuladas no justo valor são transferidas para proveitos ou custos do exercício, sendo registadas em “Resultados de ativos financeiros disponíveis para venda” ou “Imparidade de outros ativos financeiros líquida de reversões e recuperações” com efeitos nos resultados. Entre 2015 e 2016, as “Reservas de reavaliação – instrumentos de divida” passaram do positivo (+169,8 milhões €) para um valor negativo (-93,4 milhões €), e os resultados de operações financeiras diminuíram também de 345,8 milhões e para 79,4 milhões €. Entre o 1º Trim.2016 e o 1º Trim.2017, os resultados de operações financeiras passaram de um valor negativo de -98,1 milhões € para um valor positivo de +80,7 milhões €. Estes dados dos relatórios e contas mostram claramente a extrema volatilidade deste negócio e os riscos que representa para a CGD.

Entre o 1º Trim.2016 e o 1º Trim.2017, embora as imparidades de crédito tenham-se reduzido de 67,7 milhões € para apenas 28,3 milhões €, as “provisões e imparidades de outros ativos” aumentaram, no mesmo período, de 16 milhões € para 84,4 milhões €, o que determinou que, entre o 1º Trim.2016 e o 1º Trim.2017, as imparidades e provisões totais tenham aumentado de 83,7 milhões € para 112,7 milhões €, ou seja, registaram neste período uma subida de 34,6%.

Embora a divida pública tenha vantagens quer a nível do Ativo ponderado pelo risco (RWA) quer pelo facto de poder ser utilizada como colateral junto do BCE, no entanto face à sua dimensão (52% da aplicação em títulos) torna-se necessário uma análise cuidadosa do risco resultante desta elevada exposição a títulos (fazendo testes de sensibilidade) e, a confirmarem-se os riscos, medidas adequadas para os reduzir, pois o dinheiro dos contribuintes e dos clientes não deve ser utilizado para aplicações de elevado risco (especulativas), já que essa não é missão de um banco público.

5. O NEGÓCIO BANCÁRIO CONTINUA A CAIR E A NOVA ADMINISTRAÇÃO NADA TEM FEITO PARA INVERTER A SITUAÇÃO

Um outro ponto fraco (weaknesses) revelado pelas contas da CGD, é a continuação da queda do crédito concedido. Entre 2010 e 2016, verificou-se uma redução continuada (em todos os anos) do crédito quer bruto quer liquido, ou seja, do negócio bancário, que não foi invertida no 1º Trimestre de 2017. Entre 2010 e 2016, o crédito bancário bruto diminuiu de 84.517 milhões 68.500 milhões € (-16.017 milhões €) e o crédito liquido passou de 81.907 milhões € para 62.867 milhões € (-19.040 milhões €). E, em 2016, verificou-se a reclassificação de 2.276,99 milhões € referentes aos três veículos do BPN (ainda uma consequência da nacionalização do BPN que continua por se resolver) que estavam contabilizados em “Ativos financeiros disponíveis para venda” e que passaram a ser contabilizados em “crédito interno” conforme consta das notas 6 e 9 (págs. 211 e 219) do relatório e contas de 2016. Portanto, se deduzirmos este valor a redução do credito em 2016 ainda foi maior.

No 1º Trim.2017, já com a nova administração, esta queda do crédito não parou pois, em 3 meses apenas, o crédito bruto diminuiu em -1.362 milhões € (passou, entre Dez.2016 e 1º Trim.2017, de 68.500 milhões € para 67.138 milhões €), e o crédito líquido reduziu-se em -1.309 milhões € (passou de 62.867 milhões € para 61.558 milhões €). Embora o relatório da CGD, à semelhança do dos outros bancos, se caraterize por falta de transparência nesta área, pois não são divulgados anualmente dados sobre a produção nova (crédito novo), sobre as liquidações, as amortizações e o credito abatido por segmentos, mesmo assim a conclusão imediata que se tira é que o novo crédito concedido continua a não ser suficiente para compensar o crédito que é liquidado, amortizado e abatido (write-off).

