A GALIZA COMO TAREFA – armas dos ‘probes’ – Ernesto V. Souza

Hibridação, mímese, diferenciação e ambivalência. Tais termos descrevem diversas formas pelas quais as pessoas colonizadas resistiram ao poder do colonizador, de acordo com a teoria de H. K. Bhabha, o grande teórico das análises do postcolonialismo.

Edward. W. Said propõe na sua obra fulcral Orientalismo, que muito do estudo ocidental da civilização islâmica e dos estudos agrupados sob esse termo e referidos ao Oriente, próximo e Ásia como um conjunto, não passa de uma obra de intelectualismo político, destinado a auto-afirmação da identidade europeia, e não ao estudo académico objetivo. Assim, o campo académico dos estudos orientais funcionou como um método prático de discriminação cultural e fundamentação doutrinária da dominação imperialista – para consagrar a ideia que os estudiosos ocidentais sabem mais sobre o Oriente do que os orientais.

Substituindo oriental e orientalismo, por colonialismo e dominação, podemos ampliar facilmente o sentido da análise a qualquer relação de dominação, política, social, económica.

A antropóloga Paula Godinho, no seu recente ensaio “O futuro é para sempre” destaca como as formas de protesto podem ser múltiplas: desde o escapismo, o voraginoso das lutas locais imediatas e constante, e até aos modos de ação colectiva. São as «armas dos fracos», que podem ir do rumor, ao roubo, à lentidão no desempenho de tarefas. Modos de atuação sem protagonistas, mas com resultados. Os modos de ação dependem da densidade da rede social em que cada uma se integra, que a torna mais forte ou mais fraca, e, por outro lado, de conjunturas políticas, económicas e sociais que propiciam o protesto aberto ou sugerem formas mais subtis.

Carlos Calvo, na sua dupla experiência de antropólogo e prisioneiro, analisa neste sentido a experiência da linguagem e modos carcerários:

“… um observador externo ingénuo poderia interpretá-las como um signo de bom ambiente carcerário, como pode ser às vezes, mas sobretudo é um sintoma das relações de dominação que constituem o encerro.

A linguagem dos presos está saturada das prevenções simbólicas, circunlóquios, e rodeios linguísticos que Bourdieu detetava na fala dominada das mulheres num contexto de dominação masculina. [1] Todo sucede como se constantemente se estivesse a temer um castigo. Apenas há afirmações francas, as frases dos presos quando falam com os carcereiros estão cheias de condicionais, por vezes roçando o autoparódico: ” Perdone usted señor don funcionario, ¿podría usted, si no es mucha mulestia y puede, hacerme el favor de… ?”. A petição, embora seja de um direito, forma-se protegida por um bom colchão de amortecedores linguísticos, como pondo a venda antes da ferida.

Em qualquer intercámbio preso-carcereiro dá-se uma negociação linguística na qual entra em jogo a dignidade e a posição de cada um nessa relação de dominação. “

Numa cultura tradicional de alto contexto, como é a galega, integrada fatalmente ou submetida, a uma de baixo contexto (como é a espanhola castelhana) os “equívocos” são uma constante de dupla face.

Por uma banda na perspetiva do dominador os intercâmbios alimentam os tópicos (em forma de metáforas) que fundamenta o tropos (a alegoria consagrada) que termina por deslocar e substituir à análise da realidade e a interpretação científica dos feitos políticos, dos sucessos históricos e até das palavras dos protagonistas. Tudo é reelaborado para encaixar no lugar comum pre-estabelecido pelo colonizador.

Por outra banda na perspetiva do dominado consciente, criam uma surrealidade hibridada, mimética, na que a ambivalência é possível e funciona como mecanismo de defensa para o colonizado, ou o submetido, criando por meio da distância, do absurdo e da diferenciação de perspetiva ou contexto em base à própria cultura, um reapropriamento dos termos, dos feitos, dos tropos, que em boa medida são “marcados” humoristicamente.

A hibridação da língua acontece também nos dous sentidos: a transformação da língua do dominado na do dominante é um elemento de mimetizagem na procura do capital ou o poder da língua do dominante ou pode ser simples camuflagem ou dissimulo para não renunciar à língua do dominado no sistema do dominante. As possibilidades são diversas, mas mesmo nas suas formas puramente híbridas de castelhano da Galiza, de castrapo ou de castelhano híbrido de base galega, não deixa de subsistir uma forma de resistência, por via de diferenciação, à assimilação plena.

Este diálogo e confronto é resolvido com incompreensão, suspicácia e suspeita por parte do dominador e com retranca, humor e complicações (as “armas dos probes“) por parte dos dominadores. A ambivalência na linguagem é algo comum a todos os sistemas de colonizados: como também é comum ter uma elite intelectual que os retro-assimila e faz deles bandeira e reivindicação da nação.

Na Galiza, antes e depois do grande Castelao, mestre de subversões que bebeu no popular e foi nele devolto para fazer parte do acervo, a subversão, o protesto calado manifesta-se seguido em forma característica de retranca: um jeito de ambivalência propositada.

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