Esta redução continuada do crédito líquido, que se verificou também no 1º Trim.2017 determinou que a CGD tenha perdido quota de mercado. Entre 2015 e 2016, segundo o relatório e contas, não só a quota total de mercado diminuiu de 22,5% para 21,8%, mas também caiu em quase todos os segmentos: Empresas: passou de 19,8% para 18,8%; Particulares passou de 23,6% para 23%, reduzindo-se 0,4 p.p. na Habitação e no consumo diminuiu 0,3p.p.. Apenas aumentou no setor público administrativo que subiu de 33,3% para 34,4%. No 1º Trim.2017 parece ter havido uma inversão desta tendência que resultou do facto da contração do crédito a nível sector ter sido maior do que na CGD.

Se analisarmos a evolução dorácio de transformação” ou de desalavancagem (crédito liquido a dividir por depósitos), um rácio que pode ser também utilizado para medir a eficiência da equipa de gestão, ou seja, a sua capacidade para fazer negócio, constatamos que, entre 31.Dez.2010 e 31.Março2017, passou de 121% para apenas 88,1%. Isto significa que, em 2010, a CGD por cada 100€ de depósitos que recebia emprestava, através do credito que concedia, 121€, enquanto no 1º Trim.2017 por 100€ de depósitos que recebeu emprestou apenas 88,1 € , ou seja, o valor dos depósitos é bastante superior ao credito que concede. E se somarmos aos depósitos as “responsabilidades representadas por títulos”, que são também recursos de clientes, este novo rácio, que designamos por rácio de transformação-2” já baixa para apenas 83,3%, o que significa que por cada 100€ de recursos de clientes a CGD só emprestou (concedeu crédito) um valor de 83,3€. É também um indicador, se diminuir em excesso, como acontece atualmente, de ineficiência de gestão que importa rapidamente corrigir, pois o “gap” comercial é cada vez maior.

O grande desafio que se coloca à nova administração, e que parece ser incapaz de responder, até porque os seus membros não têm uma grande experiências bancária, é inverter esta quebra continuada do negócio bancário o que, embora difícil, tendo em conta o contexto económico e social negativo para a banca, é necessário e urgente. Por isso, um plano credível para aumentar o negócio bancário, que devia ser depois apresentado e explicado aos trabalhadores para os mobilizar para os seus objetivos, parece ser fundamental, o que ainda não foi feito pois os trabalhadores continuam a não o conhecer.

O que se tem verificado na CGD, de acordo com informações de trabalhadores, é a multiplicação de ameaças e de exigências que não se fundamentam nem se explicam a forma como podem ser alcançadas. A continuar com tal atuação criar-se-á na CGD um ambiente de insegurança e de desmotivação com consequências graves para a instituição e para os trabalhadores. É uma situação que deve ser rapidamente corrigida pois, caso contrário, é-se obrigado a concluir que o aumento do negócio bancário não constitui, de facto, uma preocupação importante para a atual administração da CGD.

Associada à situação anterior, segundo informação dos trabalhadores, tem-se verificado na CGD uma morosidade excessiva na aprovação de pequenos créditos que agora têm de ir ao conselho de administração e que, por vezes, são recusados. Compreende-se a decisão de controlar com maior rigor o risco, o que não se observava no passado e que determinou enormes prejuízos para a CGD. Mas a burocratização e morosidade do processo de concessão de crédito que se está a verificar, a manter-se, determinará a desmotivação quer dos trabalhadores da CGD (a quem cabe promover a concessão de crédito) quer dos próprios clientes levando-os a mudar de banco, como está a suceder. É um aspeto importante que deveria ser corrigido pois, caso contrário, o estrangulamento do crédito será ainda maior com efeitos graves para a recuperação e consolidação da CGD e para a economia e desenvolvimento do país.

(Amanhã, quinta-feira, 20 de Julho, à mesma hora, continuamos a publicação deste trabalho de Eugénio Rosa sobre a CGD)

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Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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